O dia 402 sempre chega

Os dias eram enfadonhos, um misto de cheiro de gordura, preços inacessíveis e pessoas conversando sobre suas vidas. Há dois anos desistiu da graduação, ao se ver no último ano, sem ideias para o tcc em um curso que há muito tempo não se identificava. Sem vontade de voltar para casa dos pais, vivia no limite, se a vida apertava, dava um jeito de colocá-la nos trilhos; se estivesse nos trilhos, aproveitava cada segundo.
 
Identificar mesas recentemente deixadas para limpá-las, observar novos clientes entrando, anotar seus pedidos. Ouvir conversas entre um e outro atendimento. Sorria sabendo que ali não era uma pessoa, mas a mediação entre o desejo e a satisfação.

Quando alguém a humanizava, imaginava cenas de filme. Ela serviria um drink no bar — ela não atendia no bar — e começariam a perguntar sobre sua vida e ela também estaria interessada naquela vida desconhecida a sua frente. Às vezes imaginava algo mais sexual, ela serviria alguns drinks e depois de um tempo ouviria algumas frases que a convenceriam a levar uma pessoa estranha pra casa.

Dia 1

— Você sempre tá aqui, nunca descansa?
 — Oi? Não, nunca descanso, sou um robô. — Ela responde, claramente irritada.
 — Desculpa.
 — Eu fui grossa né?! Desculpa, não é voluntário, de verdade. Agora tô me sentindo culpada.
 — Tudo bem, não se preocupa, foi algo idiota de falar.
 — Você vai comer o que?
 Ela vê então um olhar desconfortável.
 — Eu fiz de novo né?! Perguntei porque vai ser cortesia, pela grosseria.
 — Você não precisa fazer isso, não quero que faça, mas quero dois chopps e o sanduíche 43.
 — Anotado. Trago os dois chopps agora?
 — Sim, meu amigo já tá chegando.
 — Ok.

Dia 22

— Achei que você sempre viesse aqui… pra saber que eu nunca descanso. — disse rindo.
 — Eu resolvi experimentar outros lugares, mas realmente adoro tudo daqui.
 — Que bom que voltou. Vai pedir algo?
 — Hoje eu quero o 42 e uma coca lata, tô sem companhia hoje.
 — Anotadinho. Qual é seu nome mesmo?
 — Rafaela.
 — Rafaela, de novo, desculpa por aquele dia.
 — Fica tranquila, Alessandra.
 
Fica assustada por um momento ao ouvir seu nome — ela esquece que tem um crachá, já que nunca a chamam assim, mas só levantam a mão e fazem contato visual. Passada a estranheza, acena com a cabeça e sai andando em direção a cozinha.
Rafaela era a única com o pedido sendo feito. Naquele dia, particularmente, a lanchonete estava vazia, mesmo para uma terça-feira. Quando o estabelecimento ficava assim, ela sentava no banco atrás do balcão e mexia nas suas redes sociais ou olhava para a rua.
Aquele era um dia chuvoso e ela adorava quando chovia porque a rua ficava bonita com o brilho das luzes no asfalto molhado. Dias assim costumavam deixá-la mais introspectiva, este estado era propício para ela fumar e pensar no rumo denso e descontrolado de sua vida. Mas naquele dia, ela só se sentia feliz por nada em especial.

Dia 29

— Terça e você aqui, de novo!
 — Na verdade eu tava esperando que tivesse vazio igual terça passada.
 — Meu chefe não gostaria de te ver falando isso, hein… Mas por que?
 — Seu chefe não pode… — Ela se esforçou pra ouvir o que Rafaela disse depois, mas não conseguiu
 — Não entendi, o que ele não pode?
 — Nada, eu tava pensando alto, desculpa. Só quero um chopp hoje.
 — Tudo bem.
 Saiu andando e sentiu algo estranho. Voltou.
 — Sério mesmo, o que você disse?
 — Eu ia falar bobeira, mas, ah, azar, você podia sair comigo um dia.

Sem entender o que isso tinha a ver com tudo, aceitou o pedido e sorriu.
 
 Dia 401
 
— Não sei o que aconteceu, só não sinto a gente conectada mais.
 — Caralho, Alessandra, ontem você tava dizendo pra gente começar a olhar um lugar pra morarmos juntas, já que você tá fazendo o que gosta agora e ganhando bem. De uma hora pra outra a gente não se conecta mais? Me explica isso direito.
 — Não tem o que explicar, eu queria poder, mas eu não sinto mais o mesmo. Eu sei o que eu disse e que tá tudo tão mais fácil agora, mas a gente… só não dá mais, você é ótima, mas acho que isso… sei lá, acho que passou pra mim.
 — Como assim passou, cara, ontem, ontem… 
 — Passou.

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