a grande crise de 2015
quem me segue há algum tempo nas redes sociais já deve ter me visto falar da grande crise de 2015™.
quase dois anos depois, eu acho que o processo iniciado ali, ou até antes, ficou claro para mim. e como esta plataforma tem servido para eu me conectar com meus estudos e aprendizados, quero escrever sobre isso.
eu vinha praticando yoga desde 2002. em 2014 me formei yogaterapeuta. em 2015 comecei a estudar as escrituras em uma pós-graduação e, lá pelo fim de 2015, me desencantei totalmente com o yoga.
me senti muito mal com esse desencanto. 13 anos de prática e estudo, eu pensava, pra agora largar tudo? culpa, tristeza, cobrança, passei uns bons meses tentando racionalizar a coisa toda a ver se eu descobria o que me incomodava.
eu continuava meditando e fazendo alguns pranayamas, mas eu não sentia mais que eu estava imersa em uma prática de yoga.
nesse ~intervalo~, busquei outras coisas, conheci e me encantei com o xamanismo, fortaleci meu método de dança de energização dos chakras, aos poucos fui aceitando que talvez eu e o yoga não servíamos mais um para o outro.
muita água chorada de lá pra cá, e na semana passada, paf, um insight daqueles que caem com peso sobre as costas da gente, sabe? paf.
desde sempre eu tenho uma relação difícil com o masculino. pode chamar de daddy issues, até porque começa ali mesmo, mas o lance fica complexo.
minha vida toda até agora eu passei tentando me reafirmar pra figuras masculinas. eu já escrevi sobre meus casamentos e uma coisa clara neles é como eu me apaguei pra me encaixar na vida que eles tinham planejado. sem filhos, sem casar, mora aqui, mora lá, casa, tem filho, vai ter dois filhos, não vai, a casa tá pronta etc.
e nos meus namoros e nos meus flertes, e na escola, e com professores, instrutores etc.
em 2015, um professor de yoga me pediu pra eu dar uma aula e ele me avaliaria depois. a avaliação foi bem dura, mas o que me doeu mais foi quando ele disse “com essa voz e esse tom, você nunca vai comandar uma classe”. eu dava aula desde 2006, eu tinha comandado muitas classes, como assim? nunca mais voltei às aulas dele.
algumas semanas depois, eu postei no facebook sobre um imersivo em dança kundalini e como aquilo estava sendo legal, que eu sentia como mexia com os chakras e tal. pouco tempo depois, meu então professor (outro que não o do parágrafo anterior) postou algo no grupo de estudos que resumidamente dizia: ou você estuda este yoga* ou estuda chakras e outras coisas; tudo ao mesmo tempo não dá.
eu já estava incomodada com alguns comentários machistas e gordofóbicos do professor e aí foi a conta pra eu não sentir mais o clique. nunca mais voltei às aulas também. ainda assisti uma ou outra extra, mas o curso mesmo eu larguei (e eu tinha pago uma grana nele…).
[lembrando que meu foco sou eu, não eles e a atitude (questionável ou não) deles.]
eu amava yoga e acreditava que as escrituras, no Gita, no Astanga de Patanjali não davam espaço pra situações como essas que eu vivi. eu estava buscando ser uma pessoa melhor, saindo de comportamentos tóxicos, fofoca, vingança, trabalhando intensamente em mim mesma com a ajuda do meu terapeuta e não conseguia aceitar aquilo. me senti pessoalmente atacada, ferida mesmo.
2017. voltei a estudar as escrituras por conta. publiquei vários textos aqui no Medium comentando temas. aprofundei minha meditação, muito. mas o corpo, travado, pedia asanas e eu não conseguia encarar o tapete. fui a uma massagista ayurvédica, que me apresentou à médica ayurvédica que me relembrou do meu amor por tudo isso e que me obrigou (com carinho) a ir a uma aula de asana. quando entrei na sala de aula de Iyengar, as kuruntas na parede, os blocos, meu peito ficou quente, eu sorri. e a professora me sorriu.
meu corpo lembrava o que fazer, era como se realmente estivesse ansiando por aquilo.
e paf. o insight. de como aqueles dois professores, meus mestres, foram o catalizador para que eu visse essa minha posição de submissão, de querer agradar os homens da minha vida. por que eu não respondi ao primeiro que meu tom é parte de quem eu sou, que eu falo manso assim quase sempre, que a minha classe seria de alunos que buscam isso, não alguém com o tom duro dele.
eu não ignorei os comentários do segundo e preferi perder o dinheiro investido e a oportunidade de aprendizado porque me senti julgada, me senti diminuída, o mestre não me via com bons olhos.
dois momentos pontuais que o yoga me ofereceu para que eu visse essa minha sombra e cuidasse dela. e dois anos depois disso (e 20 anos depois e 40 anos depois de outras) eu posso, finalmente, me curar disso.
om
*“este yoga” porque não quero correr risco de expor os professores, então sem especificar
