Não gostou de La La Land? Problema seu.

Depois de 14 indicações ao Oscar e uma 3ª ida ao cinema, finalmente consegui acalmar meus ânimos (apesar de ainda estar escutando a trilha sonora em looping infinito desde o momento que saí do cinema na primeira assistida, Spotify melhor pessoa).

Vamos lá. Não vou fazer um textão tentando convencer vocês do quanto o filme é maravilhoso.

Mas é muito maravilhoso SIM.

Vou comentar sobre aspectos muito peculiares que observei tanto no filme quanto nas várias reações das pessoas que conversaram comigo. Tem spoiler pra caramba aqui, ok?

A reação mais comum que vejo agora é a do tipo “não é tudo isso”. Perfeitamente compreensível para quem foi assistir ao filme duas semanas após a estréia. Significa que ficaram 15 dias observando o CHI-LI-QUE que os fanáticos por musicais deram nas redes sociais — e me incluo neste grupo chiliquento. Não precisa nem dizer pra onde foi a expectativa da galera que não tinha assistido.

Acontece que cada um tem seu próprio conceito de “musical fodástico”. Por todo o seu histórico de 90 anos, este gênero já faz as pessoas esperarem certos padrões que foram consagrados ao longo das décadas. E absolutamente nenhum deles foi devidamente cumprido em La La Land.

Teve gente esperando glitter, brilho e glamour.

Não rolou.

Teve gente esperando sapateado/dança/canto maravilhoso.

Não rolou.

Teve gente esperando que Emma Stone se transformasse na Catherine Zeta-Jones.

Eita, passou longe!

Teve gente esperando “o melhor musical de todos os tempos”.

Não é bem assim. Comparar La La Land com outros filmes musicais é como comparar Rowling com Tolkien: mesmo gênero, mas não faz sentido.

O filme começa logo com aquela voadora no peito que é Another Day of Sun: um número musical simplesmente fantástico, mas depois de 30 segundos você deve (ou deveria) ter percebido que é completamente descabido. Tá calor, tá trânsito, tá todo mundo atrasado e irritado, aí DO NADA a galera sai do carro e começa a cantar e dançar super feliz.

Yaaaay! Tá todo mundo preso no engarrafamentooooo! #amo

Oi? Nem em 1930 isso acontecia. Os número musicais, desde sempre, nada mais são do que metáforas artísticas para expressar os sentimentos e emoções implícitas em cada cena. E nessa cena, ninguém tá feliz. Então se você pensou que esse primeiro número musical seria o padrão, aposto que depois ficou bem triste. Porque Another Day of Sun é puro sarcasmo e está te contextualizando para o verdadeiro anti-musical ao qual você assistirá pelas próximas 2 horas.

Fui ao cinema sem expectativas de estilo e roteiro. Além de ser um costume que aplico para qualquer filme, os últimos musicais que vi na telona e me deixaram de boca aberta (e levaram várias estatuetas) são completamente opostos: o último, Chicago, é sobre assassinato e manipulação da mídia; o penúltimo, Moulin Rouge, é a clássica estória de amor impossível shakespeariana que dá tudo errado, a galera morre de alguma doença e vira aquele drama sobre o quanto a vida é injusta ao nos arrancar aqueles que amamos, sem podermos fazer absolutamente nada sobre isso.

Ai sem orrr pq fas isuuuuuuuu

Aí está a grande peculiaridade de La La Land. Mia & Sebastian não ficaram juntos e felizes para sempre porque eles não quiseram. Aceite. Eles tinham sonhos, ambições profissionais, as oportunidades surgiram e eles tiveram que escolher. Parece familiar? Bem-vindos à realidade. Aí tá lá você, espectador do relacionamento alheio, se acabando de chorar na poltrona do cinema quando rola aquele “flashback imaginário” de como seriam as coisas se eles ficassem juntos.

Pegadinha do Mallandro IÉ IÉ

Você queria que fosse assim. Mas eles, não. Você sai do cinema devastado, com a sensação de que “faltou algo”. Faltou mesmo? A vida não é esse roteiro bonitinho, redondinho e romantiquinho que você está acostumado a ver nos outros filmes musicais de amor.

Decepcionou com o filme? Pois é. A vida também vai te desapontar várias vezes, por escolhas que você mesmo fará. E então it’s another day of sun :)