Reféns do assédio: chegou a hora de romper o silêncio

Pesquisas apontam o alto índice de mulheres sujeitas à algum tipo de assédio diariamente no Brasil.

Por Cleusa Jung, Josiane Mayer Perius, Letícia Stasiak, Taiz Gizele Richter

Mulheres hesitam em sair na rua pelo medo de assédio.

Era para ser um final de tarde normal. Caminhar à tardinha era um costume de Cris*. Mas naquele entardecer tudo mudou. Cris percebeu que estava sendo seguida. Já estava escurecendo. Quando ela estava quase em casa viu uma sombra se aproximar. Ao tentar correr, sentiu alguém lhe pegando por trás. O temor tomou conta dela. O sujeito tapou a boca de Cris e a arrastou para um terreno baldio do outro lado da rua. Estava tudo muito cinza e vazio. Ninguém a ouviria ali. “Na hora não tive reação. Meu corpo tremia e eu não conseguia nem falar. Só chorava”. Ele a segurava por trás e ameaçava ter uma faca. Caso Cris não ficasse quieta, ele a machucaria. “Ele pronunciava palavras nojentas, passava a mão em mim”. O indivíduo disse-lhe que se fosse virgem não faria nada com ela. “Foi quando colocou a mão em minhas partes íntimas para verificar que consegui dizer as primeiras palavras: Eu sou virgem sim!” Cris pedia para que ele a soltasse e que a deixasse ir.

O homem estava com um cheiro forte de cachaça. Em vários momentos tentou derrubar Cris. “Rasgou minha calcinha tentando tirá-la e colocando a mão em mim”. Foi neste momento que o sujeito começou a gritar com Cris. “Você não é virgem nada. Você é uma vagabunda. Vou te comer bem rapidinho. Então, fique quieta que eu vou com mais carinho”. Cris não conseguia parar de chorar. Aquela situação lhe era desconhecida e a fazia sentir muito medo. “Meu corpo tremia e eu fazia tudo para ele não conseguir me derrubar no chão”.

Cris pedia para o sujeito libertá-la, mas ele rasgou sua calcinha e começou a insultá-la.

Assédio causa sofrimento

“Fiu fiu”. “Boneca”. “Princesa”. “Vai sair na rua com essa saia curta?” “Não use isso na escola, vai distrair os meninos!” “Quanto você bebeu naquela noite?” “O que você estava vestindo?”. “Você e sua amiga saíram sozinhas? Àquela hora da madrugada?”. “Mas também, vestida desse jeito!”. “Ela também não é nenhuma santa”. “Só quer chamar atenção”. “Ela está pedindo pra ser estuprada!”.

Quantas vezes você, já ouviu alguma frase desse tipo? Comentários desagradáveis e o medo constante de ver alguém atrás de você na rua são situações que muitas pessoas já viveram. As palavras podem vir em um tom sutil ou como se fossem uma brincadeira. Elas atingem o íntimo das vítimas, fazem esquecer-se do amor próprio e acabam se tornando uma típica violência velada, chamada de assédio moral.

Segundo a psicóloga Andrieli Padilha, o assédio é caracterizado por uma conduta violenta e persistente, que possui como objetivo final acuar a vítima e impor uma atividade contra a sua vontade. “Normalmente o assediador se vê como alguém que está em posição superior ao do assediado, e que portanto, tem total liberdade de lhe humilhar”, destaca. A psicóloga ainda lembra que qualquer assédio, seja nas relações amorosas, de trabalho ou sociais, provocam graves efeitos na vítima. “Esses efeitos se manifestam no corpo e no psicológico e inevitavelmente causam sofrimento”, acrescenta Andrieli.


Abuso é crime

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — Ipea, revela que, de 3.810 brasileiros entrevistados, 26% concordam total ou parcialmente com a afirmação: “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. O dado faz parte do estudo “Tolerância social à violência contra as mulheres” e entrevistou tanto homens como mulheres. Para muitos brasileiros, portanto, se uma mulher sair na rua com uma minissaia, está pedindo para receber uma cantada ou até mesmo ser violentada. O abuso ou violência contra a mulher é crime, mesmo que sejam praticados por um amigo, namorado ou marido.

Um estudo realizado com 2.285 mulheres, de 370 cidades brasileiras e com idade entre 14 e 24 anos, apontou que 94% delas já sofreram assédio verbal e 77% sexual. A pesquisa feita pela ONG ÉNois Inteligência Jovem, em parceria com Instituto Vladimir Herzog e o Instituto Patrícia Galvão, mostrou ainda, que 72% dos crimes ocorreu com desconhecidos e em locais públicos. A pesquisa na íntegra está disponível no site da ONG ÉNois.

Outros estudos também alertam para o alto índice de assédios contra brasileiras. De acordo com uma pesquisa divulgada pela Organização Internacional de Combate à Pobreza ActionAid, em 2016, 86% das mulheres ouvidas sofreram assédio em público em suas cidades. Ao todo, foram 503 mulheres de todas as regiões do país, em uma amostragem que acompanhou o perfil da população brasileira feminina apontado pelo censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Da mesma forma que a pesquisa realizada pela ONG, os dados também mostraram que o assédio em espaços públicos é um problema global.


Uma esperança, uma luz

Quando parecia não haver mais esperança, Cris ouviu o latido de alguns cachorros. Parecia vir da vizinhança. Viu uma luz. Era um senhor no terreno ao lado com uma lanterna na mão. O sujeito que ainda segurava Cris tapando sua boca, ordenou que ficasse em silêncio. Ele continuava a ameaçar com um objeto desconhecido. Em movimentos rápidos, tirava algo do seu bolso e a cutucava. Naquela ação, Cris percebeu que aquilo não era um objeto afiado. Foi aí que a coragem tomou conta da jovem. “Mordi a mão dele bem forte e na hora que ele tirou a mão da minha boca, eu gritei bem alto: SOCORRO!”

De imediato, o indivíduo de boné e jaqueta preta, jogou-a no chão e lhe deu alguns chutes. Para Cris, o medo era maior que a dor que sentiu. Viu o sujeito correr, mas para onde ele correu até hoje ela não sabe. Ela se levantou e foi para casa o mais rápido que pode. Em poucos passos, estava junto de sua mãe. “Eu estava desolada. Não sabia o que fazer. Sentia-me suja e humilhada. Lembrava do cheiro daquele homem nojento em mim”. A mãe de Cris chamou a polícia, mas não encontraram o sujeito que a assediou. Levaram a garota para o hospital e lhe deram remédios para dormir.


Para romper o ciclo de desrespeito

A Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos, do estado do Rio Grande do Sul, recebe em média 50 denúncias de abusos por mês, no Centro Estadual de Referência da Mulher, sejam essas presenciais ou pelo Telefone Lilás (0800 541 0803). Esse serviço gratuito oferece acolhimento para aquelas mulheres do Estado que estão em situação de violência, disponibilizando orientação jurídica, psicológica e social.

Para que as pessoas tenham conhecimento sobre a rede de proteção voltado à sua defesa, são realizadas anualmente diversas campanhas e divulgados informativos à respeito do assunto. Para encorajar principalmente as mulheres a denunciarem, o site da Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul disponibiliza uma lista das principais situações em que é possível identificar uma violência contra a mulher.

No intuito de auxiliar na denúncia de qualquer forma de assédio, seja ele físico ou psicológico, a Polícia Civil solicita que as mulheres não pensem duas vezes em realizar a denúncia, oferecendo uma lista de telefones e centrais de atendimentos. Entre as várias formas de denunciar assédio, abuso ou violência, está a Central de Atendimento Nacional, com o Disque 180. As denúncias são válidas para todos os estados do país e são encaminhadas para os sistemas de Segurança Pública e Ministério Público da cidade em que você reside.


Mais perto de você

A Polícia Civil — Delegacia da Polícia, da cidade de Frederico Westphalen, também recebe denúncias por meio do telefone (55) 3744–4044, que são encaminhadas de acordo com o caso em questão. Tais denúncias e outros crimes verificados na cidade eram registrados de forma específica, até final de 2015, o que permitia à Polícia Civil realizar o mapeamento das regiões com maior incidência criminal. Não apenas isso, era possível ter conhecimento sobre os principais delitos ocorridos e quais as localidades com maior incidência.

Porém, a partir do início de 2016, de acordo com o delegado de Frederico Westphalen, Eduardo Ferronato Nardi, delitos e denúncias passaram a ser armazenados de forma simplificada, sem o registro específico e o mapeamento de crimes. Isso dificulta a obtenção de dados concretos quanto aos casos de assédio moral e físico na cidade e região.

A Polícia Civil — Delegacia de Polícia de Frederico Westphalen também recebe denúncias de assédio.

As dificuldades em encontrar informações

Apesar de existirem diversas formas de realizar a denúncia, são poucas as incidências de notificações sobre assédio e abuso na Polícia Civil — Delegacia da Polícia, de Frederico Westphalen. A psicóloga Cláudia Cristina Manfrim destaca que o medo e a falta de conhecimento são, muitas vezes, os responsáveis por impedir a mulher de realizar a denúncia.

Não bastasse isso, a psicóloga lembra da falta de atenção das autoridades com casos de assédios. Como prova disso, é possível citar a designação da tarefa de realizar perícias psicológicas para o CAPS-FW (Centro de Atenção Psicossocial de Frederico Westphalen), sendo essa uma função da Delegacia da Polícia.

Há também a dificuldade em encontrar informações à respeito de abuso e assédio na região de Frederico Westphalen. Além de serem poucos os casos denunciados, muitos deles não recebem o encaminhamento correto. Atualmente o CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), acompanha apenas três casos, já que são poucos aqueles repassados para o Centro.


O caminho de enfrentamento ao assédio

Em Frederico Westphalen, após a denúncia na Delegacia, as vítimas deveriam ser encaminhadas ao CREAS e, após, ocorrer o seguimento com tratamento psicológico. Mas, isso nem sempre ocorre. Apesar do CREAS ser uma unidade pública estatal responsável pela oferta de orientação e apoio especializado para indivíduos e famílias que tiveram seus direitos violados, muitas vítimas são encaminhadas diretamente para o Posto de Saúde, caso sejam menores de 12 anos, ou para o CAPS. Ali é realizado o tratamento psicológico que tem tempo estipulado pela psicóloga e determinação judicial.

Entretanto, são poucas as vítimas recebendo atendimento psicológico no CAPS. Isso se deve em razão de que poucas mulheres procuram ajuda e o Centro tratar principalmente casos de problemas psicológicos mais graves. De acordo com a psicóloga do CAPS, Cláudia Cristina Manfrim, muitos dos casos de assédio e abuso são descobertos ao longo de tratamentos, em que algumas mulheres relatam terem sofrido algum caso de assédio no passado. A psicóloga ainda relata que um grande número de mulheres demoram para procurar ajuda. “Elas estão presas e reféns de uma pessoa da qual sentem medo. Reunir forças para combater esse sofrimento é muitas vezes um processo demorado”, afirma Cláudia.

Por meio de atividades, oficinas terapêuticas e culturais, rodas de conversas e orientações, o CAPS tem o objetivo de reinserir as pessoas na sociedade e também no mercado de trabalho. Ainda, ao auxiliar físico e mentalmente, o Centro trata os sintomas e o transtorno, atendendo principalmente pessoas que apresentam fobias, estresse pós-traumático e transtorno psicótico.

Em Frederico Westphalen as vítimas de assédio deveriam ser encaminhadas ao CREAS e, após, ao CAPS.

Sentir na pele

O fato que se deu em poucos minutos, parecia ter durado uma eternidade. Tudo pareceu ter acontecido em câmera lenta. Cris não conseguia reagir no início, pois estava muito assustada. “Além de tremer e chorar, eu sentia muito medo. Ainda lembro-me da voz dele falando aquelas coisas para mim. Foi, sem dúvida, o pior momento da minha vida, não consigo nem imaginar o que teria acontecido se ele tivesse conseguido me derrubar no chão”. Após o acontecido, a desconfiança se tornou presença constante na vida de Cris. “O medo depois é permanente, a desconfiança de todo homem que chega perto é terrível.” Pode ser de dia ou de noite, independente do lugar. “Pode ser mesmo com alguém que eu conheça. Se andar perto e atrás de mim, eu entro em pânico”.

“Acho que a nossa sociedade atual ainda é tão machista como a tempos atrás, pouco evoluímos nessa questão”. Cris* acredita que a mulher ainda é tratada como objeto sexual. Para ela, nenhuma mulher, independentemente da vida que leve, merece ser desrespeitada e violada, tanto verbalmente quanto fisicamente. “O meu desejo é que a mobilização contra a cultura do estupro, faça as pessoas enxergarem o quanto nós mulheres sofremos com isso, mesmo aquelas que nunca sofreram abuso sexual. Tenho certeza que todas as mulheres já foram desrespeitadas de alguma forma. Espero que aos poucos essa realidade mude e que assim, possamos caminhar tranquilas na rua. Sem medo”.

* Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.