É que eu só queria dizer que…

A visão é perturbadora. Uma cama, um colchão no chão. Nele, há cinzas de cigarros tragados pela ansiedade, livros que estou lendo, um fone de ouvido cor de rosa, controle remoto da televisão último lançamento do século passado, travesseiros, lençóis… meus óculos, violão e o notebook para me conectar com o mundo. É um quarto insólito, uma caixa de pandora: guarda todos meus gritos solitários, de angústia e prazer.

Entre a cama e o colchão, prefiro me deitar aonde mais reflete meu interior. Afasto as cinzas, me aconchego entre colchas e travesseiros manchados de lágrimas perdidas por todos esses dias. A vida é uma escolha.

Naquele momento escolhi fechar os olhos e imaginar como se apresenta o afeto à mim, naquelas duas horas apressadas de todo mês. Com sorte, pode ser quinzenal.

Ele está sobre e em mim. É gostoso e tátil esta cena, mesmo sendo eu apenas aqui. Ele me olha com aqueles olhos de compaixão, complacência, tesão proibido. Olhos que rogam para que eu não o procure mais.

Ele ainda está sobre e em mim. São movimentos lascivos, descoordenados pela urgência, pela paixão minha. Sinto tantas coisas neste momento. Quero apertá-lo — não posso — , quero mordê-lo — não posso -, quero beijá-lo.

Beijo-o e os movimentos ficam mais frenéticos. Meu prazer está à porta e eu abro a boca para dizer…

Hesito. Para disfarçar meu embaraço, dissimulo meus olhos, faço força para as palavras que estavam na ponta da língua saiam da minha cabeça. Desponta uma dor que sempre está latente.

Tudo isso são segundos em que luto para manter a racionalidade e o tesão juntos.

Ele para. Precisa recuperar o fôlego. Eu não posso parar, preciso sentir meu corpo contrair, a pressão, aquela luta insuportável que acontece em minha cabeça que me manda reprimir o orgasmo e meu corpo tem aprendido, a cada encontro, ignorar os traumas.

Retomamos. Suavemente ele já está em mim. Fortemente o sinto. Preciso disso, dessa sensação, dessa completude. Você encaixa tão bem… teu semblante é tão belo enquanto está em mim… eu vou gozar, mas eu preciso te dizer que

“NÃO!”, eu digo e ele questiona que negação é esta, o que está errado, se é para parar, se é para recomeçar, o que deve fazer. “Não, continua, está gostoso”, respondo. E está mesmo. É insuportável e deliciosamente gostoso todo aquele vai e vem de pernas e coxas, onde minhas mãos encontram abrigos no consolo de metal da cama. Estou só, mas repito o gesto e me contraio.

Gozo e prefiro ficar de olhos fechados ou de costas. Não posso olhá-lo. Não quero sentir dor. Se eu abrir os olhos, vou procurar o que nunca encontrarei, vou calar novamente.

“Calar dói mais do que a realidade. Ele é exatamente sob medida para mim do jeito que é, até mesmo na indisponibilidade”, penso, porque eu só queria abrir os olhos e dizer que…

Abro os olhos, estou menos ofegante. Preciso saciar vontades afetivas com um cigarro, com uma dose de álcool, preciso apenas dizer o que ele quer ouvir, tudo que eu não pensei dizer. Mas é gostoso dizer e ouvir.

Agora, deitada em um colchão cheio de cinzas, abro os olhos. Eu quero de novo. Preciso de novo.

Droga, estou sozinha aqui e até em pensamento não consigo dizer uma frase tão universal. Tenho medo até do medo de ter medo da austeridade de sua recusa, da sua fuga, daquele sermão.

Eu apenas quero dizer que te amo, só para aliviar todos os “eu te amo” contidos nesse tempo. Eu quero dizer que te amo sem obrigação. Eu quero dizer que te amo apenas por que sinto que, eu, real e inexplicavelmente te amo.

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