TypeTiles:

do chumbo ao pixel e de volta ao chumbo

Um projeto de Heloisa Etelvina, Marina Chaccur e Tereza Bettinardi


(English version here)

Desde que estudava Belas Artes em Belo Horizonte, Heloisa coleciona ornamentos tipográficos. Quando se mudou para São Paulo, uma de suas grandes preocupações na nova casa era se a estrutura do prédio era capaz de sustentar o seu pequeno (e pesado) ateliê tipográfico. É o mesmo apartamento no 6º andar que foi o nosso local de trabalho por 2 anos, tanto na fase de planejamento como de produção das duas edições dos TypeTiles.

Azeite de Leos com Heloísa Etelvina em seu ateliê em 2010

Em 2013, enquanto testávamos um formato para um workshop, a semente do projeto estava sendo plantada. Mas naquele momento, a ideia era apenas brincar com montagem de padrões — sem formato definido, sem tema e uma única condição: nada de letras.

Workshop em 2013: inspiração na calçada de Belo Horizonte (acima) e o resultado composto em ornamentos tipográficos (abaixo): matriz em chumbo e impressão

Os resultados daquela tarde somados à possibilidade de participar da Feira Plana no próximo ano nos animaram a continuar esta investigação, agora de forma mais estruturada. Uma visita a uma fábrica de ladrilhos hidráulicos e muitas fotos de pisos e azulejos fizeram parte da pesquisa e, não demorou muito para que a ideia de montar “azulejos tipográficos” e publicá-los em um livro ganhou força e até um nome: TypeTiles.

Primeiros testes de composição: a referência do piso em Mendoza, Argentina (acima); tradução em ornamentos: a matriz em chumbo (abaixo, esquerda) e a impressão (abaixo, direita)

O primeiro passo foi definir uma fórmula para o livro: 12 azulejos de 9x9cm, impressos em uma cor no papel paraná revestido. Cada azulejo foi montado majoritariamente com ornamentos de 12pt, formando uma grade composta por 20x20 ornamentos. Além disso, também contamos com ornamentos múltiplos de 12–6, 24 e 48 pt.

O processo de desenvolvimento das composições contou com muitos testes, desmanches e remontagens. As montagens demoravam muito tempo, e em alguns casos era comum (e levemente desesperador) desmontar a composição depois da primeira prova no prelo pois o resultado final não agradara. Até que em um certo momento, já com alguns azulejos montados, percebemos que era possível categorizá-los em quatro tipos: 1) estampas corridas; 2) foco em um elemento central; 3) diagonais marcadas e 4) “cantos”, ou seja, composições simétricas em apenas uma diagonal. Esta “descoberta” no meio do processo nos forçou a preencher as lacunas do projeto e definimos então que cada categoria deveria conter 3 composições.

Processo de trabalho TypeTiles, 2013

Faltando poucos azulejos para serem montados, um novo desafio: as gavetas de ornamentos, que antes pareciam infinitas, chegaram ao limite. Era preciso então fazer adaptações nos padrões novos e nos já montados: às vezes utilizando espaços em branco ou utilizando ornamentos antes “relegados”. O que no começo pareceu um problema, foi se mostrando um excelente modo para desenvolver composições mais complexas.

A utilização de “brancos” resolveu a escassez de ornamentos e ainda tornou as composições mais interessantes

A Feira Plana é a maior feira de publicações independentes do Brasil. Durante dois dias, o Museu da Imagem e do Som em São Paulo é invadido por um público de mais de 9 mil pessoas que prestigiam uma média de 120 expositores de todo o país.

Nossa participação foi totalmente voltada ao projeto do TypeTiles, e era necessário diversificar as aplicações das matrizes para termos uma linha de produtos que pudesse comportar uma faixa ampla de preços. O principal produto era, sem dúvida, o livro. A ideia era fazer um livro robusto, um pequeno bloco sólido. O corte colorido tinha a dupla função de reforçar o aspecto tridimensional do objeto e disfarçar as irregularidades do papel.

Já na montagem dos padrões, veio a ideia do primeiro subproduto deste processo: um segundo livro, feito com a impressão do verso das matrizes.

Capas livros TypeTiles #1
Livros TypeTiles #1: 12 azulejos compostos e impressos
Livros TypeTiles #1: 12 “versos” impressos dos azulejos compostos

O outro produto era o kit de 4 azulejos, onde partimos para utilização de cores. Alguns deles não passavam pelo rigorosíssimo controle de qualidade de três designers obsessivas, logo recebiam novas intervenções impressas para testar possibilidades de sobreposição de desenhos e acabaram sendo vendidos como “peças únicas”, pois realmente não havia um igual ao outro.

As opções de azulejos “cantos” repetidos formando padrões
Um dos “cantos” repetido em diferentes cores (esquerda) e outro “canto” com sobreposição de impressão de outros azulejos (direita)

Já os cartazes foram a forma que encontramos de ter em uma única folha impressa todos os azulejos. Assim como os livros, fizemos a versão das frentes e dos versos. Ele além de ser a síntese do projeto, apresentando todas as composições em uma única folha, também era o produto com valor mais acessível.

Matriz com tinta, pronta para impressão do cartaz com os 12 azulejos
Montagem da matriz para impressão do cartaz com os versos dos 12 azulejos
Produtos TypeTiles na Feira Plana de 2014 no MIS em São Paulo

Mas talvez um dos “produtos” intangíveis dos TypeTiles foi a divulgação da impressão tipográfica. Não raro, o público olhava surpreso — e maravilhado — a matriz de uma das composições que deixamos sobre a nossa mesa durante a feira. Apresentada como uma jóia, a matriz tipográfica passava pelas mãos de gente que nunca teve contato algum com tipos de chumbo.

Molduras feitas pela Moldura Minuto da Vila São Francisco em São Paulo

TypeTiles #2

Planejamento era essencial para ganharmos tempo na montagem, mas sobretudo para conseguir melhores resultados formais com rapidez, sem ter que desmanchar e refazer as composições diversas vezes. Iniciamos os estudos com rascunhos sobre papel quadriculado. Para esta segunda edição dos TypeTiles ficou acertado que cada uma seria responsável pela criação de 4 azulejos. Desta vez todos deveriam ser “cantos” para gerar um número maior de combinações — seja dentro do seu próprio conjunto ou em possível combinação com outros. Para conseguir tal efeito, seriam colocados “conectores” nas mesmas posições em todas as matrizes. Esta solução foi inspirada em resultados da pesquisa de mestrado da Marina, sobre ornamentos tipográficos, no MA Graphic Design (LCC) em 2005. Tinhamos finalmente um sistema!

Com essas diretrizes definidas, alguns esboços no papel quadriculado, passamos então para o Illustrator, utilizando cores e tons de cinza para representar os diferentes ornamentos. Não demorou muito para percebermos que era necessário gerar uma simulação mais próxima do resultado final.

Estudos de composições no Adobe Illustrator

Para ajudar neste processo, a experiência com programação Python que Marina adquiriu no MA Type&Media (KABK), foi suficiente para criar um código onde era possível fazer poucas alterações para testar os layouts e seus potenciais de multiplicação. E assim eliminamos as etapas de fazer infinitas montagens, provas de prelo, escaneamento e multiplicação no Photoshop, nos possibilitando focar no aprimoramento do desenho.

Cada tipo de ornamento disponível foi escaneado e a este era atribuído um número. Foi feita uma base com a grade de 20x20 unidades e bastava atribuir o número a cada posição para que o ornamento aparecesse no local indicado. Caso quiséssemos trocar de ornamento mantendo o layout, era apenas atribuir este número a outro desenho. Em um curto espaço de tempo era possível, finalmente, testar as composições com diferentes ornamentos.

Programação em Python no Drawbot
Testes de padrões gerados em Python no Drawbot e teste de sobreposição com aplicação de cor no Adobe Photoshop

A montagem das matrizes foi feita em 3 distintos momentos, respeitando o ritmo de cada designer. Com os testes no Python, depois de definido o desenho, o resultado da programação serviu como guia para a composição com os tipos de chumbo.

Mas mesmo com todo o planejamento, ainda tivemos que lidar com a escassez de certos ornamentos. Até por este motivo, outra restrição foi estabelecida para o projeto: os ornamentos em maior quantidade deveriam ser utilizados em todos os azulejos/ conjuntos. Assim, inevitavelmente, os desenho iniciais sofreram diversas adaptações ao longo do processo: seja no desenho no papel ou no Python, mas principalmente na montagem.

Exemplos de processo de desenvolvimento dos azulejos: rascunho/ vetor, teste gerado por Python e a impressão do resultado da composição em tipos de chumbo

A otimização não se limitou apenas ao desenho, mas também à impressão. A ideia de usar a mesma rama para imprimir todos os produtos — livros, azulejos, cartazes — nos levou ao formato do livro #2: uma única folha impressa, com cortes e vincos. Quanto aos kits, mais uma chance de testar cores e possibilidades de sobreposição.

Livro/cartaz/azulejos TypeTiles # 2 Foto: Ricardo Toscani
Imagens dos azulejos com 2 ou 3 cores em impressões sobrepostas

Para aumentar a escala, era preciso sair do prelo manual da Heloisa. E foi assim que 18kg de chumbo foram transportados de São Paulo a Belo Horizonte, direto para o Mercado Novo, mais especificamente, a gráfica de Bento. Lá que ele e seu filho imprimiram os livros, azulejos e capas de cadernos.

Impressão do TypeTiles #2 em Belo Horizonte. Gráfica do Bento (esquerda) e Rafael Neder montando a rama do cartaz (direita)

Para a impressão dos cartazes, contamos com a larga experiência do mestre Matias e do Rafael Neder. Uma tarde com muita conversa e mais diversão. Os cartazes foram posteriormente finalizados com uma última impressão onde toda esta saga começou: no ateliê tipográfico da Heloisa, em São Paulo, onde letras e símbolos foram incluídos na composição. Os resultados foram apresentados na última Feira Plana.

TypeTiles na Feira Plana 2015 no MIS em São Paulo

Um longo projeto experimental

O termo “experimental” é normalmente utilizado por designers gráficos para definir uma categoria de trabalhos auto-iniciados “sem restrições”. No entanto, a experiência com os TypeTiles mostrou o contrário: quando as restrições não eram auto-impostas, elas simplesmente se impunham pelas circunstâncias. Parte disso graças à própria natureza da composição tipográfica em metal, onde o espaço de cada peça faz parte de uma grade fixa, exigindo muita organização e planejamento.

Além disso, apesar do boom da impressão tipográfica ter se intensificado nos últimos anos, os ornamentos ainda parecem ser um pouco negligenciados, às vezes de forma cruel, sendo os primeiros a serem vendidos por peso para serem derretidos. Esperamos que esta pesquisa tenha contribuído, de alguma forma, para apresentar novas possibilidades de uso dos ornamentos.


Estamos em busca de parceiros para transformar os TypeTiles em azulejos de verdade (e outros produtos também, várias possibilidades)! Se você se interessou pelo projeto, escreva pra gente: typetiles@gmail.com