coisas que ninguém sabia sobre a (minha) depressão

foi num dia meio chuvoso que eu soube. poderia até ser poético, mas no caso era julho e dias chuvosos são bem comuns em julho. de qualquer forma, eu chorei muito porque não encontrava o colar que um amigo havia me dado. foi um presente sincero de uma amizade que, naqueles dias, eu achava estar esvaindo-se das minhas mãos. perder o colar era um claro sinal de que ali era o fim de tudo. na minha cabeça, uma voz insistia em gritar “você estragou tudo. é tudo culpa sua. você é ridícula. por que fez isso de novo?”
eu chorei durante 3 dias inteiros.
no meio do choro, algumas realizações. em algum momento eu simplesmente não conseguia mais me sentir conectada com o fato de que o colar estava perdido — e, muito provavelmente, minha amizade também. já havia começado a questionar toda a minha existência e toda a dor e fragilidade que eu estava sentindo. todos os meus pensamentos tinham alguma relação com os últimos acontecimentos da minha vida e nenhum deles era minimamente positivo. chorando na cama da minha mãe, completamente coberta e, ainda assim, sentindo um frio absurdo numa cidade onde a mínima é 23°, eu me odiava. odiava por sentir tantas coisas ao mesmo tempo, por não saber dar nome à tais coisas. odiava por meter os pés pelas mãos, ser constantemente sincera e não saber esconder esses sentimentos. ao meu lado, minha mãe me observava. ela escutava, atentamente, e acho que nunca a vi com um olhar tão preocupado. eu dizia, em prantos:
“não sei o que fazer com esse sentimento. não sei onde colocar isso tudo. é coisa demais pra uma pessoa só. às vezes parece que eu não caibo dentro de mim e tudo que consigo fazer é chorar. mas não passa. eu sinto o mundo inteiro e nunca passa.”
uns dias depois eu encontrei o colar e, ao invés de me sentir bem com isso, o acontecimento passou quase que batido. quero dizer, depois de dias chorando, em algum momento eu já sabia que o motivo não era apenas um objeto inanimado. era algo muito maior que isso. daí, foi depois desse dia que eu soube com certeza. relutei um pouco em acreditar que algo poderia estar “errado”. mas, acaso estivesse, eu só queria me tratar e melhorar logo. eu tinha pressa em ficar bem. em mudar. mas na medida em que os dias se passaram, eu percebi que não seria tão simples assim.
acho que uma das coisas que eu mais presenciei na minha depressão foi o limbo. eu não vivia, mas também não tinha as forças necessárias pra terminar com qualquer que fosse a dor que estivesse sentindo. teve um dia, apenas. mas fiquei com raiva e me senti um clichê ambulante. conformada, deixava que a vida passasse por mim. e é engraçado porque a gente costuma ler essa versão romantizada do que é se sentir uma merda, mas, na realidade, era muito menos poético do que poderia parecer. eu não sabia o que era não ter forças físicas pra carregar o próprio corpo até que… bem, até que eu não tive forças físicas pra me levantar da cama e beber uma água. e o mundo não parava por minha causa. os bancos continuavam a funcionar, o comércio estava indo muito bem, obrigada. meus conhecidos continuavam com suas rotinas diárias e meus pais também viviam suas vidas — talvez com um pouco mais de preocupação do que antes. e não estou falando isso porque eu queria que todos eles parassem, nada disso. aconteceu de eu simplesmente não entender. literalmente não entender como as coisas funcionavam tão bem e eu… não. presa dentro de mim, deitada por horas; sem tomar banho, sem comer. dormia muito. se alguém viesse me visitar, não era incomum o apartamento bagunçado e a visível expressão de alguém que havia chorado nas últimas 24 horas.
na maior parte dos dias, eu só tentava chegar na noite sem me afundar ainda mais. minha quase-vida consistia em pequenas vitórias: tomar um banho, comer alguma coisa, sair da cama. e meu apartamento, bem, ele era tanto um refúgio quanto uma prisão. eu precisava sair, mas não queria, não conseguia. e, quanto mais ficava em casa, mais sentia minhas cores se desbotarem. às vezes, enquanto chorava, eu me olhava no espelho e tentava reconhecer aquela pessoa. por alguns segundos, não conseguia. depois, ficava me perguntando como tinha ido parar ali e o que eu poderia fazer para sair. eu só queria me libertar disso e sorrir sinceridade novamente.
mas era difícil me importar, sabe? era difícil reagir. eu só conseguia pensar que iria passar e poucas vezes fiz alguma coisa verdadeiramente revolucionária a respeito disso. mas eu tentava. passava horas chorando e depois tentava. sentia um mundo inteiro, passava por outros relacionamentos complicadíssimos e então, finalmente, eu tentava. dentro de mim, sentia: em algum momento aquilo iria passar. e quando passasse, ia parecer menos tempo do que realmente foi. que nem quando eu fiquei uma semana internada e, na época, os dias pareciam intermináveis e as notícias nos jornais se repetiam a cada edição. depois de um tempo eu só conseguia lembrar do enfermeiro com o sorriso que me acalmava e no remédio pra dormir que não fez efeito.
da minha depressão, hoje em dia, eu lembro de muito mais coisa. e lembro dos dias que pareciam intermináveis. quando paro pra refletir na quantidade de meses, penso em tudo aquilo que perdi. e, mesmo estando melhor, alguma coisa parece ter morrido dentro de mim. não sei bem o que foi, mas costumo refletir sobre quem eu era e no que me tornei. nesse peso que carrego. e me imagino num desses programas de superação: “fui vítima da depressão, mas estou feliz.” o que é estar feliz? às vezes eu vejo meu sofá vazio e de repente me lembro dos dias em que chorei deitada olhando pro nada. alguns dias são mais pesados e fazem parecer que estou voltando ao lugar de melancolia sem fim. são nesses dias que tenho medo de ficar triste. medo de que tudo aquilo volte simplesmente porque eu passei o dia inteiro chorando, porque me senti confusa ou porque os picos de ansiedade continuam a vir.
em outros dias, me sinto culpada. culpada por estar bem. culpada por sorrir de algo que antes talvez eu não sorriria. eu fico matutando na minha cabeça todos os motivos pelo qual estou assim. repito pra mim mesma “é a última vez que faço isso.” tento acreditar que sim, mereço ser feliz, pra logo depois pensar “felicidade é superestimada.” não consigo me imaginar leve, voando, transmitindo uma espécie de paz comprada com meu dinheiro e mensagens de superação. eu só consigo me olhar no espelho e ver alguém que carrega um peso muito enorme… mas não sabe qual é. alguém que não se rebela, nem reclama desse peso, mas vive. vive a tristeza de ser quem é. a melancolia de estar todos os dias nesse mesmo lugar de carga. mas eu tento entender. é isso. eu tento entender. penso e reflito e depois de me culpabilizar inúmeras vezes, só tento saber de onde vem. e quando entendo que vem de mim, sei que não existe outra saída a não ser abraçar essa porção de sinceridade que tenho ao sentir.
no final das contas, eu só queria mesmo me expressar nesse texto. expressar uma dor que veio de um jeito tão silencioso quanto devagar. de cobrança em cima de cobrança, eu descobri que fracassar faz parte do processo. e lidar com a frustração do fracasso é a melhor forma de superá-lo. em tempos onde ser vulnerável é “errado”, descobri que a força vem de lugares de fraqueza. que tudo que eu poderia fazer era ser sincera comigo mesma. essa sinceridade que dói de tão real, sabe? eu queria sentir essa dor que me rasgava por dentro. queria viver a dor que me dava a sensação de implosão. dissecar a dor e tirar dela o máximo que eu pudesse. queria, de propósito, lembrar o que tinha passado e como cada sensação de disforia me afetava. queria lembrar de tudo porque a dor, me parece, costuma ser ignorada. até por mim. e de tanto ignorar, eu me vi presa nessa caixinha de angústias sem fim. mais do que nunca, decidi ser sincera. sincera com a minha dor. eu a sentia muito forte. e tudo bem. não tinha problema. porque fugir não adiantava. eu precisava sentir o que era querer morrer um pouco a cada dia pra poder matar tudo dentro de mim e renascer de um jeito menos irreal. mais humano. precisei enfrentar de cara o que era ser alguém tão intenso e sentir um mundo inteiro todos os dias.
e tudo bem.