Hora do banho.

Taysi Borraz
Sep 3, 2018 · 4 min read

Não lembro exatamente quando comecei a tomar banho sozinha na infância. Muito menos lembro se era algo agradável. Lembro que quando estudava à tarde, tomava pela manhã. Mas quando comecei a estudar pela manhã, sempre tomava à tarde.

Embora o banho matinal me agrade muito, ele não cabe na minha rotina durante a semana. Tenho dificuldades de acordar cedo e demoro muito mais no banho se estou com sono. Nos finais de semana pode ser que isso mude com certa frequência, mas mesmo assim a grande maioria dos meus banhos são tomados à noite.

Lembro de uma vez, no começo da faculdade, de uma aula de que se chamava “Criatividade”. Numa mesa redonda certa vez falávamos dos momentos em que tínhamos ideias. Eu sempre tinha ideias no banho naquela época, só no banho. Hoje em dia ainda as tenho, mas abri meu leque de locais.

Naquela época a minha rotina tinha mudado bruscamente. Antes mesmo das aulas começarem eu já tinha conseguido um estágio. Trabalhava das nove da manhã até as três da tarde, voltava para a casa, arrumava as coisas, fazia alguma leitura necessária e ia para a aula. Chegava em casa depois das onze horas da noite e ia tomar meu banho antes de dormir.

Esse era o momento que eu avaliava meu dia. Naquela época eu tomava quase dois litros de café por dia para aguentar a rotina, mas mesmo assim dormia com facilidade ao me deitar. Então, o banho era o momento do check list, do balanço, da arrumação mental antes da noite de sono.

Desde aquela época eu observava a árvore do condomínio que é a vista da basculante do banhheiro. Pra mim ela lembra um pinheiro, mas tenho certeza que não é. Existe um poste de luz localizado num ponto bem específico que a ilumina de forma bonita. Quando chove, dá pra ver claramente a chuva cair ali naquela parte que ela é iluminada. Um dia inclusive, tirei uma foto dessa árvore da janela do quarto dos meus pais e ela bombou no Instagram.

Faz um tempo que eu uso a expressão “banho de diva” aqui em casa. Que é quando eu quero fazer tratamentos de beleza antes, durante e depois do banho. Quando eu quero me depilar, por exemplo. Só quem mora numa casa com quatro pessoas e um banheiro sabe como é difícil tomar banho com calma. Mas por incrível que pareça, meu banho de diva é respeitado. Mas eu estou sempre alerta e ele acaba não sendo tão relaxante quanto deveria.

No verão passado, um belo dia eu estava sozinha em casa. Estava escurecendo e eu enchi o banheiro todo de velas, coloquei uma música que me agradava e sentei no chão. Só as luzes das velas do banheiro iluminavam a casa inteira. Eu tinha apagado todas as luzes e fiquei por muitos minutos sentada no chão do banheiro, ouvindo música e cantando baixinho.

Finalmente decidi entrar no banho e aproveitar aquele momento a meia luz. Eu, as minhas velas, a minha música, o poste de luz e a árvore. Todos juntos, colocamos ideias no lugar, como de costume. A partir daquele dia eu nunca mais tomei banho com todas as luzes acesas. Deixo somente uma acesa e nunca é a do box.

O banho ganhou mais um significado. Com menos luz, sou obrigada a percorrer meu corpo com mais cautela. Pegar o sabonete com mais cuidado, pq se ele cair e eu tiver que pegar pode ser que eu escorregue. Percebi que comecei a me massagear mais enquanto me limpo. E nada disso tem a ver com masturbação, ela até foi um pouco abolida do meu banho. O banho no escuro se tornou quase uma meditação e perdeu um pouco do espaço para os “prazeres mundanos”.

Sou uma pessoa completamente agitada, mas o banho aquieta a minha mente. Ele já não me traz ideias geniais, mas sim reflexões geniais. Ele não é mais sobre um balanço diário, mas sim o diário de um caminho que eu estou traçando. Talvez o banho seja um dos únicos momentos do dia que eu fiquei realmente sozinha com os meus pensamentos. Além dele tem a ida e volta do trabalho e a hora de dormir, mas isso é papo pra outro texto.

Hoje entrei no banho um pouco de forma automática, mas logo me senti presente naquele momento. A chuva caia e a luz do poste me mostrava a água batendo nos galhos da árvore. Entoei mentalmente alguns mantras enquanto lavava o cabelo e fiz uma gentil massagem no galo que adquiri ontem na cabeça. Fiz depois alguns exercícios de respiração e então tive uma grande ideia: a de escrever um texto sobre um momento tão íntimo.

A verdade é que eu posso falar do que eu quiser do meu banho, eu posso descrever ele em detalhes, mas ele sempre será somente meu. Quando as pessoas dizem que eu falo demais da minha vida eu costumo alertar: você só está vendo — ou ouvindo, ou lendo — a ponta do iceberg. Fica aqui mais uma ponta do iceberg. Ele não tem nada de gelado, mas ele é muito maior do que parece.

Taysi Borraz

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Eu vivo dos meus devaneios, tentando justificar os meios, desejando veraneios e copos cheios, sem muitos anseios. | Porto Alegre, RS | tborraz@gmail.com