O fantasma da sua voz

A primeira vez que ouvi o fantasma da sua voz na minha cabeça eu saía da médica a caminho da casa do Matheus*, um cara que conheci e comecei a sair pouco depois do fim. Ela soou em alto e bom som, carregada de desdém, dizendo que ele era mesmo o tipinho que eu sempre quis, riquinho, descolado, inteligentíssimo, nerd e ainda fazia todos meus gostos, inclusive com presentes.

O fantasma da sua voz continha exatamente o mesmo tom debochado de todas as vezes que você, irracional, achava que me derrubaria afirmando que sou uma vendida, que só queria me relacionar por dinheiro . Irônico porque estava há anos logo com você, que não tinha um puto nunca.

O que você nunca entedeu, no entanto, é que nunca achei que isso fosse um problema, logo você nunca me ofendeu. Mas sempre me deixou furiosa, da mesma maneira que fiquei, no meio da rua, ao ouvir o fantasma da sua voz.

Logo em seguida lembrei-me, por fim, que havia combinado comigo mesma que nada do que você fez comigo tiraria meu brilho e minha vontade de viver intensamente.

Como resposta ao fantasma da sua voz murmurei, plena de certeza:

— Ele tem me dado, em dias, o que você em anos nunca me deu.

Eu sabia que aquilo te atingiria se tudo isso fosse verdade, e então, como um gênio mau, seu fantasma virou uma nuvem de pó e dissipou-se da minha mente.

Naquele dia toquei a campainha sorrindo, comi sushi pra caralho e trepei muito.

Gracias.


Este conto foi escrito a mão, de lápis numa folha de caderno, dentro do metrô de São Paulo num acesso de inspiração e por falta de bateria no celular. Deixe seu like se você curte coisas feitas à moda antiga :D