O vento que beija-flor

Diolinda vivia numa fazenda muito distante da cidade. Naquele tempo as
pessoas moravam bem distantes umas das outras. Assim, quando queriam visitar os parentes, tinham que andar muitas léguas a cavalo, pois quase ninguém tinha carro.

Diolinda era apaixonada por seus avós maternos. Seu Lino e dona Lena eram meeiros na fazenda dos Lopes, mais ou menos uns 18 quilômetros da casa de Diolinda. A menina gostava de ir à casa da avó que a mimava muito e sempre fazia biscoito de polvilho e broa de milho. Diolinda não tinha muitos amigos, pois como morava longe, passava o dia entre ir à escola pela manhã e ajudar na lida da fazenda, depois do almoço. Seus amigos eram seus avós. Nesse tempo os avós eram pessoas muito respeitadas. Eram como se fossem pais dos netos.

Vó Lena gostava muito de contar histórias. Muitas histórias eram reais, outras
inventadas ou ouvidas de pessoas antigas, do bisavô do bisavô do bisavô. Dió adorava ouvir Vó Lena contando estórias e histórias. Vó Lena era uma cabocla muito das corajosas. Só tinha medo de taruíra e de alma penada. Dió ficava horas ouvindo a avó enquanto comia os quitutes que ela guardava num embornal.

Na roça, sempre que um vizinho visitava o outro, era costume contar estórias
antigas e beber uma cachacinha. Diolinda, que tinha o apelido de Dió, como era menina mulher, não bebia, mas gostava muito de ouvir as estórias. Ao redor de uma fogueira ou na rabeira do fogão de lenha sempre tinha um amigo ou conhecido contando as aventuras ou desventuras dos caboclos da roça. Ora era um sujeito que fez pacto com o sassafrás, ora era alguém que tinha colhido a maior mandioca da terra. Contaram de um sonho que as pessoas antigas tinham, como prenúncio de morte. Era um sonho com um tal de um anel de prata. Esse aí, era batata. Não contava um dia inteiro e alguém morria. Dió ouvia atenta as estórias e não se lembrava de ter tido esse sonho.

Os pais de Dió, não deixavam que a menina ficasse acordada até muito tarde.
Era sempre a mesma coisa. Ir pra escola, ajudar os pais na roça, acender o fogão de lenha e tomar banho de água esquentada para que, logo depois das seis da tarde, ir dormir. Tinha vez que ela podia ficar sentada na rabeira do fogão de lenha comendo milho assado e conversando sobre a vida, sobre a lida. De outras vezes ela ficava na sala ajudando a mãe a coser e remendar camisas e calças do pai. Os irmãos de Dió eram todos homens mais velhos que ela e, por isso ela era meio sozinha, largada. Quem dava ligança mesmo pra ela era a mãe e os avós.

Dió passava os dias pensando em voltar à casa da Vó Lena. O pai dela sempre
dizia que Dió gostava estava é caçando indaca, já que a avó morava muito longe. Mas Dió foi pra casa da Vó Lena no feriado de Semana Santa. Ficou por lá quase a semana toda. A avó gostava quando a neta ia. Ficavam até tarde na noite bestando na beira do fogão contando causos. Dió via na avó a esperança de ser feliz. A avó era bacana, pessoa supimpa mesmo. Embora fosse velha e morasse muito longe, era uma senhora bem nos trinques. Tinha uma charrete enfeitada de laços vermelhos, usada para ir à cidade e uma máquina de costura Singer, sua maior paixão. Vó Lena cozinhava muito bem e era uma grande pescadora. Dió e a avó ficavam horas e horas morgando na beirada do rio jogando conversa fora e dando banho em minhoca. Para o avô, diziam que iam pescar, mas o avô sabia que era apenas um dispiste para ficarem proseando e falando pelos cotovelos.

Vó Lena era uma avó diferente. Virava criança quando estava no meio da
molecada. Com Dió, Vó Lena se perdia com tantas coisas que queria fazer para agradar a neta. Contava causos e se derretia toda pra neta. Brincava de amarelinha e ensinava a Dió a coser e a cozinhar. Dió gostava disso. Na noite de segunda-feira Santa pediu à neta pra guardar um segredo. Vó Lena estava muito doente. Não tinha raiz de mato ou chá que desse jeito. Era coisa do coração. O coração dela tava meio banquirroto, meio fraco assim e ela estava sentindo umas tonturas. Mas havia de passar, garantia a avó.

Dió dormiu preocupada e sonhou que estava no meio de um roseiral com um beija-flor. O bichinho lhe entregava um anel de prata que estava preso no bico. De repente, quando Dió pôs o anel no dedo, bateu um vento meio norte assim, bem forte mesmo que aos poucos foi enfraquecendo, esmaecendo. Quando o vento parou de vez, Dió não viu mais o beija-flor. Só sentiu um perfume assim desses de roça, com aquele cheirinho bom de mato.

Na terça-feira Santa Vó Lena acordou cedo e preparou o café da manhã
preferido de Dió: bolo de milho com queijo, biju de mandioca, biscoito de polvilho e café coado na hora. Dió acordou só com o cheiro forte do café. Esfregou os olhos com água da bica e foi se sentar à beira do fogão, perto da avó. Dió nem se lembrava mais do sonho. Vó Lena estava estranha nesse dia. Tomava seu café com calma e muito pensativa. Dió pensou: — “a vó hoje tá com o ovo atravessado”. Ficaram por ali bem uns minutos. Dió falava com a avó que parecia nem pertencer a este mundo. A avó parecia estar pra lá de Bagdá, nem parecia prestar atenção na neta.Durante todo tempo Vó Lena ficou estranha. De vez em quando resmungava uma música bem antiga. Dió percebia isso, mas não sabia como ajudar. À hora do almoço Vó Lena ainda estava diferente. Almoçou em silêncio e assim ficou até terminar a refeição. Depois foi tirar um cochilo na rede dos fundos da casa. Daí a pouco Dió sentiu um vento suave com um baita cheirinho de mato ir entrando pela porta da casa, subindo lá dos lados do riachão, indo lá para os fundos, onde estava a
rede da avó.

À tardinha Vô Lino foi chamar Vó Lena, mas ela não respondeu. Não acordou
mais. Vó Lena foi-se como veio. Calma, serena e em silêncio. Dió nada sabia de morte. A avó lhe deixara um baú. Dentro dele havia um conjunto de material de costura com um dedal amarelinho, um caderninho de anotações com receitas antigas de broa de milho e um anel de prata. Na capa do caderno, um beija-flor voava num roseiral.