Confirmando clichês

Não é fácil confirmar clichês.
Confirmamos clichês quando uma cena dramática e óbvia de um filme nos emociona, quando passamos manteiga em um pão, quando trabalhamos em prol de um projeto de vida, quando bebemos para esquecer. O clichê existe pra todo mundo e, apesar de toda fuga, nós existimos pra ele. Nós dormimos sobre clichês, escovamos os dentes com clichês e moramos, nos trancafiamos neles. O clichê é um abstrato muito temido, porque é concreto demais, está por toda parte.
Quando a realidade nos salta aos olhos e nos vemos cercados de clichês, às vezes nos desesperamos, porque, de certa forma, nos despedimos de certezas que nos eram muito reais, exclusivas, seguras e diferentes daquilo que costuma estar à venda. Temos esse hábito incorrigível de achar que somos muito especiais e únicos. As nossas relações são uma extensão disso: não conseguimos acreditar na fragilidade dos laços que criamos com as pessoas, porque os consideramos inquebráveis, únicos. Mas nós e os outros seguimos sendo pessoas e mãos amigas ou amantes nem sempre duram uma existência. Outro clichê.
Acontece que confirmando clichês percebemos, por exemplo, que, por mais previsíveis que os pores-do-sol sejam, são sempre diferentes. Às vezes gritam e às vezes silenciam.
Basta olhar para cima.