26.7.2017, 19h38

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Jul 27, 2017 · 1 min read

minha mãe me ensinou a olhar pelas janelas das outras casas. lâmpadas amarelas indicam crianças de pijama depois da janta vendo desenho só até a hora de dormir.

na janela da frente, no andar de baixo, tem uma senhora. ela está sentada encurvada diante de uma máquina de fiar.

tá, um computador. mas daqueles com monitor quadrado, preto.

a lâmpada na escrivaninha é amarela, mas de um amarelo escuro. com a luz azulada da tela o rosto dela fica quase imperceptivelmente verde. há um tapete sob a mesa de centro com flores secas e um cinzeiro, um sofá pequeno e uma televisão muito mais nova do que todo o resto.

os dedos hábeis passeiam pela máquina. move os antebraços e as mãos. o tronco curvo não, apenas balança de leve; árvore na brisa. vejo metade do seu rosto. a expressão não muda: apenas os olhos passeiam discretamente pelo centro da tela. toda ela uma única tarefa.

não há crianças. penso na minha mãe.

mas nada garante que ela não seja feliz, deixo escapar em voz alta. um carro passa na quadra de trás.

a senhora vira a cabeça e me olha. demoro dois segundos inteiros para perceber que preciso sorrir. ela acena com a cabeça e fecha a cortina.

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    é tudo uma grande alusão.