Um texto equivocado sobre amor.

Depois de ficar conversando contigo o caminho todo de volta pra casa, de ser recepcionada pelo xixi da minha cadela, de te pedir pra ir dormir e de perceber que a minha maquiagem ainda estava em perfeito estado, deitei na cama. Ainda com a roupa que saí de casa – só deixando para trás o salto que eu uso de vez em nunca – e comecei a refletir sobre os próximos passos na minha preparação para dormir.

Já faz alguns dias que um dos infinitos caderninhos que tenho na minha mesa me chama atenção. Toda vez que olho pra mesa ele parece me pedir para ser aberto. Confesso que lembrava que tinha rabiscado nele recentemente, mas não lembrava o que. Abri e vi ali minhas primeiras frases sobre ti. Cheias de medo.

Eu dizia que tu tinha entrado pela fresta, assim como o sol. Sabe quando a gente fecha tudo pra ficar dentro de casa no breu total? Sempre tem uma fresta. E a gente só percebe que ela existe quando o sol começa a entrar por ali. Tu é o sol que entrou pela minha fresta. Mas tu veio com o vento também, abriu a persiana, balançou o vidro. Em pouco tempo o quarto tava todo iluminado, o sono tinha ido embora e eu tava ali só aproveitando o calor que aquilo proporcionava. Acho que eu precisava abrir aquele caderninho, ler coisas que eu escrevi sobre a vida e perceber que o meu bloqueio criativo era por medo deste texto. Por medo de escrever mais um texto de amor equivocado. Pode medo de viver mais um amor equivocado.

Mesmo nesse pouco tempo tu sabe: eu sou uma pessoa muito coração de natureza, mas a vida me tornou racional. E, racionalmente, nos últimos tempos eu não parei pra escrever. Não parei por saber que o que viria seria sobre nós dois, sobre como tu parece ser uma mentira as vezes. Ou sobre como parece que o universo leu tudo aquilo que eu escrevi sobre amor e resolveu colocar no meu caminho alguém pra curar a dor dos textos ruins e mostrar que os desejos dos textos “bons” não eram de outro mundo.

Amor tem que ser leve. Várias pessoas, em vários momentos, diante de várias situações, me disseram isso. Dai aconteceu e eu achei que não podia ser verdade. Achei que era só mais uma daquelas coisas que são fortes pra caralho no começo e depois a gente percebe que foi só uma fase. Pode ser que daqui seis meses esse texto não faça mais nenhum sentido. Pode ser que daqui seis meses a fatura do meu cartão não acuse mais umas corridas caras de um app de mobilidade urbana, por exemplo. Pode ser que daqui seis meses este seja só mais um texto equivocado sobre amor. Mas eu decidi que não vou pensar nisso. É difícil. Me pego abraçada em ti pensando o que eu to fazendo da minha vida. É maravilhoso conseguir viver isso que a gente vive de novo, mas apavora.

Mas tu sabe que apavora.

Tu sabe que tem dias que eu chego em casa depois de te ver me perguntando se é certo viver isso. Tu sabe que as vezes eu to contigo e começo a questionar algumas decisões que eu tomei. Tu sabe que quando eu vou dormir irritada é um mecanismo de defesa. Mas tu sabe que quando eu te olho no olho e falo alguma coisa é verdadeiro. E é por isso que tu sempre diz que me solta. E é por isso que eu sou a tua mina, por tu querer que eu seja a minha mina. E não importa se daqui um tempo eu achar que é isso foi um equívoco.

Não consigo parar de pensar naquela noite equivocada. Tretas que eu não queria encarar, um show que eu não queria ver, num ambiente que eu já não frequentava com a assiduidade de antes – por ser um equívoco me colocar naquela situação. Cometi o equívoco de me afogar na bebida dupla, me indignei com abraços frouxos e me meti numa conversa de gente que falava demais. E como falava. Não parava de falar. Assim, mais ou menos que nem eu. Tive que calar uma boca, aos beijos.

Que bela decisão, nada equivocada.

Uns meses depois tu me disse, na maior cara de pau do mundo, que eu ia escrever este texto. Eu achei que não. Dois dias depois eu escrevi o último texto completo que minha cabeça permitiu. Antes de tu me perguntar “tá e aí, eu te fiz alguma coisa?”.

Fez! Virou minha vida de cabeça pra baixo, entrou pela fresta na hora que eu queria que tudo ficasse escuro e, assim como o sol, não pediu nada em troca. Apenas aceitou o que eu podia dar e tá aqui, bronzeando a minha pele cheia de protetor solar por medo que tu me queime. Por medo que tu seja mais um amor equivocado, mais um torrão dolorido na praia. Eu to aqui, toda cheia de protetor, mas torrando no sol (de bunda pra cima, opa!!!).

Bem, eu tinha medo desse texto. Mas eu sei que ele precisava acontecer para que outros viessem. Assim como eu sei que tu precisava aparecer para que eu me desse conta de algumas coisas. Assim como eu sei que eu precisava ir naquela festa pra calar a tua boca. Assim como eu sei que o Neymar é muito mais legal do que o Messi.

O pagode disse pra gente deixar acontecer naturalmente. E como a gente respeita o pagode, eu quero te dizer outra coisa: nosso caso vai eternizar. Mesmo que seja um equívoco. Mesmo que eu escreva muitos textos meios fracos sobre amor que nem esse. Mesmo que eu acorde um dia achando que tá tudo errado.

Hoje faz todo sentido do mundo caminhar do teu lado e seria um equívoco não viver esse amor. Obrigada por falar demais (mais do que eu).