Teatro não é show.

Pra começar, a intenção aqui não é ditar regras. Quero apenas propor uma reflexão sobre como estamos reagindo, enquanto platéia, ao teatro musical no Brasil. But I can’t do it alone.

Descobri o teatro musical no ano 2000, aos 13 anos. Nem lembro exatamente como, já que não tinha YouTube nem Spotify, a internet era discada e baixar qualquer 1mb levava, no mínimo, uma eternidade. Passei alguns dias baixando faixa por faixa do Fantasma da Ópera no Napster (se vc tem menos de 30 anos, dá um google aí porque me sinto meio humilhada em ter que explicar isso). Em 2005, quando eu era estagiária e ganhava míseros R$200, gastei toda a minha poupança e mais um pouco pra atravessar o país e ver a montagem brasileira do Fantasma da Ópera em São Paulo (onde hoje eu moro). Foi mágico. Foi um caminho sem volta para o mundo dos musicais. Vocês sabem como é. The point of no return.

Phantom = musicais / Christine = eu

Agora estamos vivendo uma explosão do teatro musical. MEU DEUS, VOCÊS NÃO SABEM O QUANTO ISSO ME FAZ FELIZ. Eu não achava que ia viver pra ver isso. Quero gritar.

Wicked, especialmente, fez milhares de jovens se apaixonarem por esta arte. Myra e Fabi são exemplos de profissionais que movem uma legião de fãs empolgados(as) e inspiram uma geração que está estudando sério para subir aos palcos. Isso é simplesmente maravilhoso.

Mas sempre tem um porém.

E esse porém é que talvez nós não estejamos canalizando essa empolgação de maneira adequada quando somos platéia. Eu sei que é muito legal ir ao teatro. Mas antes de qualquer coisa, nós devemos respeito aos artistas e a todos que estão assistindo.

Quando eu vou ver uma peça musical, eu quero imersão. Eu quero me emocionar, chorar, soluçar, seja de alegria, de angústia ou de tristeza. Um número musical é uma metáfora para expressar sentimentos onde apenas palavras não bastam. E eu quero viver esses sentimentos com cada pedacinho do meu ser.

chorandozes

Então NÃO, não é legal cantar junto com quem está no palco. NÃO, não é bacana bater palmas e gritar “UHUUUUUL” antes da canção terminar. NÃO, não é conveniente fazer comentários com o seu coleguinha que também ama musicais ao mesmo tempo que a cena tá rolando. Até os(as) atores(as) estão se incomodando com isso. Com toda a razão.

Quem quer gritar a toda hora, cantar junto em alto e bom som, pode ir nos shows de suas bandas preferidas, ver filmes em casa ou que esperem até a closing night — nessa sim a euforia está liberada e todo mundo sabe.

chegando na closing night

Em Rent foi muito difícil lidar com a gritaria toda vez que a Angel pisava no palco. Diego Montez muito maravilhoso SIM, então que tal apreciar todo o trabalho que ele tem pra nos mostrar? Em Les Mis, eu queria cortar meus pulsos na cena da barricada, até começar aquela euforia da platéia e… pelo amor… uma criança é assassinada ali!

Afinal, por que ir ao teatro? Pra testemunhar coisas meramente técnicas? Pra ver qual o alcance vocal de fulano ou ciclano? Pra cantar junto, como um grande karaokê? Pra ficar completamente desconectado(a) da narrativa e gritar de euforia — seja no mundo esmeralda ou na tragédia da revolução francesa?

Não. Teatro não é isso. Se você não estiver disposto a se entregar de corpo e alma à história do palco, não faz sentido estar ali. O teatro é um lugar de concentração e doação total dos profissionais que estão no palco, por isso devemos, no mínimo, fazer o mesmo em troca. Viva o teatro musical.

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