A vida não é dividida em gavetas.

Comecei a terapia há pouco tempo e recém tive minha terceira consulta. Na primeira dei um panorama geral da minha vida, me apresentei. Na segunda e na terceira cheguei lá pensando num assunto específico, o mesmo nas duas semanas. Queria falar sobre aquilo por vários motivos. Por só conseguir ter pequenas conversas nada esclarecedoras sobre o assunto era um deles. Além disso, me incomodava perceber que pensava muito sobre aquilo e não conseguia organizar as ideias. Talvez falar em voz alta me ajudasse.

Ainda na primeira consulta minha psicóloga me disse algo como “tu é uma pessoa só, não existem divisões, tudo que eu viveu são experiências tuas e elas influenciam em todas as coisas”. Parece simples. Faz muito sentido e é uma colocação totalmente compreensível. Pelo menos para mim foi assim quando eu ouvi. As vezes me parece que entender e acreditar numa coisa é muito fácil. Aquilo só precisa fazer algum mínimo sentido e de preferência não trazer muitos questionamentos naquele primeiro momento. A partir dali aquilo se torna uma verdade que pode, ou não, ser desconstruída com o tempo. Pois veja bem, nas últimas semanas me peguei várias vezes tentando internalizar que não existem divisões entre as minhas experiências. Que tudo que eu vivi tem influência em tudo que eu vivo e que a minha bagagem pode me trazer respostas sim. Na teoria tava lindo.

Aí me vi novamente na frente da minha terapeuta, falando daquilo em voz alta e começando a ter sinapses que não aconteceram nas longas madrugadas no meu quarto. Talvez isso tenha relação com aquela vez que eu queria jogar handebol na escola e fui colocada na turma um ano mais nova que eu. Talvez eu tenha apenas aceitado isso, uma coisa que tem total relação com a minha dificuldade de ter relações horizontais. E afinal o que isso tem a ver com aquilo que eu tava falando mesmo? Ah sim, absolutamente tudo. Então esse desejo dentro de mim faz sentido, pois lá no começo a minha motivação foi essa mesmo. Talvez eu não esteja tão perdida. As coisas fazem sentido entre si, afinal.

Acomodada, sem andar para a frente. Era isso que eu me achava até a minha terceira sessão de terapia. Ué, não sou não. Talvez aquilo que eu tanto queira discutir naqueles sagrados quarenta e cinco minutos não esteja do jeito que eu gostaria (ou que eu idealizei no passado). Mas estagnada é uma palavra que não existe na minha vida. Afinal, se tudo anda junto, talvez umas coisas andem devagar, mas e as outras? Uma coisa leva a outra e talvez seja só o momento de ter um foco maior em resolver o que incomoda mais. Ela me deu vários exemplos para eu entender que não sou uma pessoa acomodada. E olha só, parece que eu sou uma pessoa bem pra frente, inclusive.

Tudo está interligado. A Taysi que sai pra trabalhar todos os dias é a mesma que vai pra balada no final de semana, ou que prefere ficar assistindo Netflix dessa vez. Que é a mesma que quando era mais nova dava um dedo pra dormir fora de casa e que hoje valoriza a sua cama e o seu espaço mais do que qualquer coisa quando chega a hora do descanso. Não existe uma gaveta para cada coisa dessas. A gente é um baú com tudo jogado dentro. Existem algumas organizações, é verdade. Mas está tudo ali, no mesmo lugar.

Então talvez eu abra o meu baú e queira achar um livro. Antes do livro eu acho uma foto. E essa foto pode ter sido tirada num lugar que eu lembrei de um filme. E esse filme pode ter feito eu começado a me interessar por um assunto e querer me aprofundar mais sobre ele. E nesses estudos sobre esse novo assunto que eu me interessei, eu parei naquele livro que eu procurava lá no começo. A vida é assim também. Pode parecer que a gente ta vivendo experiências desconexas e que absolutamente nada daquilo constrói algo concreto. Mas você sabe o que de concreto quer construir na sua vida? Eu não sei. E isso não é errado nem aos vinte três e nem aos cem anos. Parece papo de gente que aplaude o sol (nada contra, inclusive adoro e aplaudo também) mas qual é o sentido da vida há não ser vivê-la? É impossível sabe se no virar da próxima esquina as coisas não vão tomar um rumo completamente diferente. Já dizia Forfun:

Esquece que caixão não tem gaveta e que dessa passagem a aprendizagem é a única bagagem levada. (Panorama)

Se me permitem a analogia, o caixão nada mais é do que um baú que guarda o que fomos fisicamente. Somos inteiros até o último momento. Ou você marca um café com o seu amigo esperando que ele deixe as pernas ou os braços em casa? Não. Ele vai estar ali por inteiro, seu corpo, sua alma e todas aquelas experiências vividas por ele. A gente carrega tudo com a gente o tempo todo. E é o conjunto do que somos que temos que entender.

Eu ainda não resolvi aquele problema que eu quis levar para a terapia nas últimas duas consultas. Mas eu aprendi que se eu ficar achando que ele é só uma gaveta, vai ser sempre uma gaveta bagunçada. Daquelas que a gente não acha nada que resolva o problema que estamos enfrentando. Talvez se eu abrir todas as gavetas, colocar tudo na mesa e olhar para o todo eu entenda de onde veio aquele problema. E o mais importante: talvez eu resolva ele. Aprendi que colocar tudo em gavetas não faz sentido nenhum, o negócio é jogar tudo na mesa.