Sobre sobrehumanidades

Eu tenho certeza de que, nas mãos certas, ela seria um personagem cômico. A aura da consciência de uma beleza que não estava mais lá, a defesa furiosa da causa socialista e o gosto por programas de auditório e café fraco eram apenas algumas de suas características mais marcantes. Para mim, infelizmente, ela sempre foi uma figura triste, ao mesmo tempo negligente e sufocante. É difícil admitir isso sobre a própria mãe, mas mais difícil ainda é ter que conviver com o endeusamento maternal vigente na sociedade ocidental em globalização. Ela me deu a vida, dizem, eu deveria ser grata. Pois devia ter me dado um vale-presente.

Se eu não me sinto culpada? Mas é claro! Eu tenho um coração, e ele bate em um país cristão. Só sinto que devia falar disso porque ela mesma me disse que a maternidade é tabu, e que ela mesma queria quebrar esse tabu. Ela não ia ser a mãe que faz tudo pelos filhos, não ia perder o seriado pra ficar pegando boletim desse sistema escolar reprodutor do capitalismo e não ia conseguir um emprego normal pra estar alienada o dia inteiro. Ela ia ser sua própria mulher, ia lutar pelos seus ideais ao lado da juventude e ia transar com quem quisesse, tudo isso enquanto mãe profissional, cargo possibilitado pelo fato de que meu pai também não era o típico pai brasileiro, ou seja, pagava pensão. Ela também queria nos levar pro acampamento dos sem-terra com um carregamento de brinquedos para os sem-terrinhas, nos mostrar Fausto Wolf, Dante e Anais Nin (nessa ordem) e ficar com a gente para todo, todo o sempre. Era uma idealista, em suma.

Sei que às vezes parece que eu queria que minha mãe fosse como as dos outros, as das propagandas. E é exatamente isso. Mas essa escolha não é consciente, menos ainda é uma da qual me orgulho. É injusta com ela e comigo.

As mães têm poder demais e ajuda de menos.