O Câncer de Clara — Resistência pra quem?

Sobre Aquarius, longa-metragem de Kléber Mendonça Filho

Tudo começa na festa da Tia Lúcia, anos 70, essa mulher feminista e revolucionária, celebrando seu aniversário no prédio Aquarius, de frente para a praia de Boa Viagem, Recife. Trinta anos se passam, e Clara, sua sobrinha, herda os móveis, o apartamento, as canções e posicionamentos políticos da Tia. Todos continuam ali, exatamente como estavam nos anos 70: os discos são de vinil, o predinho sem sacada gourmet, a ideologia ‘progressista’ da esquerda branca brasileira…

Formadora de opinião, intelectual, tem uma rede na sacada, é sensível ao ponto de dialogar através de canções e dedicatórias de livros. Ouve Gil, Taiguara, Paulinho da Viola. Muito diferente de seu algoz, o rapaz branco, com MBA nos EUA e camisa social, que quer transformar seu predinho em uma torre de estilo neo-colonial.

Será mesmo diferente assim? Predinho ou torre, ambos os empreendimentos estão ali, no bairro com metro quadrado caríssimo, em frente à praia, freqüentada pelo traficante playboy branco (pra quem notou, o mesmo personagem de O Som ao Redor), pelos vizinhos brancos, pelo grupo de pessoas brancas que praticam yoga na areia.

Clara, cuja renda, conforto e possibilidade de viver a vida como intelectual e artista, são frutos dos alugueis dos imóveis herdados da família. Clara sobrinha da revolução sexual, sofre quando rejeitada pelo amante casual por sua masectomia, mas é também a dona da fala mais machista do filme: — “Ah, agora é assim? “DELIVERY?” — quando seu sobrinho conta sobre a visita de uma garota carioca que conheceu pela internet.

Clara que canta parabéns e distribui abraços carinhosos à Ladjane, sua empregada que prepara seu almoço, enquanto ela vai ‘dar um mergulho na praia’. É Clara também que com seu sobrinho e namorada, fazem turismo de favela no ‘passeio’ à festa de aniversário de Ladjane. Que é silenciada por Clara, quando ‘se atreve’ a participar de uma conversa familiar, dividindo sua dor sobre o filho que perdeu.

É Clara que procura um amigo de sua família, que tem processos de corrupção nas costas, e usa de seus privilégios e relacionamentos com um jornalista, para conseguir informações a seu favor contra a imobiliária do jovem branco com MBA.

É Clara também que se assusta todas as vezes que personagens negros entram em cena, como na sequência da yoga na praia e na entrada do predinho, quando os dois ex-zeladores se aproximam para avisar sobre os cupins.

Ah, os cupins…! Esses que corroem as estruturas do predinho e depois também da imobiliária. Espalhados e corroendo os dois pólos antagonistas do filme. Ambos agora unidos pelo mesmo câncer. Esse sim, que segue resistindo, o câncer de Clara, o câncer do privilégio.

Clara vive mesmo num aquário.