Por que ‘feministo’ dá raivinha

Uma análise social pessoal e intransferível

Catei na internet, não lembro onde. Malz. Mas que nariz, hein.

Tomando café da manhã, preparado por ele enquanto ela tomava banho para ir para o escritório, o casalzinho confessou mutuamente o desejo oculto de serem, os dois, “esposinhas”.

Explico:

Cada um deles acha que seria feliz se passasse os dias limpando e cozinhando e lendo e criando, sem precisar se preocupar com fazer dinheiro (talvez se preocupando em economizá-lo e fazê-lo render; o que, em si, pode ser um lindo exercício de criatividade).

Ele sente algo parecido com o que sentiria em relação a ser jogador de futebol, algo nas linhas de “é estatisticamente improvável, mas seria legal mesmo, hein, poder fazer o que se gosta”. Já ela acha que deveria querer algo mais dinâmico, mais out there, porque esse espaço lhe foi negado por séculos. Acha que deveria estar sonhando em ser cientista, engenheira, provedora. Não importa que agora trabalhar fora é que seja a norma, principalmente por razões econômicas (ao contrário do que diz o presidento). Não importa acreditar que o que importa é que a mulher (e qualquer pessoa) escolha o que quiser para si, inclusive a economia doméstica, independente do que a sociedade dite para ela. Ao sonhar com esse papel social, mesmo com a certeza da impossibilidade material de realizá-lo, ela se sente como o escravizado que fica amigo do senhor. Ou seja, uma tosca.

Ele sabe que seu desejo íntimo, ainda que irrealizável, desafia a norma, e isso o deixa razoavelmente contente consigo.

Para ele, emascular-se já não é um problema. Para ela, ainda é.

Não importa o fato de que os enxovais de bebê dos dois tenham sido predominantemente na cor verde, ela ainda precisa negociar dentro de si a legitimidade dos impulsos “femininos”, enquanto ele pode ostentá-los perante sua própria consciência desconstruída com orgulho.

E isso, somado a todas as contradições opressivas do sistema social vigente, dá nos nervos.

Não é culpa de ninguém. Mas existe.