hábitos urbanos

a gente não aprende na escola, mas deveria, que o bairro da cidade baixa, em porto alegre, com sua tradição de bares e festa, era um bairro de quilombos, cuja população foi deslocada para a restinga há irrisórios 40 anos. dá pra imaginar? bairros inteiros de pessoas, com velhos e crianças e cachorros e algum eletrodoméstico que só vai terminar de ser pago no ano seguinte, esses bairros foram e são e serão deslocados pelo governo de uma área para a outra pelos mais variados motivos. em geral o motivo é sempre o mesmo, que é que essas pessoas têm pouco dinheiro e melanina demais pra estarem morando no local em questão. bairros inteiros são deslocados para locais onde não há saneamento nem eletricidade, enquanto na praia os terrenos já são vendidos com a estrutura prontinha, porque se for pra vender o terreno sempre vai ter alguém com grana pra investir.

esse contraste se debatia com fúria em redemoinho quando ele colocou a mão na parte de trás do pescoço dela, na esquina da josé do patrocínio com a república.

‘não tem como andar aqui e não tomar uma ceva. pilha?’

ele tem as mãos suadas. voltando a atenção para ele, ela suspira constatando a própria sorte com uma melancolia que muitos psiquiatras concordariam em diagnosticar como depressão crônica. é fato, quando pensamentos sobre coisas que não dizem respeito às nossas próprias vidas nos deixam melancólicos apesar de as nossas vidas estarem muito bem obrigada, eles chamam de depressão. e a correlação entre depressão e alcoolismo, inclusive, é bem conhecida dos psiquiatras.

‘sempre, beibe.’

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