Num dia como outro qualquer a
saudade ataca
e, de repente, os
olhares estrangeiros, as
amêndoas dúbias desconhecidas
de vielas estranhas
afetam-me as entranhas, 
comuns e familiares

Você, no seu juízo final
com tubos e túmulos e abandono
Você, na minha reza última
desperta-me em uma quarta-feira
comum e oblíqua

Lembro-me da minha poesia e lembro-me
de não deixá-la para trás
Há possibilidade de jogar a dor no papel
e eu o faço o faço o faço
insistentemente
ela continua aqui, viva.
Como se as poesias tivessem morrido
pelo cotidiano de impossibilidade
da presença de qualquer calor [barato]
que preencha

E a dor está 
nas linhas curvas
de um papel em branco 
sem pauta
sem pudor

Escrevo, a mim
em linhas tortas
(de sentido certeiro)
qualquer coisa que doa

Mas que doa também no papel
para sentir em conjunto
a dor de outrora