Roupas expostas em um brechó. Fotos: Vanessa Carvalho e Yasmin Silva

Das pulgas aos cabides

Como os brechós passaram de apenas uma necessidade para uma alternativa de consumo

Por Cássio Prettz, Jessica Souza, Luma Ferreira, Vanessa Carvalho e Yasmin Silva

Vestir-se comunica, manifesta valores e modos de pensar. Por meio da roupa exteriorizamos nosso grupo social, individualidades, inquietudes e gostos, além de transmitir insatisfações com a sociedade. É um ato informal de revolucionar o cotidiano e produzir sentidos. Mas quem não tem aquela peça de roupa que só foi usada em determinada ocasião e agora fica ocupando espaço dentro do guarda-roupa? Ou aquele sapato que já não serve mais e não tem ideia do que fazer com ele? Já pensou em passar para frente tais produtos? Os brechós podem ser um bom destino para eles.

No Brasil, de acordo com um estudo divulgado pelo SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) em 2015, a procura por micro e pequenas empresas de artigos usados aumentou 210% num período de cinco anos (2007 a 2012). A mesma pesquisa mostrou ainda que o número de lojas desse setor passou de 12,6 mil para 13,2 mil entre o final de março e a metade de maio de 2015. Por ano, os brechós movimentam cerca de R$ 5 milhões no país, seja no comércio físico ou virtual.

A rápida ascensão da palavra brechó na boca da população fez surgir uma nova era, bem distante daquela ideia do seu inicio, no Século 19, de um lugar empoeirado e com cheiro de naftalina. Eles são alvos de consumidores que querem reduzir os gastos. Segundo o SEBRAE, a economia pode chegar a 80% nas compras. Outro motivo é a possibilidade de exercitar o consumo consciente, dando um basta na aquisição desenfreada de itens que só serão usados uma vez ou que não irão durar mais de três meses.

Mercado de Pulgas na França no Século 19. Foto: Paris Flea Market

As roupas de Belchior

A venda de produtos usados é uma prática antiga, mas a popularidade só veio no Século 19, com os itens vendidos em feiras ao ar livre como a do Marché aux puces, ou Mercado de Pulgas, na França, sendo comumente infestados pelas pulgas do local, daí o nome, é o que explica Albert LaFarge em seu artigo na revista Today’s Flea Market. Nos Estados Unidos, eram conhecidas por Charity Shop ou lojas de caridade e ganharam força após as crises produzidas pela Primeira e Segunda Guerras Mundiais, principalmente com a Cruz Vermelha que vendia os produtos doados a preços bem acessíveis.

Durante a Segunda Guerra Mundial, com o alto preço das roupas e a impossibilidade de receber suprimentos de vestimentas, o governo britânico criou, em 1941, o racionamento de roupas com cupons. De acordo com o site britânico NationalArchives, cada cidadão tinha 66 cupons para o ano inteiro e estes eram usados para trocar em peças. Um vestido valia 11 cupons, por exemplo.

Em 1943 surgiu a campanha ‘Make do and Mend’, que encorajava as pessoas a criarem novas roupas utilizando peças velhas ao invés de jogá-las fora, sendo oferecido até mesmo aulas noturnas. Pôsteres e panfletos com informações explicavam e davam ideias de como fazer isso.

Pôsteres da campanha “Make-do and Mend” distribuídos no Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. Imagens: divulgação/IWM

No Brasil, o relato mais conhecido é do vendedor Belchior que tinha uma famosa loja de artigos usados no Rio de Janeiro no Século 19, a Casa do Belchior, mencionada inclusive no conto “Ideias de Canário” do Machado de Assis.

“(…)No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior. (…)
A loja era escura, atualhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dous cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.”. (Machado de Assis, 1895)

O termo “lojas de Belchior” continuou designando os lugares que vendiam itens usados, e com o tempo passaram a ser chamados “brechós” já que a maioria das pessoas não conseguia pronunciar o nome corretamente.

A descrição no texto de Machado de Assis representa bem o que eram as lojas do segmento na época. Desorganizados e sujos, os brechós eram frequentados unicamente por pessoas pobres. Com o passar do tempo, essas características foram mudando e eles começaram a se firmar como comércio nos anos 1970 e 1980, e com o boom da internet, mais recentemente, se tornaram referência para os amantes da moda, se fazendo presentes nos meios virtuais, sites especializados e grupos em redes sociais.

Foto: Yasmin Silva

A virtualização do desapego

Segundo o site Busca Brechó, que agrega páginas que vendem roupas usadas, em 2014 havia 1.500 lojas registradas na internet. Um dos grandes impulsionadores foi a presença dos blogs, plataforma que faz o Brasil ocupar o segundo lugar no ranking de alcance segundo a BooBox, atrás apenas do Japão, que serviram de impulso para o movimento, com 50% dos leitores buscando as categorias Moda e Beleza.

Atualmente é possível encontrar vários dedicados apenas às lojas de segunda mão e ao consumo responsável que isso proporciona, como o blog Trocaria, que se denomina como “um movimento que incentiva o consumo consciente e colaborativo da moda através da troca e da prática do reuso”, com dicas e postagens que explicam tais pontos.

Criadora do grupo de doações e trocas no Facebook, o Free Your Stuff — FredWest, a professora de Jornalismo na UFPel Carol Casali, conta que desde a adolescência costumava comprar nos brechós da cidade onde morava, Santa Maria no Rio Grande do Sul. Quando mudou-se para Frederico Westphalen, percebeu que tinham outras pessoas com o mesmo interesse, mas que não encontravam oportunidades para trocas e compras de roupas usadas, “então comecei a empreender briques (negócio/trocas) de garagem e sempre tinham objetos de decoração, roupas e calcados que sobravam. Em 2015, assisti uma matéria sobre o Free Your Stuff de Porto Alegre e criei no mesmo dia o grupo de Frederico. Postei as coisas que estavam sobrando em casa e foi um sucesso.”, conta.

Não há como negar o impacto que a internet trouxe para o mundo da moda e a popularização dos brechós, nem as facilidades, afinal hoje é possível abrir uma loja virtual com alguns cliques e continuar repassando produtos que não são mais utilizados, sem a precisão de um espaço físico. Um grande exemplo é o site Enjoei, antes um blog, criado pela publicitária carioca Ana Luiza McLaren com a intenção de se livrar das peças que abarrotavam o apartamento. Logo ele se tornou um bom negócio e uma forma de promover uma economia colaborativa. Hoje um grande portal de compra e venda de roupas, calçados, acessórios, entre vários outros objetos de segunda mão.

Nas redes sociais, há pessoas como Nataly Neri, dona do canal Afros e Afins no Youtube e no Instagram, no qual um grande número de postagens e vídeos é dedicado ao mundo dos brechós e sua experiência com os mesmos, desconstruindo o preconceito com as lojas de segunda mão e debatendo o slow fashion.


Slow Fashion X Fast Fashion

Vamos fazer um simples questionário: você já se pegou refletindo se realmente precisa comprar tal produto? E por que continuar adquirindo aquele alimento que sempre termina sendo desperdiçado no final do mês? O que acontece com aquela sua roupa, sapato, móvel que já não usa mais? Você doa ou vai para o lixo?

São perguntas simples, mas preocupações importantes que fazem parte do consumo consciente, que é consumir de forma responsável, evitando desperdício e pensando nas consequências de seus atos para a qualidade de vida do planeta e de quem vive nele. Esse é um fator que a estudante de Jornalismo da UFSM/FW Rafaela Rodrigues, faz questão de considerar. Ela costuma ir a brechós desde criança, por incentivo de sua mãe e de suas duas avós costureiras, que sempre acreditaram na ‘segunda chance das roupas’. “Quem compra em brechós exerce e tem o consumo consciente, pois estará reaproveitando as roupas e de quebra ajudando o meio ambiente, pois de que adianta comprar e não usar? Sendo que talvez essa peça não esteja sendo útil para mim, mas poderia ser para outra pessoa”, explica.

Um infográfico produzido por Alexandria Heinz, formada em Moda e Justiça Social (Fashion and Social Justice) pela Universidade de Nova Iorque: Gallatin, explica o impacto causado pelo consumo exagerado. Ela dá como exemplo os Estados Unidos, o segundo maior consumidor no setor de vestuários com 20 bilhões de peças consumidas por ano, o que representa em média 68 itens por pessoa durante esse período, ou seja, uma peça por habitante a cada semana.

No final das contas, 12,7 milhões dessas peças são jogadas no lixo anualmente, enquanto 1,6 milhões poderiam ser reutilizadas e recicladas, fazendo deste um consumo descartável e prejudicial ao meio ambiente, já que, por exemplo, é gasto em média 11 mil litros de água para produzir apenas uma calça jeans.

Toda essa escala de produção indisciplinada e números altíssimos citados acima é conhecida como fast fashion, uma ideia de moda rápida, com um padrão de produção e consumo no qual os produtos são fabricados, consumidos e descartados. É a moda que muda de um dia para o outro, coleções que são lançadas a todo o momento e tem preços acessíveis. O conceito foi criado na Europa por grandes varejistas e no Brasil marcas que seguem essa política são, por exemplo, Renner, Riachuelo, Marisa, C&A e Hering. A grande polêmica em torno dessa política é que ela estimula a produção em massa, o aumento do consumo e o trabalho escravo. Compramos peças de roupas sem saber de que forma e onde foram produzidas.

Em contraponto a esse mercado que descarta sem consciência vem o slow fashion, um movimento sustentável que ganha força e veio pra ficar. Foi criado pela inglesa Kate Fletcher e inspirado no movimento slow food que tem como incentivo ter mais consciência dos produtos que consumimos.

A moda slow representa todas as coisas “eco”, “ética” e “verdes” em um movimento unificado. Aqui aplica-se a ideia de que “menos é mais”, reconhecendo os impactos ambientais e sociais do nosso consumo, mantendo vivos os métodos tradicionais de fabricação, como o feito à mão e as técnicas de tingimento naturais, além da história por trás de cada peça de roupa, também fornecem a vitalidade e o significado para o que vestimos. Os preços são muitas vezes maiores, porque eles incorporam recursos sustentáveis e salários justos. Mas, é só pensar no número de vezes que iremos usar essas roupas, e no seu incomparável caimento e qualidade, que vemos que o investimento vale muito a pena!

Roupas e outros objetos expostos em um brechó. Foto: Vanessa Carvalho

Tem para todo mundo

Os brechós podem ser categorizados de acordo com as roupas e objetos vendidos, pelos preços, pela forma como é organizado ou mesmo segundo o perfil das pessoas que o frequentam. Vestidos de festa, sapatos de grife italiana, bolsas francesas, lenços turcos. Esses e outros tantos produtos estão nos corredores dos brechós de luxo que surgiram para atender a demanda de um público com melhor poder aquisitivo que busca peças vintages, exclusivas e/ou de marcas famosas. Nesse tipo de loja, os itens passam por uma triagem mais rigorosa, não avaliando apenas a condição da peça, mas também seu valor de acordo com a moda e são dispostos em sessões definidas, sendo a decoração do ambiente uma característica marcante desse tipo de lugar.

Em contraponto, os brechós populares geralmente são voltados a quem possui um baixo poder aquisitivo. A organização e decoração do local não são prioridades, as peças selecionadas não seguem critério e podem estar penduradas nas paredes ou empilhadas. A estudante Rafaela Rodrigues dá a dica de ter paciência: “não é de primeira que você vai achar uma peça que te agrade, é preciso garimpar, olhar roupa por roupa e fazer as perguntas ‘Eu vou usar isso mesmo? ’, ‘Que roupa eu tenho em casa e que vai combinar com essa peça? ’”, diz.

Brechó organizado pela Liga Feminina de Combate ao Câncer de Frederico Westphalen. Fotos: Yasmin Silva e Vanessa Carvalho

Alguns brechós são organizados com o objetivo de angariar fundos para ajudar instituições de caridade, lares de idosos, igrejas ou associações. São chamados de beneficentes. Sua estrutura pode seguir os moldes dos luxuosos ou dos populares. Esse foi o meio que a Liga Feminina de Combate ao Câncer de Frederico Westphalen adotou para ajudar a quem precisa.

A vice-presidente da instituição, Elizabete Stefanello, explica que a ideia de abrir o espaço surgiu após receberem doações de roupas e objetos com frequência, chegando ao ponto de acumular. Antes de serem expostas na Casa, as peças recebidas, que podem ser novas ou usadas, passam por um processo de triagem e após isso, as que não forem comercializadas são doadas a outras instituições da cidade e para os assistidos pela Liga. O dinheiro arrecadado com a venda é utilizado para auxiliar as pessoas que recebem assistência da instituição.

Vai desapegar?

O infográfico abaixo ensina como adotar a prática do desapego.