Eu não escrevo mais textos de amor.
Durante tantas noites deitei a cabeça no travesseiro pensando em ti. Durante tantos dias fiquei nervosa só de imaginar que não tinha como fugir da tua presença. Durante tantos meses eu esperei por migalhas e quando as recebi comi como se fossem um banquete.
Mas tem uma coisa disso tudo que me tira do eixo: eu nunca te escrevi. A verdade é que eu nunca te falei, de nenhuma maneira, tudo que eu senti. Talvez tu não faça ideia ou talvez esteja tudo completamente claro na tua cabeça engenhosa. O fato é: eu não escrevo mais textos de amor.
Eu sinto o amor. Eu vivo ele, tento decifrar, buscar significado. Talvez isso nem tenha sido amor e por isso eu não tenha conseguido escrever. Ou talvez eu não queria que o sentimento fosse real, então eu nunca registrei ele e nunca te falei sobre ele.
Busquei confidentes, tive muitos. Inventei histórias na minha cabeça sobre nós dois. Nos imaginei em países que hablam, queimando plantas, lençóis e largadas. Imaginei braços tatuados, beijos quentes e cervejas geladas. Mas no fundo eu já sabia que só imaginava tudo isso por saber que não ia acontecer. E foi daí que eu percebi que eu não escrevo mais textos de amor.
Talvez esse seja meu bloqueio criativo. Durante anos escrevi sobre o amor que dediquei a outras pessoas e agora eu me amo tanto que é difícil falar do amor que eu sinto por outrém. A verdade é que eu ainda to aprendendo essa nova maneira que eu lido com o amor.
Esses dias falei teu nome e tu apareceu. Assim, do nada. Vi que a minha palavra é poderosa e pensei: se ela é tão poderosa assim, pq ela não pode me libertar também? Resolvi que ela vai, de ti e todos os outros fantasmas.
Eu não escrevo mais textos de amor. Pelo menos não até me servirem um banquete.
