Disponibilidade e o vazio que a falta dela deixa.

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Ele não estava disponível .— disse a minha terapeuta me interrompendo no meio da minha história.

Não, ele já tinha terminado com ela naquela época. — disse eu para retomar a linha de raciocínio.

Mas ele ainda não estava disponível. — ela me interrompeu de novo — Aliás, pelo que tu tá me contando, ele não está disponível. — ela disse, eu calei — Tu entendeu o que eu to dizendo?

Eu odeio quando isso acontece. Mas não, eu não tinha entendido. Agora eu fico pensando como não, era tão óbvio. Talvez eu apenas estava tão dentro do ato de contar a história que não conseguia absorver nada.

Ele não está disponível. Tu sim. Tu deu tudo aquilo que tu tinha de bom e não recebeu nada em troca. Por isso a sensação de esvaziamento. — ela continuou, eu comecei a entender.


Lembrei da época que eu estava indisponível. Não faz muito tempo. Aquele cara que eu tinha conhecido numa festa me mandou uma mensagem na segunda-feira. Isso mesmo, no primeiro dia útil da semana. Me convidou para dar um role na sexta. Tinha pensado em tudo já. Escolheu um lugar que tinha a ver comigo. Eu tinha comentado mais ou menos onde eu moro e ele mora do outro lado da cidade. Mas tinha escolhido um lugar mais perto para mim. Eu desconversei, disse que tinha aula sexta à noite e sábado de manhã (eu tinha mesmo). Mas se eu realmente quisesse eu poderia sugerir outra data, não? Poderia dizer que quem sabe na próxima sexta, minha aula acontecia só de 15 em 15 dias. Mas embora eu só entenda agora, eu não estava disponível.

Ele era um mundo novo pra mim. Uma profissão nada a ver com a minha, mais velho, uma estrutura familiar bem diferente da minha. Eu não estava disposta a pular ali, no escuro. Eu nem poderia. Tinha uma rede de segurança ali, eu que coloquei ela.

Não adiantou ele dizer o quanto me achou incrível por esse ou por aquele motivo. Não adiantou ele dar um jeito de pescar minhas preferências em conversar curtas e desencontradas numa festa que eu estava meio alcoolizada. Não adiantou ele mandar os links certos no meu inbox. Não adiantou ele não dizer que ia me ensinar a tomar cerveja — como todos os outros fazem — e aceitar tomar um cosmo comigo. Não adiantou ele me fascinar com os hobbies dele e me fazer morrer de rir com a piada sobre a minha blusa (ainda lembro toda vez que uso ela). Eu simplesmente não tava pronta. Então mais perto da data eu disse que não poderia sair com ele mesmo, sem muitas justificativas. Ele nunca mais tentou. Talvez eu tenha perdido uma oportunidade maravilhosa. Mas naquele momento eu só ia esvaziar ele.


Eu já passei por isso, — continuei — não queria ficar julgando. Não sei exatamente o que é, mas imagino. Foi uma fase muito difícil pra mim.

Tu só precisa entender que a culpa não é tua — ela concluiu.


Saí de lá pensando nas pessoas que esvaziei. Lembrei que perdi perdão para a maioria delas. Lembrei inclusive de um cara específico. Recentemente pedi desculpas pra ele aos prantos (com o álcool na cabeça, claro) em uma noite qualquer na casa de uma amiga em comum e recebi a maior demonstração de carinho de tudo que vivi com ele. Foi uma surpresa sem tamanho. Talvez ele tenha entendido algum tempo depois pelo que eu tava passando.

Ninguém é perfeito, às vezes a gente esvazia as pessoas. Cabe a quem esvaziou entender o que foi feito e pedir perdão (na hora certa, com a cabeça fria). Cabe a quem foi esvaziado entender e perdoar (mesmo que o pedido formal de desculpas não aconteça).

To aprendendo aos pouquinhos que desejar a felicidade de quem te fez mal por algum motivo é a melhor forma de perdão. Ódio e mágoa só sugam a nossa energia. A gente tem que transmitir o que queremos receber. É tão clichê, mas a gente sempre esquece né?