Um ano de cara no mundo.

Você já fez alguma coisa que mudou sua vida?

Sacada do primeiro apartamento da viagem. Tudo isso pq o gás do que eu ia ficar vazou. Tem como ser mais sortuda do que isso? Obrigada, universo.

Eu já. Começou lá em junho de 2015, quando eu comprei uma passagem em promoção. Assim, sem companhia, sem ter pedido férias, sem saber se treze dias era muito ou pouco. Minha família achou que eu tava louca, perguntou se eu não ia convidar alguém. Disse que não. Peitei os próximos dez meses até o embarque. Lendo tudo que podia na internet. Decorei o mapa, aprendi sobre a cultura, tentei até estudar espanhol. Repeti sem parar pra mim e pros outros que eu ia sozinha sim!

Fui. Cheguei lá numa terça-feira chuvosa. Fui enrolada pelo taxista. Tinha dado problema no apartamento na noite anterior. Precisei ficar num hostel por duas noites. Chorei a primeira noite inteira. Que ideia louca foi essa? Eu sou fraca, eu nunca vou conseguir. Me desesperei, não sabia o que fazer. Jantei Lays com Fanta. Achei um brasileiro pra conversar na cozinha. Virei uma Taysi introspectiva, não saia o “HOLA QUE TAL” que eu achei que ia ser a frase que eu mais ia falar naqueles dias.

Os dias foram passando. Fui para o apartamento e aceitei a introspecção. Eu tinha alugado o apartamento justamente pra isso. Aliás, eu tinha viajado justamente pra isso. O outdoor luminoso da Coca-Cola iluminava meu quarto de vermelho. A troca de bandeira no Obelisco me acordava. Eu tava lá, sozinha, longe de casa. Talvez não tão longe quanto o esperado para uma viagem que mude a vida de alguém. E esse é o ponto: o que é esperado de alguém?

Sério mesmo. O que esperam de ti? Tu sabe? Tu imagina? Eu sabia, eu tinha certeza. E eu tinha outra certeza: eu não era nada daquilo. Eu demorei anos pra entender quem eu era mesmo e foi em Buenos Aires que o click aconteceu. Tava lá, desde da infância eu era daquele jeito, não do jeito que queriam que eu fosse. Onde foi que eu me perdi? Onde foi o que eu tomei um caminho diferente daquele que era, verdadeiramente, meu. Descobri: na busca por aceitação. Na busca por ser alguém que os outros queriam que eu fosse. Claro, a viagem só começou essa reflexão. Ela anda não acabou, ela é constante em mim. E que bom, né?

Aprendi de uma vez por todas que a vida pode ser linda quando se está sozinha. E aqui a gente ultrapassa aquela ideia de namorado ou algo parecido. A gente pode não querer sair com os amigos também. A gente pode preferir viver um momento só nosso. A gente pode preferir fazer algumas coisas sem ninguém por perto. Compartilhar é muito bom, eu concordo. Mas tem coisas que a gente só absorve sozinho. Eu absorvi Buenos Aires sozinha.

Eu era um imã de senhorinhas argentinas. Brasileiro é imã de brasileiro. Mulher viajando sozinha é imã de mulher viajando sozinha. Sentar num lugar turístico e tentar adivinhar de onde as pessoas são é demais. Ver gente diferente é bom demais. Sair na rua e saber que a possibilidade de encontrar um conhecido é mínima é libertador. Estar exausta no final do dia e comer miojo é muito bom. Ir numa aula de culinária e voltar torta de vinho também. E sabe a coisa que eu aprendi? No fundo, a gente nunca tá sozinho.

Tem uma monte de gente na rua, é verdade. Mas tem aquilo que a gente leva com a gente: a nossa história. Uma risada, uma lembrança, uma música no fone, uma saudade de alguém. Percebi que quando a gente tem uma coisa dessas pra “levar com a gente” a solidão não se torna estado de espírito, ela é só uma condição. Melhor ainda, a solidão se transforma em aventura. Aventura é acordar pra trabalhar cedo, meu querido. Aventura é viver todo dia nesse mundo onde o maior problema é discurso de ódio. Aventura é colocar todas essas dores no bolso e acreditar no que tem de bom nesse mundão. E advinha, no fim é cada um por si. Ou seja: solidão. Melhor transformar ela em aventura mesmo.

Nem todo mundo pode fazer uma viagem que nem eu fiz. Ninguém deveria voltar com a dívidas que eu voltei (que vou terminar de pagar exatamente um ano depois do embarque). Mas a gente tem que permitir as mudanças. Tem que ver onde a gente consegue se encontrar. A gente tem que parar de achar que o mais importante do mundo é o dinheiro, a carreira, o status. Dizer que quer se encontrar não é bobagem. Mudar as prioridades, menos ainda. Olhar a vida de um ângulo diferente. Se colocar no lugar do outro sim, tem empatia sim. Mas se conhecer profundamente para conseguir que isso aconteça de forma mais verdadeira. Te garanto: se torna até mais fácil ser bom com o outro quando tu sabe quem tu é (e o que é bom em ti).

Eu cresci muito nos últimos tempos e posso dizer que hoje faz um ano que isso começou DE VERDADE. Que maravilhoso que ver que a Taysi de agora se conhece muito mais do que aquela que entrou tremendo no avião. Que bom ver que a evolução não parou. Que bom poder ajudar os outros com isso, que bom poder compartilhar com vocês. Que venha a próxima. Dessa vez do outro lado do oceano. Daqui há um tempinho ainda.

Já diria Elizabeth Gilbert, autora do meu livro preferido, inspiração de um futuro distante: attraversiamo!