incapaz

é como me sinto. meio inútil, meio descartável. as coisas me parecem meio abstratas, meio impossíveis. algo me prende a cama e é tão frustrante. quero levantar, mas não consigo. penso nas coisas que tenho para fazer: lavar a louça, colocar as roupas pra lavar, dobrar aquelas limpas; lavar o banheiro. mas não sai, nada sai. eu não saio. fico em casa esperando por um milagre, uma surpresa. uma mensagem, uma ajuda.

tem uma coisa que me prende nesses dias de procrastinação excessiva, tédio incansante e a tão conhecida melancolia. ainda não sei que coisa é essa, mas ela me impede. impede de sorrir, inclusive de chorar. às vezes passo horas (hoje contei um total de 3) apenas deitada na cama, olhando pro teto, pensando na vida. ninguém deveria pensar tanto assim. vejo as atualizações no facebook, leio mensagens — que provavelmente não irei responder naquela hora, ou nunca -, vejo as fotos e vídeos de amigos no snapchat que me parecem muito felizes e penso “queria estar assim”. logo deixo o celular de lado e reflito sobre o que estou fazendo. as luzes do apartamento estão todas apagadas e só ouço o barulho do ventilador. estou fedendo porque o banho de hoje deixei pra depois. uma cólica insuportável e mais um mês sem coletor menstrual. me imagino fora de mim, olhando para mim. que situação deplorável. me odeio.

penso nas listas. “coisas para fazer”; “mudanças no apartamento”; “roupas para consertar”. entre elas estão inúmeras coisas. a mais presente é “ir no centro”. e eu preciso. preciso ir. porém, todos os dias, quando acordo, penso no sol, penso no calor. não quero andar por aí, num lugar lotado, me espremendo entre os corpos e ouvir pessoas gritando produtos, num sol fortíssimo. vou gastar os 2,75 do ônibus e ainda andar um tanto. não quero andar hoje. não tenho roupa pra ir pro centro. não quero sair de casa. não vou sair de casa. a cama tá ali. a apatia sempre esteve aqui. “é, talvez eu consiga fazer algo por aqui mesmo”.

desculpas. não posso ir porque to sem dinheiro, não posso ir porque to me sentindo mal. não posso ir porque não quero ir. e a vida passa. passa e eu nem a vi passar. existe uma parede entre mim e as pessoas à minha volta. eu sorrio bastante, sou muito comunicativa também. mas isso me cansa. me drena. logo fico triste. é sempre a tristeza. todos os dias eu tento não culpar essa parede, culpar a mim mesma. mas acho que não tem jeito. e eu noto, sabe? noto as pessoas tentando se aproximar, noto as pessoas tentando me incluir. e então eu lembro de algo que meu pai falou quando eu ainda era uma pré adolescente rebelde: “talvez o problema seja você. talvez as pessoas não estejam te excluindo, mas você mesma se exclui delas.” o problema sou eu.

para mim, todo dia com itens riscados é uma pequena vitória. vivi até aqui. que bom. mas daí, todo dia não vivido é uma gigantesca derrota e durmo com raiva de mim. no final do mês, não importam as vitórias. o lembrete constante do fracasso sempre estará lá. e ele pesa.

hoje vou dormir brigada comigo mesma.