Deixa eu usar meu privilégio branco aqui rapidinho

Pode turbante? Claro que pode.

Mas só pode porque os negros reconquistaram esse espaço. Não sei se vocês sabem, mas nossos ancestrais brancos proibiram o turbante, junto com toda(s) a(s) cultura(s) do(s) povo(s) trazido(s) pra servir aqui.

Tenho um amigo homem que não tira a camisa em público porque ele sabe que há quem não possa fazer isso. Daí quando alguém pergunta por que ele não tira a camisa nesse calor, ele responde falando da opressão sofrida pelas amigas dele. Tem gente que diria que ele quer ganhar biscoito. Eu acho que independentemente de ele parecer mais gostável por falar disso (que bom se sim, não é?), ele tá usando o privilégio dele de um jeito construtivo.

Nem ele nem eu precisamos de biscoitos, porque nossos ancestrais roubaram um estoque de biscoito que vai durar ainda várias gerações. Mas ainda assim eu queria usar este espaço pra contar pros brancos aqui que eu sempre quis fazer dreads. Primeiro porque é muito lindo mesmo, e segundo porque eu achava que usar algo em mim só podia significar meu apoio ao lugar de onde isso vinha.

Só que antes que eu pudesse fazer começou a rolar o papo da apropriação cultural, e me bateu uma dúvida sobre o meu direito àquilo. Por mais que eu soubesse que no meu coração eu estava declarando apoio a uma estética, de fato eu não tinha como impedir que pessoas na rua achassem que eu estava simplesmente me apropriando sem pensar de um símbolo de uma cultura da qual sei quase nada.

Decidi sair da internet e ir pro mundo real e comecei a perguntar pros amigos a respeito. Todo mundo me disse que era bobagem, que globalização, que pós-verdade, que o errado é as empresas usarem modelos brancas, etc. Só que os meus amigos, com quem eu divido minhas angústias, são, por força histórica, (quase) todos brancos.

Aí um dia eu tive a oportunidade de perguntar pra colega de apê de uma amiga, negra, como ela se sentia a respeito. E ela me disse que ver brancos de dreads na rua era frustrante, porque o que num branco parece descolado, nos negros ainda é visto como ruim e sujo. Ela disse que cada vez que via um símbolo da sua dilacerada cultura sendo “melhor” usado por alguém branco, sentia de novo e de novo a inadequação dentro da própria pele com a qual cresceu.

Daí eu simplesmente perdi a vontade de fazer. Se eu poderia estar causando sofrimento a pessoas com sofrimentos históricos tão profundos só por andar na rua, prefiro não.

O mundo pode ser globalizado mas a gente continua tendo privilégio branco. E abrir mão do privilégio passa justamente por não fazer tudo o que a gente pode só porque pode.