Livro infantil: fetiche dos designers?

Persiste uma ideia de que livros para crianças seriam mais… “livres”. Por liberdade, entende-se a do designer, que se sentiria autorizado a propor o maior número de ideias não-ortodoxas possível. Não raro a imaginação de pequenos leitores é usada como salvo-conduto para que designers liberem as suas fantasias gráficas latentes. Resumindo: para muita gente, livros para crianças são uma grande brincadeira.

Diversas vezes também me pergunto o quanto essa ideia de “livros para crianças” é capaz de dizer menos sobre os leitores de fato e mais sobre uma idealização do que nós, adultos, fazemos da infância. Não surpreende, portanto, que o campo do design gráfico cristalize algumas ideias a respeito deste público. Tal estereótipo é expresso de forma sutil, por exemplo, na existência de uma categoria chamada “fontes para crianças” em sites de tipografia. Na seleção, é possível encontrar toda a sorte de letras com as seguintes características: “fofinhas”, gordinhas, decoradas. Não é raro também esbarrar com letras que imitam a caligrafia infantil, feitas, é claro, sempre por adultos muito bem treinados.

Será então que fontes como Bodoni, Helvetica e Futura são, em comparação, tipografia para adultos? Então porque será que a fonte usada no memorando do condomínio é sempre a Comic Sans?

Paul Rand
Bruno Munari, ABC [1960]

Um dos aspectos mais angustiantes para quem trabalha com design de livros é obter feedback do trabalho. Não me refiro apenas ao retorno do cliente/editor que faz a encomenda. Alguns podem citar que o número de exemplares vendidos faz parte desse feedback. Sim, de fato, esta é uma preocupação legítima, sobretudo para o “negócio de design” uma vez que a capacidade de desenvolver projetos “vendedores” pode trazer novas demandas, novos projetos. No entanto existem diversos aspectos que escapam à métrica comercial.

Refiro-me à discussão sobre o destino — material e emocional — daquilo que os designers projetam. Em exemplos concretos, o quanto uma sobrecapa que vira cartaz não diz mais sobre quem a projetou do que sobre o projeto em si? Será que aquela brochura com laminação soft touch resistiu ao manuseio na biblioteca pública? E aquele livro com a capa em papel não-revestido que hoje está imunda [e encalhado] na livraria? Questões assim podem mostrar o quanto o mundo real/material pode ser cruel com os designers.


Alguns números nos lembram sobre a responsabilidade e os desafios de projetar um livro infantil. Dados do Ministério da Educação (2015) mostram que 15,5 milhões de crianças frequentam os anos iniciais do ensino fundamental. Destas, apenas 17,5% estão em escolas particulares. Já 10,5 milhões de alunos estão na rede municipal, que tem uma participação de 68% no total de matrículas e concentra 82% dos alunos da rede pública. Em 2016, este percentual deve ter aumentado. Com a crise econômica, estima-se que cerca de 10% dos alunos das escolas particulares foram para as públicas.

Não custa repetir que, seja na rede pública ou particular, bibliotecas tem um papel central na formação de leitores. Saber que a maioria das crianças brasileiras está na escola pública também estoura a bolha de muita gente que acredita que o público leitor infantojuvenil está na livraria climatizada do shopping. O que observo, sem uma bibliografia nas costas, é que a experiência de leitura na infância é por vezes distinta da experiência que temos quando adultos. Basta lembrar de quantas vezes nos contaram histórias em voz alta ou da leitura que fizemos em livros que não eram nossos mas sim emprestados das bibliotecas. Quando projetamos um livro para crianças será que levamos em conta que trata-se de objeto que é mais coletivo que individual?


Um projeto, quatro livros

Em 2016, tive a chance de desenhar um novo projeto para a coleção de fábulas de Rubem Alves, publicada pela FTD. O projeto, liderado pela editora Isabel Lopes Coelho com ilustrações da Veridiana Scapelli, foi um encontro triplamente feliz. Gosto muito deste projeto pois acredito que ele leva em conta algumas das preocupações que enumerei acima.

Desde o começo sabíamos que a ilustração teria um papel importante no livro. Após a leitura do texto, a primeira decisão foi quanto ao estilo das ilustrações. A narrativa chamava por um caminho figurativo que desse conta de ilustrar a riqueza de detalhes do autor. Os quatro volumes da série seriam lançados juntos e era preciso, portanto, diferenciá-los. Desde o começo uma limitação foi auto-imposta: o uso reduzido de cores. Acredito que restrições são importantes—é preciso entender que os recursos são limitados—e no caso da coleção, a paleta cromática reduzida ajudou a pensar cada livro como parte de um sistema.

Paleta cromática: 2 pantones [e a sobreposição] + preto

O contraste entre o preenchimento colorido e as linhas do desenho em preto deveria ser acompanhado pela tipografia. A tipografia é para leitores, não para crianças! Era importantíssimo que ela dialogasse com o desenho, complementando-o. Peso e contraste guiaram esta escolha:

Além disso, foi uma escolha que a tipografia tivesse a função de identificar a coleção. Na capa, ela tem tanto protagonismo quanto a ilustração formando uma espécie de selo. Para dar conta desse desafio [que foi seguido nas páginas internas] escolhi a Julien, fonte desenhada Peter Bilak, distribuída pela Typotheque. Baseada nas três formas geométricas elementares, a fonte é inspirada nos movimentos de vanguarda do começo do século XX. Para cada caractere, uma série de variantes, onde letras maiúsculas e minúsculas são misturadas. Já para o texto, Bodoni Twelve, distribuída pela Linotype.

Julien, Peter Bilak [2011–2012]: nem todos os caracteres foram usados para facilitar a leitura dos jovens leitores
Detalhe texto de abertura do livro “A libélula e a tartaruga”, Rubem Alves. FTD: 2016.

As margens guiavam o fluxo do texto, sempre alinhado às margens superiores ou inferiores. A posição pode variar em cada dupla.

Quem disse que livro ilustrado não tem grid?
Capa 4 livros Coleção Rubem Alves. [foto: Nino Andrés]

Quando ainda estava na faculdade de design, lembro de um texto do próprio Rubem Alves que falava sobre a necessidade de “desaprender”. Ele dava o exemplo do koan, um artifício pedagógico dos mestres Zen, uma espécie de “rasteira” aplicada na linguagem dos discípulos. Rubem dizia que “é preciso cair nas rachaduras dos próprios saberes”.

É urgente que designers estejam prontos para abrir mão de seus desejos, aspirações e ideias pré-concebidas e entendam de uma vez por todas que o compromisso de um projeto envolve outras pessoas: o leitor é um deles.