Quase vinte e sete

The girl, cat, butterfly and..(2016) — Pie (Chae Sehee)

Não tem muito o que falar. Todo ano em fevereiro é a mesma coisa, passo os primeiros quinze dias animada e empolgada com o ano que começa, com aquele sentimento de “vou usar meus materiais novos!” — que aliás eram sempre bem bonitos, se não eram de personagens que eu gostava eram sempre customizados pela minha mãe e minha tia e eu gosto muito dessa lembrança da época do quarto ano, que aliás na época ainda se chamava quarta série. Sim, eu sou redundante, constantemente, uma coisa que sei fazer muito bem é repetir as coisas e enfatizá-las bem pra ter certeza de que fui bem compreendida. Talvez esse seja um dos motivos pelo qual decidi escrever tudo isso que está passando na minha cabeça, apesar de já ter falado ativamente sobre o assunto com umas sete pessoas. Só pra registrar, considero essa quantidade de pessoas para conversar sobre assuntos triviais e outros extremamente importantes ao mesmo tempo um número bem grande, mesmo que parte sejam da minha família direta. Na verdade esse é outro ponto que me considero sortuda, poder falar com meus pais ou meu irmão sobre qualquer assunto que vem à minha cabeça e não ser apedrejada por tocar assunto “x”.

Bem, o que eu queria dizer no parágrafo anterior é que fevereiro trás, ano após ano, uma divisão de sentimentos em mim. Os primeiros dias ainda são carregados de expectativas e planos, tentando inconscientemente me ater às metas para o ano vigente que eu nunca botei pra fora da minha cabeça. Mas pro fim da primeira quinzena sempre me dou conta que no anterior não realizei metade das coisas que gostaria. Que não foi com oito anos que consegui tirar a nota mais alta em português, minha matéria favorita. Que não foi com dezesseis que consegui um boletim com notas pelo menos dois pontos acima da média. E nem com dezessete que consegui passar em um vestibular. Veja bem, em vinte de fevereiro, todos os anos, minha família celebra o meu aniversário. Sempre achei uma coisa curiosa, quando criança isso significava que eu tinha que ajudar a arrumar e preparar tudo para a festa com os outros familiares, mas também era certeiro que iria comer comidas que gostava e iria ganhar alguns agradinhos de pessoas que eu gostava. A questão é que isso tinha um significado para mim simplesmente pelo fato de ter significado para os outros. Nunca tive facilidade em me reconhecer como ponto principal em qualquer aspecto da vida, gosto de ficar na sombra, e isso me persegue até hoje.

Esse ano completo vinte e sete anos em exatos cinco dias. E o que eu estou sentindo é uma coisa bem bizarra, não estou frustrada, não estou com medo da idade e nem nada. Só acho muito estranho como alguém com a minha mentalidade pode ter tantos anos de vida acumulados. Parece que nesse período todo eu só vivi uma parcela do tempo. Até este ano só consegui realizar algumas das coisas que eu sempre quis, sendo que das citadas acima, foram ser aprovada em um vestibular (mas aos vinte e três anos) e um histórico escolar com mais de oitenta por cento de aproveitamento. A verdade é que depois da quarta série, nunca mais me preocupei com a nota que eu tirava, bastava ser o suficiente para a professora não precisar chamar a minha mãe. No ensino médio, eu realmente não me preocupava com meu aproveitamento escolar, notas baixas e provas de recuperação eram rotina, mas, felizmente nunca foram motivo de drama. Mas isso não quer dizer que não estudava, eu só não sabia que aquilo também era estudar. Estamos falando de uma garota que passou dos cinco anos aos dezessete sonhando em ser autora de livros, que lia livros e dicionários de madrugada e copiava cada verbete para usar nas poesias e nos contos, que foi autodidata na aprendizagem da língua inglesa porque não tinha internet discada pra procurar letras das músicas do Nirvana. Que achava que era cosmicamente ligada ao Kurt Cobain e mais próxima dele do que Frances Bean Cobain simplesmente porque soube que nasceu no mesmo dia e mesmo mês que ele e foi internada com meningite, sem movimentos do lado esquerdo inteiro e instalada em uma área de isolamento no mesmo dia em que ele morreu. Confesso que a última dúzia de linhas foram uma forma de tentar esclarecer que eu não era completamente desinteressada nos estudos, isso é uma coisa que faço com frequência, tentar me justificar antes de haver necessidade.

Neste exato momento, às 03:29 de 15 de fevereiro de 2017, começo de uma quarta feira, eu estou me sentindo atrasada. Muito atrasada e com muitos planos e isso está gerando uma confusão tão grande que não tenho conseguido me focar em absolutamente nada nestes dias. Eu deveria estar estudando para um concurso bem concorrido que vai acontecer em quatro dias, deveria estar criando materiais novos para o meu portfólio de design gráfico, deveria estar enviando currículos para empresas e escolas, deveria estar organizando os preparativos para a primeira festa que organizo para mim mesma, poderia estar assistindo algum filme ou série para acalmar um pouco a mente ou poderia estar lendo um mangá, um dos vinte livros que tenho na minha estante mas não terminei de ler, um dos mil e cinco ebooks que tenho salvos no computador (todos pertencentes a temas como “sociedade e filosofia moderna e contemporânea”, “arte-educação”, “arte brasileira”, “história da arte ocidental”, “arte contemporânea”, “arte e cultura asiática”, “dança contemporânea”, “butoh”, “kabuki e noh”, “teatro”, “corpo e sexualidade”, “feminismo”, “feminismo asiático”, “design gráfico”, “teorias de arte”, “arteterapia”, “psicologia”, “estética”, “semiótica” e mais dezesseis pastas de autores que acho mais relevantes que os demais). Mas você percebe o problema que existe aí? Eu não tenho foco, não consigo me identificar mais com uma área do que com as outras. Na minha cabeça existe uma lista horizontal extremamente extensa que é exatamente assim.

Desculpe se você leu até aqui, mas tudo isso foi só um registro das minhas preocupações banais. Nos tempos de hoje é tão fácil ter uma formação e estar desempregado, é tão fácil não achar seu lugar porque tem muitas opções, e com o passar do tempo as coisas parecem ficar um pouco menos turvas, isso é, até quando eu puder depender da boa vontade dos meus pais pra me oferecerem abrigo e comida de graça.