acadêmicos e jornalistas

eu queria falar algo rapidinho sobre academia e imprensa.


começando do começo, e de modo bem simplificado, a academia organiza e estabiliza o conhecimento no longo termo. é o que a gente chama de ciência.

a imprensa registra e organiza a informação do agora. numa sociedade fundada sobre a cultura e a razão, o acesso ao conhecimento e a ação por ele orientada são pontos essenciais à autonomia individual e à construção social, coletiva. por isso a liberdade de imprensa é tão associada à ideia de uma sociedade livre, a democracias e tal.

a academia e a imprensa são instituições que curtem uma tabelinha. o conhecimento de longo prazo organizado pela academia ajuda a imprensa a articular um sentido na sua organização dos registros do presente; e o agora registrado pela imprensa ajuda a academia a colocar em perspectiva o conhecimento científico.


li algumas notícias sobre acadêmicos se posicionando de maneira incisiva contra a imprensa nestes dias. a história seria a seguinte: representantes de um grupo jornalístico contataram acadêmicos e os convidaram a participar de debates; numa tomada de posição crítica, os acadêmicos disseram não à proposta e publicaram na web os registros do convite e sua negativa.

é uma opinião razoável sugerir que os acadêmicos fizessem uso de outra tática: que fossem à tv e falassem na lata as coisas que pensam. afinal, um programa de televisão é um dispositivo narrativo bem mais sofisticado que um print de internet.

agora, tem um outro ponto, algo que me faz entender a opção pela negativa ao convite da tv. é um recado que seria mais ou menos o seguinte: quando acadêmicos se recusam a atuar na interface histórica entre academia e imprensa, o funcionamento da imprensa teria chegado a um ponto de derretimento meio sério, e a coisa estaria emperrando a relação de gestão da cultura articulada entre as duas instituições.

dito isso, e sendo mesmo este o caso, seria uma boa para a academia refletir sobre os métodos escolhidos para um endurecimento no posicionamento crítico em relação à imprensa. porque, bom, expor trabalhadores de imprensa é algo que pode abrir margem a equívocos, e ser só contraproducente. ao contrário da academia, onde o quebra pau no campo comum é (nas condições esperadas) de acadêmico para acadêmico, na relação entre academia e imprensa é possível que o corpo a corpo seja entre acadêmico e algum assalariado de grupo jornalístico que não tem nada a ver com a grande história.

o que, claro, fica longe, bem longe mesmo, de isentar a imprensa de botar a bola no chão. e de pensar a sério sobre os motivos pelos quais sua grande camarada de construção civilizatória andaria evitando o mesmo rolê.