Foi quando eu comecei a gostar de chuva.

Quero dizer, quem é que gosta de dias londrinos, com aquela garoa irritante, o céu cinza e um tempo indeciso que não me permite sair sem um casaco a tira colo. Eu não gosto de carregar coisas nas mãos, além de tudo, permanece a minha tendência a ir esquecendo as coisas pelas esquinas: casacos, guardas chuva, amores. Nesse caos, em um dia infame desses, quando já estava puto por ficar tira e coloca casaco, abre fecha guarda-chuva, eu esbarrei com ela. Não, não foi literal. A gente se conhecia, nos falamos algumas vezes. Não era íntimo. Não tinha energia ou conexão especial. Era uma pessoa, eu era uma pessoa. Ela vinha com uma expressão inexpressiva. O retrato da paz interior. Perdida em si, carregava um sorriso discreto e a cabeça nas nuvens. A acompanhei, em silêncio, medo de tirá-la do paraíso quando eu estava meramente na terra. Você não gosta, perguntou. De que? Da chuva. Da sensação.

Esses dias me remetem melancolia, não felicidade. “Ah”

Não era reprovação. Ela estava bem. Ela estava feliz. Ela não sabia dividir isso. Mas eu senti. E comecei a me sentir bem, as meia gotas me molhavam sutilmente e agora eu gostava.

Eu estou feliz. Pelo tempo, pela chuva. Ela gargalhou.

E essa eu não esqueci pelas esquinas, junto aos guardas chuva de outras pessoas. Ou casacos passados dos quais mal me lembro. Eu não esqueci. E planejei uma viagem para Londres. Não, não fomos juntos. Essa não é uma história de amor romântico. Me desculpe, é bem mais do que isso

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