Do dia que a gente comeu pipoca no jantar

Acho que era uma segunda-feira chata. A maioria das segundas-feira que eu me lembro são chatas e eu acredito que isso seja algum tipo de padrão do universo. Eu cheguei do trabalho para me esparramar no sofá e esquecer aqueles tipos de coisa que, bom, normalmente a gente quer esquecer mesmo. A Taynara já estava lá, também lutando pra esquecer das coisas que a gente sempre quer esquecer mas que, como o mundo não é esse carrossel maravilhoso em que a gente dá voltas e voltas dando risada, a gente nem consegue realmente esquecer. Na verdade é mais parecido com aqueles carrosséis de parque velho, que a gente dá voltas segurando a ânsia e o embrulho no estômago enquanto amaldiçoa quem teve a ideia de te colocar nesse negócio. Bom, a gente conseguia esquecer, eu e ela. A gente sempre conseguiu. Mas só quando juntos. Era isso que a gente fazia: contava os minutos das segundas-feira chatas pra chegar em casa, se amar vendo alguma besteira na TV, engordar juntos e esquecer.

Tinha jogo do Santos naquela segunda-feira chata e a gente assistiu. Mas eu citei antes algo sobre engordar, certo? Tem uma coisa que eu preciso dizer: a Taynara tem um certo amor incompreensível e platônico por pipoca. Eu entendo, sabe? Pipoca. Pipoca é legal e todo mundo gosta de pipoca. Mas com ela é diferente, porque qualquer motivo é motivo de pipoca. Jogo de futebol sempre foi motivo de pipoca. Quando a gente passa próximo de um cinema pelo shopping, não demora muito para eu olhar pra ela e ela estar com cara de pipoca. A cara de pipoca dela mistura certas nuances de emoções. Se você se der ao trabalho de tentar decifrar, com certeza você vai enxergar algumas delas. Eu tinha mais facilidade pois, convenhamos, são quase 5 anos juntos. Eu sou basicamente bacharel em Taynara. Começava com uma excitação rápida e uma surpresa vinculada ao lembrar que pipoca existe e que pipoca é maravilhoso. Que além da existência simples da pipoca, algum ser humano incrível inventou a manteiga, da qual é propagada em grande escala principalmente em Cinemas onde, pasmem, nós estamos perto. A excitação trabalha biologicamente ativando o estômago que manda um sinal (normalmente falso) de fome para o cérebro. Esse sinal comumente desperta um sentimento de imediatismo, que desencadeia uma sensação que eu chamo de “Loucura Alimentícia” onde tudo que o ser consegue pensar é PRECISO DE PIPOCA AGORA. Esse imediatismo, por sua vez, causa um sentimento de culpa, já que pipoca não é o alimento mais saudável do mundo. Acredito que pipoca não seja um prato que é incluso em muitas dietas por aí, daquelas malucas que as pessoas fazem dia-a-dia. A culpa normalmente é bem forte. Mas o poder da pipoca, esse aí costuma ser monstruoso, eu diria. Eu normalmente não deixo ela comprar pipoca. Mas tão bonitinha cara de pipoca. Enfim. Será que isso acontece com algum outro tipo de comida? Será que alguém no mundo caça motivos aleatórios como desculpa para, sei lá, comer pepino? Ou talvez ovo de codorna. Bom, não sei. A Taynara gostava de pipoca.

A gente comeu pipoca e assistiu o jogo. Provavelmente o Santos perdeu. A Anakin pulou no sofá pra pedir carinho e lamber minha mão. A Anakin é uma coelha, só pra deixar claro. A Taynara não gostava muito de animais. Já eu me transformo em um ser esquisito quando estou na presença de qualquer tipo de bicho. A gente tem uma mini coelha, que nessa época tava fazendo cocô igual bolinha nescau flakes na casa inteira, e duas calopsitas que ficam na sala, normalmente gritando e assoviando pra chamar a atenção. Eu não sei o que deu na Taynara. Eu sempre quis algum bichinho, qualquer que fosse. Mesmo assim a ideia de ter um animal, ou três, foi basicamente toda dela. Bem na verdade, eu que não concordei logo de cara. A gente cresce e recebe responsabilidades e acaba pensando bem antes de adquirir qualquer outra nova. Por conta disso eu fui cirúrgico: Pesei os prós e contras direitinho. Mas todos os contras caíram por terra quando eu olhei pros bichinhos e a única coisa que pensei foi algo como “AI MEU DEUS DO CÉU QUE COISA LINDA”. Eu não me orgulho disso. Mas ser o consciente quando se tratava de ter animais em casa, sendo casado com a Taynara? Foi diferente. É muito louco esse negócio de viver junto. A gente se mistura e se complementa e quando vê, a gente é muito mais do outro do que achava que era. Gosto de pensar que ela mudou nisso por minha culpa. Isso porque eu acho que gostar de animais é uma coisa legal. Não que ela não gostasse antes, sabe? Gostava, mas não no nível idiota que eu gosto. Eu sou hoje muita coisa por culpa da Taynara, então esses indícios ativam meu córtex cerebral a pensar que qualquer coisa legal e nova que eu vejo nela pode ser, talvez, mas assim bem talvez mesmo, culpa minha. Quem sabe nem inteiramente, mas só um pouquinho? Um pouquinho só.

Deitamos. Depois de tomar banho, é claro. Deitamos cheirosos porque cheiro também é importante. Assistimos algum desenho bobo da Netflix, ficamos de conchinha por alguns minutos, trocamos alguns quarenta e cinco beijos de boa noite e tentamos dormir. Não dormimos.

Eu sempre ouvi dizer que o primeiro ano de casamento é difícil. Eu não entendia muito bem o porquê, mas concordava com a cabeça. Normalmente não é muito bom contrariar quem tenta dar conselhos, ainda mais se foi um conselho que você não pediu. Então minha resposta padrão é balançar a cabeça positivamente evitando a fadiga. A gente perdeu o sono, sim. Sabe aquelas coisas que a gente tenta esquecer e não esquece? Eu acho que cada um tem uma imagem diferente na cabeça ao pensar nisso. Tem um quê de angustia em tentar dormir e não conseguir. Em tentar se distrair e não funcionar. Tem coisa que sufoca a nossa garganta e aperta nosso peito e deixa a gente se sentir impotente. Eu sentia e ela também. A gente tava se afogando em horário comercial e nossa única boia era se abraçar depois das 18h.

Será que a vida tem um jeito doido de equilibrar as coisas? Tipo. Você encontra R$ 20,00 no bolso de uma calça que não usa faz tempo, mas no mesmo dia dá com o mindinho na quina. Ganha uma folguinha de tarde em plena sexta-feira mas antes de terminar o banho o chuveiro queima. Como se fosse uma peripécia do destino, ou um experimento intergalático sobre como a gente reage a situações aleatórias. Entende? Nossa vida casado era tão legal que isso fez com que as obrigações engolissem a gente, fazendo a gente ficar meio pinel da cabeça em horário comercial. Se bem que não é justo culpar a vida, que a gente nem sabe o que é direito, por conta de uma sociedade que a gente criou, cujo principal objetivo é correr atrás de dinheiro e reconhecimento só pra depois conseguir mais responsabilidades e a oportunidade de ganhar mais dinheiro e reconhecimento. Um loop eterno, até que um dia a gente perceba que nunca será o bastante? Sei lá. Dinheiro é legal também. Com dinheiro a gente pode comprar pipoca, por exemplo.

A gente conversou, deu risada, se abraçou. E falou besteira, que digamos seja uma das nossas especialidades. Sabe no Titanic que a Rose em vez de puxar o Jack pra cima da porta flutuante que ela está, deixa ele lá congelando até a morte? Bom, a gente se puxou pra cima e ficou ali, flutuando até achar a terra firme. Dormimos. No outro dia, a famigerada terça-feira sem graça, eu ainda estava flutuando por causa da Taynara. Acho que eu nunca vou esquecer aquele dia em que a gente, sem querer, jantou pipoca.