O privilégio de entender os meus privilégios.

Então um belo dia a ficha começou a cair. Não sei que dia foi, não sei como aconteceu. Gosto disso. Gosto quando eu não entendo o começo e o fim das coisas.

Eu sou de humanas, mas meu pai é professor de matemática. Os ditados já dizem. A fruta não caí longe do pé. Filho de peixe, peixinho é. A verdade é que nem eu, nem o meu pai somos frios. Mas ambos somos calculistas. Eu sei amigo, você olha pra mim e pensa que eu sou só impulso. Que eu não penso, que eu só faço. Que eu sou aquela típica pessoa que vive intensamente sem pensar no amanhã.

Você, querido amigo leitor, está enganado.

Pautei minha vida por muitos anos em datas e ciclos, na maioria das vezes educacionais (ser filha de professor talvez tenha relação com isso também). Fiz tudo diante de um cronograma que eu acreditei, por muito tempo, ter sido estabelecido por mim (spoiler alert: não foi). Só que agora meu ciclos educacionais acabaram, não existe nenhum no horizonte e eu não tenho mais no que pautar a minha vida.

Obrigada universo. Agora sou mais leve. Consigo até esquecer datas de coisas banais. Eu sei que só eu vou entender o quanto é libertador olhar no calendário e não pensar “nesse dia tantos anos atrás eu estava indo a tal lugar”. Quem precisa guardar isso na memória?O Facebook nos diz.

Voltando, um dia caiu a ficha. Ou melhor, começou a cair, acho que esse processo nunca vai acabar. Eu comecei a perceber quem eu era no mundo. Meu papel, meu lugar, meu cotidiano. Sim, eu vivi no automático por muito tempo. Foi difícil aceitar isso, mas foi libertador quando eu entendi que era absolutamente normal. Nesse processo existiu uma parte muito difícil: entender o meu privilégio.

Eu reclamo. Ô se reclamo! Esses tempos me vi numa janta com os meus amigos mais próximos só abrindo a boca para reclamar. A noite inteira, sem parar. Nada era bom. Me senti um lixo quando cheguei em casa. Eu seria muito hipócrita dizendo que com o entendimento do meu privilégio eu passei a reclamar menos.

Não passei. Eu reclamo pra caralho. Mas aí eu chego em casa, acendo uma vela aromática, coloco uma playlist boa, o celular no modo avião e sento na cama. Não com as costas retas, não numa posição que seja possível meditar de forma quase divina, mas com vontade. Respiro fundo e começo a entender o que está me frustrando. Vou na raiz do problema, entendo e faço o caminho de volta até o momento atual. Todas as vezes que eu fiz isso, sem exceção, eu achei um privilégio no meio.

Quer um exemplo?

Uma sexta-feira dessas cancelei todos os pré rolês combinados. Eu tava exausta. Era capaz de eu repetir a façanha de atender o telefone falando “Layout?” invés de “Taysi?”, como fiz uma vez no trabalho. Vim pra casa, dormi muito e acordei no sábado com aproximadamente vinte áudios de uma amiga cantando músicas numa festa. Eu não via ela há tempos, mas ela tinha me convidado pra sair naquela sexta e eu tinha recusado.

Sério, o que eu fiquei frustrada com aquilo não está no gibi. Eu passei o final de semana todo me torturando. Pensando o porquê de eu não ser uma pessoa normal de vinte e três anos e conseguir emendar um rolê na semana de trabalho (olha eu, me medindo com a régua dos outros de novo). Daí no domingo de noite eu resolvi que ia começar a semana melhor e tentei buscar minhas frustração.

Primeiro. Eu tinha trabalhado duro a semana inteira. Tinha sido um mês intenso, a equipe toda tava cansada e a gente tava tirando forças de onde não tinha pra tudo sair o melhor possível.

Segundo. Eu me desacostumei a sair sexta-feira. Por dois anos em finais de semanas intercalados eu fiz uma especialização nas sextas-feiras à noite e nos sábados pela manhã. Meu final de semana começava nos sábados ao meio dia, com um belo cochilo que durava a tarde toda.

Terceiro. Eu ia gastar horrores naquele lugar. Eu amo todas as comidas e os drinks que tem lá e eu ia tomar clericot por um ano inteiro. Eu tinha acabado de comprar minha passagem para Barcelona e uma câmera que eu desejei muito. Eu precisava dar uma segurada.

Essas foram só as primeiras camadas da reflexão. Mas, por favor, observem as palavras em negrito. Todas elas são privilégios sem tamanho.

Eu não chequei a informação pra não perder o fio da meada do texto, mas a última vez que eu me lembro a taxa de desemprego no Brasil estava mais do que 13%. Essa porcentagem também é mais ou menos a de adultos com ensino superior no país. Além disso, esses dias fiz aquela escala pra saber a qual classe econômica eu pertenço e caí pra trás com o resultado. Quantas pessoas podem fazer a economia que eu to fazendo pra dar um banda, por mais simples que seja, no Velho Mundo?

Por alguns minutos, naquela reflexão, eu me odiei. Me odiei por reclamar, me odiei por achar minha vida ruim, me odiei por sem uma jovem adulta mimada que teve absolutamente tudo nas mãos. Daí respirei fundo e o cheiro da vela de marca independente de jovens adultos cool foi bem absorvido. Quando soltei a respiração algumas lágrimas caíram. Quase que do além ouvi na minha mente a minha terapeuta me explicar o porquê de eu não poder me martirizar por algumas coisas. Fiquei um tempo tentando esvaziar a mente. Minha cachorrinha andava pela casa, eu ouvia as patinhas batendo no laminado.

Saí do quarto, fui ao banheiro, lavei o rosto. No corredor fiz um pouco de carinho na barriga do elemento canino da casa. Voltei para o meu quarto, apaguei a vela, chequei o celular, desejei os devidos “boa noite” e fui dormir.

A ficha caiu mais um pouco aquele dia, como acontece todos os dias. E que privilégio esse rolê de se entender. Obrigada ao tempo, ao universo, ao meu Deus (que eu ainda to tentando redescobrir) e as experiências vividas até aqui.

E agora, com a sua licença, vou desfrutar do privilégio de um banho quente e agradecer por esse texto ter sido, praticamente, concebido por um momento de micro frustração hoje voltado do trabalho. Escrever me faz bem demais. Com o perdão do uso da palavrada hype: gratidão por você tem lido as minhas palavras.