Sair sozinha no horário do almoço num sábado.

Ou: como a nossa companhia no cotidiano é mais difícil.

Acordei com o telefone tocando de maneira ensurdecedora. Vi que a minha porta do meu quarto estava aberta e logo concluí: estou sozinha. Cheguei na sala e a minha cadelinha que latia loucamente estava em cima do sofá (local do qual ela não consegue descer sozinha). O telefone parou de tocar. Não consegui atender. Minha bexiga apertou e eu fui correndo para o banheiro. A torneira tava mal fechada. Fechei direito. Fiz xixi pensando que alguém deveria ter morrido. O telefone – que depois descobri que na verdade era o celular da minha mãe, que ela deixou em casa – que não queria parar de tocar, esqueceram a cadela em cima do sofá e não fecharam direito a torneira. Lá em casa é todo mundo cricri e bem organizado, só eu que saio um pouco da curva. Nada fazia sentido.

Sai do banheiro e resolvi ligar pro meu pai. Entendi toda a situação e o meu pressentimento ruim. Tínhamos um convidado pro almoço. Um convidado do qual eu não gosto muito. Pensei “vou convidar alguém para almoçar fora”. Peguei meu celular e ele estava – atipicamente – explodindo. Provavelmente por eu ter caído no sono um pouco depois das 22 horas ontem. Mas pode ser também pq aparentemente na vida de todos os meus amigos mais próximos alguma coisa muito interessante aconteceu de ontem para hoje. Mas ninguém podia almoçar comigo.

Nessa altura do campeonato todo mundo já estava em casa novamente se preparando para receber a visita. A reação quando essa pessoa vem comer na nossa casa me irrita. Fico extremamente irritada com a preparação sem tamanho, a preocupação com os calendários que estão pendurados na cozinha e com todo e qualquer detalhe sem importância. Com o passar dos anos eu aprendi a não expressar isso e apenas me retirar. Fui escovar os dentes e quando saí do banheiro e entrei no meu quarto dei de cara com uma lembrança da minha última – e única – viagem sozinha. Era como se o universo me dissesse: que lindo né? Ficar sozinha perto de casa não é tão fácil assim.

Eu vou almoçar fora, ok? – eu disse em voz alta a ninguém em especial. Todos assentiram, mesmo enquanto cozinhavam e limpavam a casa incansavelmente. Comecei a me vestir. Uma calça de moletom, uma alpargata bem destruída, uma blusa listrada e uma jaqueta jeans. Nada de acessórios. Só o óculos – que já não consigo ficar sem – e a corrente com o olho grego que nunca tiro do pescoço. Os cartões foram dentro do plástico da identidade dentro de um bolso da calça, a chave no bolso com botão da jaqueta e o celular com o fone conectando no outro bolso da calça. Luccas Carlos dizia no meu fone “eu sumo na neblina, cê gosta dessa adrenalina” e o ônibus chegou.

Dois ônibus depois, desci no shopping. Prendi metade do meu cabelo em um nó – façanha do possível depois que entrei no processo de ficar platinada. Me olhei rapidamente no reflexo da porta automática: aceitável. De maneira alguma tinha a intenção de estar linda. Caminhei até a praça de alimentação sem olhar para os lados. Faltavam ainda alguns minutos para o meio dia, mas eu não havia ingerido um gole de água sequer desde a noite anterior. Decidi ainda no ônibus que ia comer massa e caminhei sem dúvidas até o balcão do restaurante. Nhoque com molho quatro queijos e iscas de frango e uma Coca 600ml, por favor.

Você já deve ter ido ao shopping sábado no horário do almoço. Mas se não foi, eu vou lhe contar mais ou menos como é. Famílias, casais apaixonados, amigas risonhas. Pessoas sozinhas? Claro. Mas não vi uma única mulher. Fiz minha refeição calmamente enquanto ouvia música e conversava com alguns amigos pelo celular. Fiquei pensando no que faria depois, já que mesmo me esforçando para comer calmamente, terminei a refeição muito rápido. A praça de alimentação já estava enchendo e eu precisava ceder o lugar para alguém. Pensei: vou na livraria no shopping do outro lado da rua – sim, é um shopping em frente ao outro.

Entrei na livraria e comecei a ver os livros em destaque. Já segurei um, sobre filosofia. Enquanto lia a orelha de um livro sobre mulheres na segunda guerra, tocava Ludmilla no fone – você tirando o meu batom, é bom bom bom bom bom. Caminhei rapidamente para uma outra ilha de livros em destaque e vi um rosto conhecido na visão periférica. Cê tá de brincadeira comigo, universo. Era um cara que eu tive um rolo e que desgraçou a minha cabeça. O engraçado é que era a segunda vez na semana que eu vi um cara desses. No começo da semana rolou no ônibus, com um que tenho uma história mais recente. Em ambos os casos rolou aquele claro “vou fingir que não te vi” mútuo. Eu achei ótimo. To ficando boa nisso.

Não deixei o acontecimento me abalar e segui minha exploração da livraria. Confesso que só fiquei tranquila quando ele saiu do meu campo de visão. Mas eu claramente não ia deixar de ver os livros de literatura brasileira por causa dele. Refleti um pouco sobre os acontecimentos relacionados aos dois caras que vi essa semana. Lembrei que saí com uma amiga que não falava há tempos essa semana, que conhece os dois – eu tenho essa mania de me apaixonar por caras do mesmo círculo social – e falamos rapidamente de ambos. Eu não queria de maneira alguma que o último fosse pauta dos nossos drinks com espumante, a gente tinha muita coisa para colocar em dia. Mas por eles serem próximos o papo foi inevitável e eu cheguei em casa pensando estar curada daquela dor. Alguns dias depois, ainda acho que estou. Do cara da livraria eu definitivamente estou. Pois em vez de pensar “quem ele pensa que é pra fingir que não me viu?”, eu pensei “ufa!”.

Depois de uma reflexão sobre meus relacionamentos amorosos me peguei numa estante com livros de direito. Alguns títulos me interessaram, anotei no bloco de notas do celular. Não eram tão prioridade assim no momento. Olhei alguma coisa sobre tecnologia, astrologia e depois mais uma ilha de livros em destaque e subi as escadas. Comecei pelos guias e relatos de viagens. Revivi minha vontade sem tamanho de fazer um ano sabático, tentei planejar rapidamente na minha cabeça. Definitivamente precisaria de mais de um ano.

Quero começar pela costa do Brasil e em Roraima entrar na Venezuela. Ir descendo até a Patagônia. Subir um pouco até Buenos Aires, para reviver a minha primeira aventura sozinha. Ir pelo Rio da Plata até Montevideu. Se possível essa primeira etapa sem voos, tudo por terra. Onde fosse mais conveniente pegaria um avião até Cuba, pois é definitivamente um dos lugares que não posso deixar de ver antes de morrer. Na América Central eu, definitivamente, não saberia o que fazer. Não existe um só país que eu acredito que pode ser deixado para depois. Mas como eu só estava idealizando mesmo, me imaginei em todos eles. Do Panamá a Guatemala, passando por todas as ilhas que fossem possíveis.

México, Estados Unidos e Canadá. Só aí acho que levaria uns seis meses. Da Califórnia a Nova York não tem um estado que eu não me interesse, por exemplo. Dali para a Europa. Comer muito na Itália, comprar nos brechós de Berlim, beber sangrias em Barcelona. Dali pra Ásia, como já teria comido na Itália, rezaria na India, amaria em Bali. Afinal, essa vontade toda começou com o meu livro preferido mesmo. Austrália nunca me atraiu muito, mas pela Nova Zelândia tenho um apreço muito grande desde uma gincana no curso de inglês. Iria para os dois. Depois disso, África. Por último, pois acredito ser o mais difícil. A volta ao mundo, o ano (ou os anos?) sabático. Ah, que sonho. Um dia eu chego lá.

Parei de imaginar quando cheguei nas estantes de moda. Foliei alguns livros – todos muito caros. Olhei um que tinha em casa e ainda não li. Que feio, com um livro na mão e muitos para ler em casa. Continuei. Arquitetura, design, cinema, música, culinária, trabalhos manuais. Livros e livros que eu me interessava. Todos muito longe do que o meu limite no cartão permitiria, anotei todos. Atravessei a passarela que leva ao outro lado da loja. Estante de biografias: sou fã de biografias, anotei muitos títulos também. Dali em diante seguiríamos para psicologia, história, sociologia, filosofia e áreas afins. Suspeito que foi onde fiquei mais tempo. E com certeza foi onde consultei mais preços e anotei mais títulos.

Enfim desci, paguei e quando olhei no relógio percebi que tinha ficado mais de uma hora lá dentro. Queria me tele transportar para um daqueles cafés maravilhosos que visitei na Argentina. Era impossível e ir para algum lugar hypado da cidade não tava em cogitação. Me contentei com o McCafé. Um cappuccino é uma porção de mini donuts, por favor.

Sentei. Novamente famílias, casais apaixonados e amigas risonhas. Um grupo de três senhoras na minha frente conversava sobre os conflitos mundiais. Ao meu lado uma mãe abria o boneco que havia comprado pro filho. Um casal conversava sobre a semana na minha diagonal. E ali fiquei por mais uma hora. Comecei a ler um dos livros que comprei, bebi e comi com calma, combinei com os meus amigos o que faríamos mais tarde e, inclusive, comecei a escrever este texto.

Tomei o ônibus de volta para casa e percebi: tinha ficado na minha própria companhia, num lugar que não é o meu quarto, por mais de três horas. Sabe a quanto tempo eu não fazia isso sem planejar muito? Sem um objetivo bem claro como pagar contas ou comprar algo bem específico? Há quanto tempo eu não saia sozinha por sair? Pra fazer uma coisa simples como almoçar fora num dia que não trabalho? Muito tempo.

É fácil sair para almoçar sozinha no horário determinado do almoço. É fácil ir ao shopping no dia cinco pagar as contas. É fácil ir ao cinema e ficar num lugar que pouca gente vê que você esta efetivamente sozinha. Difícil é botar a cara a tapa num lugar perto da sua casa, onde a possibilidade de encontrar alguém é enorme. É fácil sair na rua toda desarrumada num lugar que ninguém te conhece. Difícil é sair com o cabelo todo errado na sua cidade. É fácil amar a solidão enquanto se descobre novos lugares. Difícil é amar estar sozinha em lugares que já se foi – exaustivamente – acompanhada. Era pra ser só uma fuga de um almoço que eu não queria participar. Acabou sendo uma reflexão sobre o meu passado, o meu presente e o meu futuro.

Cheguei em casa com o nó no cabelo ainda intacto, dois livros, gosto de café na boca e um pouco de calor. Fui recebida pela minha cachorrinha com muitas lambidas, deitei na cama, escrevi isso e concluí: coisa boa quando a gente aprende a amar o nosso cotidiano. Melhor ainda aprender a deixar ele de um jeito que seja possível amar cada detalhe.