Sobre gênios, amantes e as exigências que fazemos

*Este texto é uma tradução deste aqui.*

“É dolorido, eu acho, quando te dizem: ‘você encantou meu mundo e me fez sentir coisas que eu não achava possíveis, mas agora por favor se comporte no jantar’. Claro, estamos sempre dizendo isso para as pessoas, de um jeito ou de outro; talvez a gente precise fazê-lo.”

Brian Phillips em “Run to the Devil: The Ghosts and Grace of Nina Simone

Desde que me deparei com essa citação eu a tenho repetido na minha cabeça, apertando-a de um lado e do outro como que massageando um músculo tenso. Em uma obra cheia de observações espertas e epifânicas, essa citação em particular me assombrou porque captura algo de como misturamos o amor, a fascinação e o senso de merecimento — uma mistura ao mesmo tempo inerentemente humana, terrivelmente compreensível e supremamente fodida e trágica. E é um assunto que permeia tantas facetas diferentes das nossas vidas.

Isso é certamente verdade para como nos relacionamos com as pessoas que achamos mais inspiradoras, como Brian Phillips diz falando da Nina Simone. Não é suficiente que tenhamos sido tocados pela genialidade, insistimos que nossos gênios sejam agradáveis. Se olharmos para as reclamações que fazemos das pessoas que em tese admiramos, ficam claras as nossas expectativas.

Dizemos aos músicos: “você articulou sentimentos que eu achei que eram só meus; você me fez sentir um pouco menos sozinho; você pôs mais cores no mundo, tornou a coisa visível e vívida — como assim você não vai lançar um álbum por ano?”

Dizemos aos atletas: “quero que você desafie tudo o que eu sabia que o corpo humano era capaz, que você desafie as leis da física e a gravidade, que você me faça sentir orgulho desse lugar, dessa cidade, desse país — mas por favor seja humilde.”

Sabemos que não é um pedido justo. Sabemos que é um pedido que não faríamos a nós mesmos. Mas isso não nos impede de fazer essa imposição às pessoas que dizemos que mais amamos no mundo.

Dizemos às pessoas que amamos: “você me acordou, você me deu perspectiva, você torna o presente brilhante e empolgante, você me fez existir mais profundamente — continue fazendo isso, mas só comigo.”

Assim reduzimos, através de um senso de merecimento, as próprias pessoas que nos libertam. E ousamos chamar isso de amor.

Se formos honestos conosco mesmos, veremos que amor e conforto são duas coisas diferentes, cujas fronteiras se mesclam o tempo todo.

O amor e a genialidade são de natureza expansiva — vivem na fronteira externa de nossas expectativas e entendimento. Eles são envolventes e assustadores ao mesmo tempo, tão propensos a nos aterrorizar quanto a nos dar asas. Ainda assim, ignoramos o fato de que o amor e a genialidade têm custos reais — o maior deles sendo o nosso conforto.

Dizemos ao amor e à genialidade:

Caiba aqui. Caiba neste espacinho. Onde consigo te manter. Onde consigo te gostar. Onde consigo te entender.

É humano. É compreensível. Talvez seja até necessário.

Mas com certeza não é nada justo.

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