devir

acordei com essa palavra na cabeça e o gosto de saudade na boca. era um sabor salgado das lágrimas que desciam pelo rosto e desaguavam no coração apertado.

me fiz pensar, então, em todas as vezes que disse tchau. as de maneira súbita, planejadas ou mesmo sem saber que estava me despedindo. pensei em como isso me afetava e em como, na maioria das vezes, era eu a ir. e, de tanto ir, não tinha tempo pra pensar em como era ficar. de tanto ir, meus medos e ansiedades eram outras. o desconhecido me esperava e era ao mesmo tempo excitante e aterrorizante.

hoje eu fiquei. e foi estranho. já havia ficado antes, mas sempre existe uma porção de surpresa quando percebo a falta de controle sobre meus sentimentos e como os sinto. ficar gera uma sensação de estabilidade, mas o simples ato de ir ricocheteia em todos ao redor e nem sempre quem fica permanece o mesmo. as dinâmicas acabam mudando, dando espaço a outras novas. no começo a gente fica um pouco confuso, o olhar bate naquele espaço vazio antes ocupado por um corpo familiar e o coração, com bom músculo que é, se contrai. e dói.

no entanto, devir é necessário. estamos todos em processos particulares e únicos, ninguém sabe lidar com tudo e no fim das contas todos estamos improvisando. o ápice de uma transformação é esclarecedor pra si e completamente incerto para o futuro. saber que estamos indo em direção a algo que almejamos é um processo diário de certezas mutáveis — afinal, não seria a vida um processo mutável?

o devir é necessário. é tempo de devir. eu olho muito para trás, não a fim de reviver todas as dores de um passado recente, mas com o simples objetivo de repensar todo meu caminho trilhado e como todas as minhas escolhas me trouxeram até aqui.

daí eu paro. bem aqui. sentada nessa cadeira florida, com as pernas junto ao meu corpo e vendo vídeos aleatórios na internet. paro e penso que essas transformações constantes doem um pouco porque elas tiram um pedaço da gente, aquela pele morta que não tem mais lugar no nosso corpo. dói um pouco no começo, mas o processo de cicatrização é bonito de se ver. são umas cicatrizes invisíveis materializadas em datas e passagens de avião e áudios de conversas e cartas e mensagens. e também naqueles presentes (dados ou recebidos) que carregam consigo um pedaço da outra pessoa.