não volta nunca mais

da janela do restaurante tailandês no bairro afluente da capital irlandesa, observávamos a rua lá fora. o movimento da hora do rush, carros, ônibus e bicicletas, e o céu tipicamente cinza que poderia ameaçar chuva e até geada, pois já era dezembro e o frio úmido já castigava.

olhávamos cardápios.

tínhamos o costume de pedir pratos diferentes, um para cada, e dividir todos, assim poderíamos provar mais sabores, mais opções. quatro pessoas, doze pratos, entre entradas e principais e sobremesas. tínhamos fome e gana de sabores.

tínhamos tempo.

aguardávamos a chegada dos pratos e observávamos a rua lá fora. ‘ainda chove hoje.’ ‘chove todo dia.’ ‘é.’ saboreávamos a entrada, poucas palavras, uma intimidade de quem convive, de quem já não precisa da fala para a comunicação. erguidas de sobrancelhas desenhadas e maquiadas, meneios de cabeça, sacudidas de ombros, textos e mais textos contidos em pequenos gestos.

éramos próximas.

prato principal, bebidas, gemidos, comentários esparsos sobre os temperos, goles, guardanapos. a pimenta aquecendo corpos, um cardigã removido, um cachecol que vai pra bolsa, mais goles, talheres deixados sobre pratos vazios, sobremesa, chá. seguíamos sentadas.

tínhamos preguiça.

da janela do restaurante tailandês, satisfeitas e aquecidas e ainda ou novamente quietas, observávamos a rua lá fora através da janela envidraçada. em uma metade da janela, a esquerda, a rua, a noite, seca. na outra metade, a direita, chuva. chuva pesada, forte, reta, uma chuva pouco irlandesa e menos ainda invernal.

estávamos maravilhadas.

como se fôssemos meninas, fomos até a janela, colamos os narizes na vidraça da janela, não podia ser verdade, certamente não podia. mas sim, de um lado chovia e do outro a noite era seca e escura e nos olhávamos e comentávamos falando alto, rindo, empolgadas, incrédulas e ainda mais maravilhadas. a chuva reta e pesada cessou depois de alguns minutos, apenas cessou, como se tivesse vindo somente para nos encantar e nos fazer rir.

talvez a última vez em que nos maravilhamos e rimos com algo tão simples.

talvez a última vez que algo foi simples pra nós.

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