Escrevendo com luz.

Fundação Iberê Camargo. Porto Alegre, julho de 2017.

Sempre gostei de fotografia. Me lembro quando ganhei minha primeira câmera digital, daquelas domésticas. Me lembro com precisão. Azul, três mega pixels de resolução e uma infinidade de histórias registradas.

Verdade, a minha vida não era muito interessante (não que agora seja), mas tudo se potencializava com aquela câmera na mão. Qualquer aniversário de um amigo, qualquer tarde de brincadeiras, qualquer momento. Tudo era registrado por mim e posteriormente publicado no fotolog. Foi com aquela câmera azul (que se não me falha a memória, veio de brinde na compra de um computador) que eu comecei a me interessar pela emoção que uma imagem pode trazer.

Acho que a gente coloca emoção num pedestal, sabe? Na publicidade, por exemplo, quando falamos de uma linguagem emocional logo imaginamos o telespectador aos prantos no intervalo do Fantástico assistindo ao comercial do nosso cliente. Poxa, será que emoção é só isso mesmo?

No dicionário talvez seja, ele diz algo como “abalo afetivo ou moral”. Abalo também é uma palavra forte. Mas sabe, aquela câmera azul chegou aqui em casa há quase 15 anos. Não foi a primeira que tivemos, é claro. Mas foi a primeira que eu tive um acesso “livre” e falar dela me emociona.

Eu lembro de tudo que eu passei desde lá. Longe de ser uma história de vida difícil, mas eu era uma criança. Será que eu imaginava tudo que ia mudar no mundo, tudo que ia acontecer comigo. Será que em algum momento com aquela câmera azul na mão eu imaginei que seria a jovem adulta que eu sou hoje?

Jardim Leopoldina. Porto Alegre, agosto de 2017.

A verdade é que a fotografia é só uma das coisas que eu achei que não era boa o suficiente para seguir, mas que mesmo assim nunca deixaram de me emocionar de alguma maneira. Ou uma das coisas que eu não me achei digna de tentar ser melhor.

Impossível não lembrar da época que eu entrei na faculdade. No primeiro semestre já desisti daquilo que tinha me levado pra publicidade. Justamente por achar que já existiam muitas pessoas melhores que eu na minha turma e que eu deveria ser melhor em outra coisa. Hoje eu vejo que aquilo foi um baita acerto, mas eu poderia ter pelo menos tentado um pouquinho mais, né?

Ainda lembrando do começo da faculdade, chegou a primeira cadeira de fotografia. Basicamente toda teórica, é verdade. Mas rolou aquela oportunidade de pegar um câmera profissional na mão e levar para casa durante um final de semana, com o objetivo de fazer um trabalho.

Me lembro com clareza de ter uma dificuldade enorme de fazer alguns exercícios (talvez por não ter prestado atenção na aula teórica) e pensar: viu, que bom que eu desisti, isso não é pra mim também. Mas lembro também de pegar aquela câmera na mão e não sentir vontade mais de estar na frente dela.

Rainha das selfies. Você vai constatar se entrar no meu Instagram. Mas a verdade é que meu rolo da câmera abriga um número muito maior de fotos aleatórias que eu não postei por achar que não eram boas o suficiente.

Autorretrato. Porto Alegre, julho de 2017.

A verdade é que eu resolvi que 2017 ia ser o meu ano. Dezessete é o meu número. É o dia que eu nasci, é o dia que a minha melhor amiga nasceu, é o meu número da sorte. É um número que sempre me traz coisas. Não tinha motivo para não ser maravilhoso. E ele realmente vem sendo.

Voltei a escrever, embora a frequência por aqui tenha diminuído. Me reaproximei de pessoas das quais sentia falta. Troquei de emprego, fui para a praia sem planejamento, fiz uma viagem internacional de Kombi, marquei uma viagem para a Europa, mudei a cor do cabelo, fiz três tatuagens e um piercing, comecei a namorar e comprei câmeras.

Sim, no plural. Eu já tinha uma action cam, que virou até hashtag uma época. Decidi que compraria uma instantânea e assim a fiz. Existia um plano a médio prazo de comprar uma profissional e ele acabou se concretizando antes. Comprei uma toy câmera usada com alguns problemas e no caminho até a minha casa estão uma câmera de 1969 e uma outra toy câmera mais resistente (a primeira, que é linda, vai ficar de decoração).

Exagerada, você vai dizer. Pode ser que sim. Mas a primeira vez que saí de casa para fotografar, no mês passado, meu coração batia na garganta. Eu era de novo aquela guriazinha com a câmera azul na mão, editando as fotos de forma brega para serem colocadas no fotolog.

Fundação Iberê Camargo. Porto Alegre, julho de 2017.

A lição que este ano vem me trazendo é que a minha essência é muito importante. Eu perdi muita coisa no meio do caminho. Por não me achar suficiente, por me achar boa demais, por descuido, por inúmeros motivos. A verdade é que eu enxergo uma mudança logo ali na frente, cada vez mais perto. Talvez justamente o que falta para uma chave virar seja eu aprender quem eu sou e quem eu já era na época da câmera azul.

Sigo sempre tentando me entender, para que a partir disso seja possível me admirar, me perdoar, me incentivar. E a partir fazer para o próximo, para o mundo, para a posteridade.

Agora estou escrevendo um pouco com luz também, sempre em busca daquilo que me move: ser um pouquinho melhor todos os dias.