Medo
De ficar sozinho, de entrar em um relacionamento, de tudo mudar, de nada mudar, de começar do zero, de encerrar algo que precisa acabar.
O tempo todo a gente vive com medo. Às vezes ele está sentado na nossa frente, mexendo no mouse do computador, te atrapalhando enquanto você precisa trabalhar. Em outras, ele parece ter finalmente ido embora mas está só brincando de se esconder pra te dar um susto quando você menos imagina.
Mas esta lá, aparente ou não, você querendo ou não.
Medo do escuro, de monstros imaginários, de ser esquecido no supermercado, de assistir filme de terror, de ninguém aparecer na sua festa de aniversário.

Se a gente achava que os medos de criança eram bobos e irracionais é porque nunca imaginávamos que a cada ano que passa na vida adulta, nossos medos só aumentam, ficam mais profundos, e — lá vem o spoiler — não necessariamente ficam mais racionais.
Medo de ficar doente, de ser mandado embora, de acabar o dinheiro, de alguém morrer, de perder o horário pra trabalhar (todo santo dia). Adulto ou criança, todos eles parecem ser uma questão de vida ou morte.
(Impressionante como quando você chega na vida adulta provavelmente está sempre com algum exame pra fazer ou com algum médico pra visitar. O momento de liberdade entre essas duas ocasiões é extremamente raro e vai embora em um piscar de olhos.)
A gente vive com medo da mudança, porque mexer em algo que já confortavelmente aceitamos é pior do que lidar com a mínima chance de ter algo melhor. Não importa o quanto algo pode facilitar nossas vidas, trazer mais economia, nos deixar mais confortáveis, muitas vezes a gente simplesmente não quer ouvir, justamente porque é mais fácil lidar com a dificuldade que já conhecemos.
Talvez seja por isso que vemos tanta gente reclamando do trabalho, mas sem tomar providência.
Infeliz com o relacionamento, mas sem coragem pra terminar.
Com brigas na família, mas sem coragem de resolver.
Vivendo com dor, mas incapaz de pegar e telefone pedir ajuda.
Porque mudar é difícil.

O medo da sensação de deslocamento, da rejeição, da falta de controle, da instabilidade deixa a gente mais maluco a cada ano que passa. Ficar triste em um lugar confortavelmente quentinho e seguro parece uma ideia melhor do que passar por desconfortos, mas que podem nos levar a momentos felizes.
O pensamento de que é melhor ser infeliz com pouco, do que infeliz com nada nos cega de que na verdade é melhor ser feliz com nada do que infeliz com pouco.
Eu realmente acredito ser importante construirmos coisas na vida e nos dedicarmos a elas, mas acho mais importante ainda (e até mesmo mais corajoso), encerrar o ciclo quando ele não faz mais sentido pra nós e começar algo novo. Porque, pra mim, parar de questionar as nossas escolhas e padrões é deixar de evoluir e pra não evoluirmos mais é porque estamos mortos.
É muito mais fácil manter distância, casualidade e controle sobre as coisas e aprender na teoria de que a vida é feita de equilíbrio, de evolução, de tentativa e erro e todas as coisas que quem está do lado de fora da bolha está sentindo na própria pele. Saber se alcançamos o equilíbrio e sabedoria quando somos postos à prova.
Mas se tem um conselho que eu posso te contar depois de passar pelo ano mais turbulento que já vivi é que a nossa capacidade de sobreviver e lidar com as mudanças é o que mostra o tamanho da nossa força.

Forte mesmo é quem consegue deixar o conforto e a segurança pra trás pra perseguir coisas maiores, pra ir atrás do novo, mesmo sem saber o que vai encontrar por lá. Então não importa o quanto tente agarrar às coisas da vida, materiais ou não, as mudanças vão ser incontroláveis e mais fortes que você. É uma batalha sempre perdida. Porque, no final das contas, se agarrar ao fato de que as coisas mudam, o tempo todo, é a única forma de ficar são e seguro.
