sobre a morte, o tempo e o fim do mundo

a minha teoria é a seguinte: não sei por que, não sei em qual instância, não sei quando, mas tenho a constante sensação de que o dia da minha morte vai ser o dia do fatídico fim do mundo. da humanidade. o big bang ao contrário.

é louco imaginar isso: um acontecimento apenas, resultando numa morte em massa, o fim da sociedade, da raça humana, de tudo. o caos. e aí você pensa que esse tipo de sensação é o que me deixa acordada à noite. ledo engano. morrer junto com toda uma junção de gerações não me causa efeito algum. é estranho, eu sei. mas pensar no fim de tudo não me faz ter ataques de ansiedade ou é a causa da minha frequente insônia.

o que me dá medo, mesmo, é o tempo. de não dar tempo, para ser mais exata. não dar tempo de abraçar, de conhecer todos os lugares e todas as pessoas que quero conhecer. tenho medo de chegar atrasada e perder tudo. medo de não aceitar um convite que suscitaria no encontro com o amor da minha vida.

o fim do mundo não me dá medo. a terra, em toda sua grandiosidade, vai falar de volta em algum momento. acontece, ela deve responder. mas até lá… eu acordo e vivo todos os dias pensando “hoje eu não fui, mas amanhã dá certo”, só que o amanhã nunca vem e eu nunca vou de verdade. esqueço de um ensaio, de uma palestra e lembro já no outro dia ou em cima da hora. percebo que a vida é mesmo feita de escolhas, mas não existe uma certa ou errada. são escolhas que resultam em consequências. acredito, sim, em alguns acontecimentos predestinados por alguma força maior, uma junção bonita de energias. porém… e se fosse antes? ou depois? e se eu tivesse conhecido só agora aquela pessoa que julguei ser a “certa na hora errada”? muito provavelmente não teria findado em nada. no entanto, são pensamentos que rodeiam minha mente e, acredito eu, a mente de uma boa parcela de conhecidos — com uma possível exceção dos adeptos à filosofia trágica. a questão aqui não é se acredito ou não nisso, se sinto saudades de alguém ou se me arrependo de certas escolhas. no final das contas, tudo acaba recaindo na incrível-pergunta-motivadora-de-insônia: e se…?

dizer que “as coisas acontecem da forma como devem acontecer” e se abster de qualquer mudança maior é ser muito ingênuo, é não ter noção da força das próprias escolhas. e então, todos os dias estamos pensando no amanhã. o documento pra entregar, o contrato pra assinar, o prazo de um trabalho. hoje mesmo, recebi uma notícia e mal posso esperar para a segunda feira chegar. quero saber logo, quero pra ontem. mas daí… nessa rapidez de querer o amanhã pra ontem acabo passando por cima do hoje ou ficando confusa com a quantidade de opções. são muitas. e perco muito tempo pensando em qual caminho seguir, até que chega a meia noite e tudo fecha.

por isso, o fim da sociedade não me aterroriza. o planeta passa mal e, às vezes, uma resposta definitiva é a melhor resposta. a única coisa que desejo, no entanto, é conseguir viver devagar num mundo que anda tão rápido. é poder ir no meu tempo quando todos estão atrasados — mesmo que eu também esteja, na maioria das vezes. mesmo perdendo a hora, desejo compreender meu tempo particular e, possivelmente, aproveitar esses minutos de atraso que insisto em matar.

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