Romances

Percebe que não leu o que acabou de ler e volta para o início do parágrafo. Também, pudera. Como não se distrair quando ele acabou de usar o nome da outra?

Desculpa, desculpa. Lembra do budismo.

Ele ria nervoso, com a cara enfiada nos cabelos dela, sacudindo o peso solto. Esmagada, com a bochecha na página do livro aberto no travesseiro, ela riu, neurônios-espelho funcionam assim. O budismo também. Tem um riso por trás de saber que o sofrimento não precisa ser, necessariamente.

A menção do budismo disparou internamente o discurso apaziguador. Sabe que é a gente que cria os significados atrelados aos acontecimentos. Sabe que há sempre a liberdade de não aprisionar-se ao sofrimento. Sabe que não foi de propósito.

Mas não é sobre isso.

Foi socializada para encontrar o seu entre os erros do mundo. Investiga a origem psicológica da troca. Pensa nas semelhanças que acha que conhece entre si e a dona do outro nome. A frase ecoa como se tivesse um delay eterno, e com essa trilha sonora voltam em rajadas os acontecimentos do dia, as pequenas implicâncias, a sutileza dos olhares discordantes, uma mente com trabalho demais e a outra com trabalho de menos, abstinência de nicotina e um celular.

Sabe que tem o poder de dar a esse episódio o caráter interminável e decisivo que as narrativas do senso comum dariam, e sente o coração entortar de tentação e de desprezo por si mesma.

Percebe que, de novo, não leu o que acabou de ler. Volta para o início do parágrafo.

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