Sobre o Sofá Creme

M. T. Belohuby
Sep 3, 2018 · 5 min read

Feche os olhos e me diga onde você está. Onde gostaria de ir de corpo e alma, mas dada as circunstâncias de localidade ou demais impedimentos, só pode ir assim, de olhos fechados. Então feche os olhos e me diga, onde?

Eu estou bem ali, sentado nesse sofá cor de creme — se é que isso é cor de alguma coisa, para mim cores se resumem aos tons comuns como azul, verde, vermelho, preto, branco ou marrom. Por via das dúvidas, estou no puff marrom, ao lado do sofá. Melhor assim.

Eu, com certeza, não escolheria um sofá com uma “quase cor”. Na minha casa as coisas tem cores bem definidas. É marrom, preto ou branco. Na cozinha tem bastante vermelho. Mas essa é a grande história por trás desta foto ordinária. Ela escolheu esse sofá.

Essa foto representa muito para mim, estou pensando seriamente em imprimir e fazer um quadro para a minha sala. Vou colocar perto dos outros quadros da parede de memórias que temos na sala de jantar.

Priscilla foi proibida de pensar por 14 anos. Ela foi polida de suas escolhas. Ridicularizada todas as vezes que preferia alguma coisa. Diminuída em cada uma de suas predileções. Ela, por exemplo, gostava de dançar, mas ele disse que não. Segundo ele, dançar músicas românticas ou rebolar ao som de uma balada desagradaria a Deus. Ela também gostava de rir alto, ele tinha vergonha de sua risada estratosférica e a podou, dia após dia. Ano após ano. Riso após riso até chegar no volume que ele considerava “adequado”. Ela gostava de sorvete, amigos e cinema. Ele disse “não”, a encurralando ao longo destes 14 anos em uma vida de solidão, frieza — não à do sorvete, mas a da falta dele — e alienada — sem cinema ou TV.

Ele escolhia os programas, os filmes, as roupas e os panos de prato. Ele humilhava, mandava e apontava o dedo no rosto dela sempre que ela tentava “exigir” — essa certamente não é a palavra, já que em uma relação abusiva dessas, exigir algo nunca é uma opção.

Se tivesse sido consultada diria para ele que gostaria de uma relação onde os dois pudessem caminhar de mãos dadas ou pudessem se abraçar ou fazer o mínimo de carinho em qualquer que fosse o lugar. Mas ele disse não. Ele preferia uma relação sem contatos físicos em público porque isto poderia levar algum jovem da igreja a cair em pecado. Assim, ela foi condenada à frieza mórbida do eterno querer e jamais poder. Carência e vazio tomou conta de seus dias como um convidado inconveniente que se recusa a sair de sua sala de estar.

Assim, quando já estava no fim do ciclo mordaz deste abuso emocional sofrido ao longo de toda uma vida conjugal, tendo já passado pela fase mais cruel de tudo isto, o atentado terrorista à sanidade mental, Priscilla já não escolhia mais nada. Não se sentia capaz de escolher entre café e chá. Ou qual roupa comprar. Definhando em clinicas médicas e salas de emergência com somatizações que lhe causaram graves danos físicos, Priscilla fez a única escolha que achou que poderia fazer e tentou nos deixar de vez.

Deus sabe o quanto chorei, sofri e orei por minha irmã. Como já esperado do quadro clínico de um abusador, tudo acontecia diante dos nossos olhos mas éramos incapazes de perceber. Ele era um excelente marido, pai exemplar e cristão ilibado — típico de um monstro psicopático. Quando ela chegou neste ponto final de escolher a única via que acreditava ser coerente com o fracasso e vergonha de quem foi forçada a acreditar que fosse, foi que começamos a descascar esta cebola, camada por camada. E, assim como no processo de descascar cebolas de verdade, a cada camada que retirávamos desse caso, mais lágrimas corriam no nosso rosto.

Ela segurou na minha mão ainda grogue sem saber exatamente o que estava acontecendo. Entubada pelo nariz até o estômago no meio de um processo de lavagem estomacal que buscava retirar o excesso de medicamentos ingeridos irresponsavelmente, e sussurrou sem muita força: “Dimi, eu não consigo mais… me ajuda”. As lágrimas dela correram apressadamente por seu rosto magérrimo abrindo verdadeiras represas por onde o cansaço e o descrédito puderam vazar em forma líquida até encharcarem os lençóis hospitalares.

Eu queria muito que ela acreditasse que ainda haviam outras escolhas a serem feitas além desta absurda de acabar com sua própria vida. Eu queria que ela entendesse que se insistisse nessa escolha ela estaria acabando também com a minha própria vida. Lutei com tudo o que possuía para que ela voltasse a escolher. Nem sei como fiz isso, mas sei o quanto me custou — e isso é história para um outro texto. Contudo, eu pagaria esse preço quantas vezes mais fosse necessário.

Olhar para essa foto e ver que ela escolheu esse sofá, esse quadro lindo na parede, escolheu o puff marrom e também escolheu colocar o centro desajustado com a métrica do sofá, me faz respirar aliviado. Um dia eu tive dúvidas se era possível uma mulher sobreviver ao abuso emocional de um religioso. Essa foto provou para mim o contrário.

Hoje Priscilla escolhe todos os dias. Ela escolhe arrumar a casa dela, do jeito dela. Ela escolhe comprar a roupa que ela quer, com o decote que ela preferir. Ela escolhe a cor do batom e o tom dos cabelos. Ela escolhe levantar todos os dias e ir ao trabalho dela — uma casa de abrigo para mulheres mal tratadas. Ela escolhe abraçar essas mulheres, seus filhos e escolhe ser para elas um exemplo. Ela escolhe todos os dias viver.

Enquanto isso, Deus a está escolhendo previamente. No meio de tantas outras mulheres que não conseguiriam sair deste ciclo tóxico do abuso doméstico e religioso, Deus escolheu salvar a minha irmã por meio de sua infinita graça e incontestável misericórdia. Deus escolheu você, Priscilla, para que você pudesse escolher esse sofá creme.

Se você é uma mulher abusada por um homem religioso, machista, sem amor, que não lhe toca direito, nem respeita sua individualidade, feche os seus olhos e me diga: aonde você gostaria de estar agora? Passe um bom tempo neste lugar, abra seus olhos, se levante e lute. Peça ajuda e corra para longe deste monstro. Pare de ouvir conselhos do tipo: “vá orar.. entregue à Deus”. Não. Entregue à polícia. Traga ao conselho de sua igreja. Arrume suas malas e de seus filhos e corra para longe.

Quanto a mim? Estou aqui, de olhos fechados, me imaginando sentado nesse puff marrom, segurando uma boa taça de vinho nas mãos e fazendo piadas para você rir, minha maninha. Estou aqui imaginando uma noite inteira em família. Eu, você, nossos filhos, a neguinha… a gente comeria alguma comida rápida dessas que a gente faz em três minutos — igualzinho as comidas da nossa mãe — e que saem com gostinho quase bom, nunca perfeito. A gente contaria um monte de histórias sobre os velhos e quase teríamos um ataque de riso nessas horas. A gente faria uma ligação de vídeo pra Lulu e ouviríamos os inúmeros casos que ela sempre tem para nos contar — especialmente o mais recente sobre a vaga de estacionamento. A gente terminaria essa noitada com certeza dançando feito loucos enquanto nossos filhos riem da gente e a Monique dorme jogada no sofá.

Mas esse sou eu e o lugar onde eu gostaria de estar. E você? Feche os olhos e me diga, onde?

M. T. Belohuby

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