A comunidade médica finalmente se deu conta de que o útero é mais do que uma “casa para bebês”

Tradução minha da matéria da Popular Science.

Para além de durante a gestação, o útero não costuma receber muita atenção dos médicos. Mas isso acabou! Os cientistas estão começando a explorar a complicada conexão entre o útero, os ovários e o cérebro para entenderem melhor como a remoção desses órgãos pode impactar a saúde de uma pessoa.

Ratas que tiveram seus úteros removidos tiveram mais dificuldade com memória funcional do que ratas que receberam outros tipos de cirurgias ginecológicas, observou um estudo publicado nesta semana no periódico Endocrinology. Os cientistas por trás da pesquisas dizem que este é um primeiro passo da análise de como o sistema reprodutivo —e decisões para alterar esses sistema—podem influenciar a cognição e a saúde.

Até recentemente, a comunidade médica pensava no útero principalmente como apenas uma “casa para bebês”, diz Donna Korol, uma bióloga que estuda os mecanismos neurais do aprendizado e da memória na Syracuse University e que não está envolvida no novo estudo. Mas considerando-se a função do órgão de produção e regulação hormonal, isso está lentamente começando a mudar.

“No geral, o dogma no campo é que o útero não-grávido está hibernando— alguns especialistas chamaram até de ‘inútil’”, diz Heather Bimonte-Nelson, coautora do estudo e neurocientista comportamental na Arizona State University. “Acreditamos que or órgãos reprodutivos de uma mulher possam ter valor para além de sua capacidade reprodutiva, então queremos avaliar mais os efeitos do útero.”

Cerca de um terço das mulheres nos EUA fará uma histerectomia antes de completar 60 anos, e a maioria delas antes da chegada natural da menopausa, por volta dos 50 anos. É a segunda cirurgia mais comum para mulheres nos EUA, seguindo a cesariana. E, em cerca de metade dessas cirurgias, as pacientes terão apenas o útero removido, enquanto na outra metade elas terão o útero e os ovários removidos. Manter os ovários pode evitar que a mulher entre na menopausa precoce após a cirurgia. Remover os ovários também pode estar ligado ao aumento do risco de doenças cardíacas e osteoporose.

Estudos anteriores notaram que o estrogênio e outros hormônios produzidos pelos ovários podem ajudar a proteger as estruturas neurais do cérebro ao promover saúde cardiovascular, de tecidos, ossos e urogenital. Mas o útero e os ovários estão muito conectados, e os nervos conectam o cérebro a ambos esses órgãos reprodutivos. Alguns estudos começaram a olhar mais de perto para essa conexão, avaliando a ligação entre histerectomias e o risco de demência precoce. “Estamos realmente apenas começando a olhar para o útero como um regulador da função cerebral, em vez de focar apenas no ovário”, diz Korol.

Bimonte-Nelson e Stephanie Koebele, uma estudante da graduação no laboratório de Bimonte-Nelson e coautora do estudo, começou o experimento antes de realizar a cirurgia em 60 ratas. Um grupo de ratas teve seu útero removido (uma histerectomia), outro grupo teve apenas os ovários removidos (uma ooforectomia), um terceiro grupo teve o útero e os ovários removidos, e um quarto grupo passou por uma cirurgia, mas nenhum órgão foi removido. As pesquisadoras usaram procedimentos que imitam os tipos de cirurgias realizadas em humanas.

As ratas passaram 6 semanas se recuperando da cirurgia antes de Koebele e Bimonte-Nelson começarem a testá-las. As pesquisadoras avaliaram a memória espacia e funcional de cada roedora usando uma série de labirintos que forçavam as ratas a encontrar plataformas submersas em água e navegar de volta para essas plataformas— ou o local onde as plataformas costumavam estar. Koebele e Bimonte-Nelson queriam avaliar a capacidade das ratas de lembrarem de dicas de navegação e de mudanças feitas pelas pesquisadoras nos labirintos durante o experimento.

Elas descobriram que o grupo de ratas que teve apenas o útero removido teve o pior desempenho no labirinto de teste da memória funcional. A memória funcional é como a memória recente que precisa ser atualizada, explicou Bimonte-Nelson. Por exemplo, lembrar de um número de telefone é um exemplo de memória recente. ter que lembrar esse número de telefone e utilizá-lo de alguma maneira, como adicionar os números, requer memória funcional.

Cerca de dois meses após a cirurgia, as cientistas examinaram novamente as ratas que ainda tinham os ovários. Elas notaram que embora a estrutura física dos ovários não tenha sido alterada, o equilíbrio hormonal no grupo com histerectomia e no que não teve remoção de órgãos estava levemente diferente, indicando que remover apenas o útero faria com que os ovários produzissem hormônios levemente diferentes —pelo menos durante um curto período após a cirurgia.

Bimonte-Nelson e Koebele não ficaram surpresas em ver que esse grupo variava muito em comparação ao grupo que teve o útero e os ovários removidos. A diferença, Bimonte-Nelson explica, é que remover apenas o útero afeta a conexão uterino-ovariana-neurológica, diferente da remoção do sistema completo. Quando o sistema é afetado, os órgãos restante tentarão pegar essa carga para retornar ao normal, possivelmente causando as alterações hormonais que as cientistas viram no grupo com histerectomia.

O curto período —apenas dois meses após a cirurgia— significa que as cientistas não puderam tirar conclusões sobre os efeitos a longo prazo da histerectomia na função cognitiva. Este também é um estudo com modelo animal, então as observações não correspondem precisamente ao que ocorre com humanas. Ainda assim, a pesquisa que vem deste grupo representa o que há de mais moderno nos esforços para entender melhor a menopausa, diz Korol.

Há muito ainda para se aprender, mas uma coisa está clara: é hora de o útero ter mais crédito do que apenas sua capacidade de fazer bebês.


2018 e agora a ciência acha que o útero serve pra algo além de carregar bebês. Antes tarde do que nunca e que bom, mas é mais um exemplo de a ciência chegando agora perto do que as abuelas, curandeiras, terapeutas de feminino, entre tantas outras, sabemos já faz um “pouco” mais de tempo.