O SEGUNDO PODER: DESEJO

A menina que batizou a si mesma

Nos tempos tumultuosos imediatamente após a crucificação de Cristo, o Cristianismo é tido como uma religião proibida. É ilegal ser Cristão. Sim, esse homem devoto e maluco chamado Paulo viaja de vila para vila, contando histórias sobre sua experiência do Cristo. Ele acaba parando em uma pequena vila onde uma moça de 17 anos, chamada Tecla, vive. Ela consegue ouvir Paulo pela janela de seu quarto. E ela fica fascinada. Ela permanece em sua janela durante os três dias e três noites enquanto Paulo conta suas desventuras com Cristo.

Algo começa a se desvendar para ela. Ou algo que sempre existiu dentro dela de repente corre para a superfície, e nesses três dias a vida dela se transforma. Seu noivo pede que ela se afaste da janela. Ele diz que ela deveria ter vergonha de direcionar seu amor para longe dele. Ele a lembra de seus deveres, da lei. E ele chama a mãe dela, que implora para que ela volte para eles também. Mas Tecla permanece. E cada vez mais ela quer conhecer Paulo e abandonar a vida que esperam dela em troca de uma vida que agora ela sente ser verdadeiramente sua.

Seu noivo reporta Paulo para o governante, o chamando de mágico, atribuindo a ele os poderes de persuadir jovens moças contra se casarem. O governante leva Paulo preso e coloca na cadeia. Tecla sai de sua casa no meio da noite para vê-lo. Ela dá suas pulseiras ao porteiro como ingresso e ela deixa ela entrar. Ela dá um espelho decorado para o guarda na porta da cela, descartando com facilidade os restos de sua antiga vida. Ele também deixa que ela entre. Então ela vai até Paulo e senta-se a seus pés.

No dia seguinte, corre o boato de que Tecla havia estado na prisão visitando Paulo. Seu noivo está mais do que ultrajado. Tecla é dele! Ela é posse dele. A mãe de Tecla concorda e grita pedindo que ela seja punida. Sua própria mãe sugere que ela seja queimada na fogueira por quebrar a lei do noivado, por fazer o que quer, por seguir seu coração jovem e impetuoso.

O governante faz com que Paulo seja chicoteado e o manda embora da cidade. Mas, para ensinar uma lição, ele faz com que removam as roupas de Tecla e a amarra a um poste na fogueira.

A pira é acesa. E eu sempre imaginei que ela estivesse visivelmente tremendo. Mas que sua decisão vem de um lugar dentro dela, e que dá a ela essa coragem que a lembra de quem ela é e do que é capaz. Assim que as chamas estão começando a atingi-la, Tecla faz o sinal da cruz e uma trovoada repentina encobre ela e os espectadores. A chuva cai sobre o fogo que deveria tirar sua vida. E ela é salva. Ela salvou a si mesma.

Tecla encontra um robe para vestir, um robe que era comumente usado por homens, e sai atrás das pegadas de Paulo para alcançá-lo. Uma criança a encontra no mercado de uma cidade próxima, uma criança que sabe onde Paulo pode ser encontrado.

Tecla é levada de volta para onde ele a estava esperando, em profunda oração, não sabendo se ela havia vivido ou morrido. Ela o cumprimenta e o informa de que vai cortar seus cabelos o seguirá para onde ele for levado. Ele fica lisonjeado, tenho certeza, mas também preocupado. Parece que Tecla era absurdamente bela. Então, ele conta sobre seu medo de que Tecla acabará em mais e mais julgamentos, sendo uma jovem solteira nesta religião proibida chamada de Cristianismo.

Ela garante a ele “Me dê o selo de Cristo e nenhum julgamento tocará em mim”. Ela queria ser batizada, queria confirmação dele, seu ancião, de que ela estava pronta e talvez que fosse merecedora do batismo. Paulo responde “Seja paciente”. E ela escuta, com a paciência que o amor tem. E ela permanece ao lado dele.

O sacerdócio os leva até a Antióquia (uma área que os romanos chamavam de Ásia Menor, que era uma porção épica do Mediterrâneo inteiro). Eles estão caminhando pelas ruas cheias do centro da cidade quando o presidente da Síria, Alexandre, nota Tecla e decide que ele precisa tê-la. Ali mesmo, quer tomá-la pra si. Primeiro, ele pede a Paulo e oferece a ele subornos de dinheiro e poder, na esperança de agradar à ganância de Paulo. Paulo finge que não conhece Tecla. Ele essencialmente a desonra em frente de todos. Ela grita, a jovem sábia e empoderada que é, e insiste que Alexandre não a estupre.

Alexandre, sendo um presidente com muito poder, tenta fazê-lo e tenta tê-la ali mesmo na rua. Tecla não aceita. Ela arranca a coroa da cabeça dele e rasga as roupas dele, chamando atenção para as ações dele e, consequentemente, julgamento dos transeuntes. Novamente, Tecla é salva. Ela salvou a si mesma.

Ela é levada diante de uma corte para ser julgada por suas ações e é sentenciada à morte no estádio. Novamente tiram as roupas de Tecla e amarram suas mãos. Ela é levada para o estádio para encarar seu destino. Ela é forçada a vestir uma palavra, que é a palavra que resume o resultado de seu julgamento: sacrilégio. Ela está vestindo a palavra sacrilégio, nua no centro de um estádio lotado, com o público gritando pela chegada dos animais selvagens que deverão abatê-la.

Um leão feroz se aproxima dela. Eu sempre imaginei o jeito como ela deve ter olhado para ele. Coragem ficando cara a cara com a coragem; a profundidade do reconhecimento que deve ter havido. Supostamente, a leoa parou de correr na direção de Tecla e se deitou aos seus pés.

Frustrados, os oficiais enviaram mais animais selvagens para atacá-la, mas a leoa agora se tornou protetora de tecla. E ela fere cada animal que tenta ferir Tecla. Eventualmente, a leoa é morta. Mas o público começou a mudar de lado.

As mulheres no público começam a gritar “Julgamento profano”. Elas começam a proclamar a inocência de Tecla e a gritar o verdadeiro sacrilégio, que é matar um amor assim.

No está com Tecla está um poço de água cheio de leões marinhos. Conforme mais animais entram no estádio e correm até ela, Tecla declara “Em nome de Jesus Cristo eu me batizo”. Ela entra na água e uma nuvem de fogo a cerca de maneira que ela não pode ser tocada. E, pela terceira e última vez, Tecla salvou a si mesma.

A mulheres no público agora reconhecem quem ela é, ou talvez elas se reconheçam nela. Esta é a parte da história dela que eu mais amo. É a parte que me dá mais esperança — quando as mulheres na multidão não a veem mais como algo separado delas. E, assim, elas recusam que ela seja ferida.

Juntas, elas jogam pétalas de rosas, nardo, canela e cardamomo na area abaixo de onde Tecla está. E o perfume intoxicante que as rosas e as especiarias criam entorpecem os animais, e eles todos deitam e dormem.

Então, as escrituras dizem “Todas as mulheres gritaram em uma só alta voz, como se saindo de uma só boca”, elogiando a coragem de tecla. Ao se salvar, Tecla unificou a força do amor em todas as mulheres ao seu redor. Ao se libertar, ela as libertou.

Esta história vem de uma das mais antigas escrituras do Cristianismo já encontrada. Ela se chama “Os atos de Paulo e Tecla”. Estudiosos sabem que ela foi muito lida porque muitas cópias foram recuperadas. Mas, no fim do século II, um antigo teólogo e líder Cristão chamado Tertúlio condenou essa escritura porque ela implicava que mulheres tinham autoridade espiritual para liderarem comunidades e batizarem.

A Escritura termina relatando que Tecla curou muitos, que seu sacerdócio durou até sua morte na avançada idade de 90 anos, e que ela supostamente está enterrada ao lado de Paulo.

Eu acho que o aspecto mais ameaçador da história de Tecla é que ela se liberta de qualquer ilusão de que o poder está fora dela.

A Tecla que deveria se casar, a Tecla de uma família proeminente com o peso das expectativas da mãe, a menina que estava forçada pela lei a se tornar uma esposa e que não tinha direitos terrenos de seguir os decretos e chamados de algo dentro de si mesma, ela morreu durante os três dias e três noites em que se recusou a sair de sua janela e do som da voz de Paulo. Ela começou a se mover por vontade própria. Ela começou a ir contra as expectativas de uma menina, considerada o sexo inferior no seu tempo. Ela começou a fazer o que seu coração dizia. E esse foi o sacrilégio para quem estava no poder. Que ela se recusou a obedecer ou validar qualquer autoridade fora de si. Até mesmo, no fim, a de Paulo.

Ela batizou a si mesma porque percebeu que podia. Ela percebeu que dentro de si mesma continha o poder para se salvar.

E assim o fez.

Tradução do capítulo “The second power: craving — The girl who baptized herself” do livro “Mary Magdalene Revealed”, de Megan Watterson.

Este é o segundo de uma série de 8 posts sobre os 7 demônios expulsos de Maria Madalena por Cristo.

Taty Guedes — Vairagya Yoga

Written by

moon mother, curadora, estudante eterna, tradutora, revisora, mostly vegan e mãe

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