Eletrônica é baile de favela

Como o público está lidando com a junção entre música eletrônica e o funk

Larissa Zapata e Victória Silva

Mais uma vez o nosso amado (ou odiado) funk carioca volta ser polêmica! O gênero musical sofre variados tipos de preconceitos sendo julgado como música pobre e sem substância. Independentemente destes preconceitos, não dá para negar que o funk carioca faz parte da cultura brasileira e também está ligado à música eletrônica, afinal existem DJs especializados no ritmo.

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A reportagem esteve no festival de música eletrônica Tomorrowland Brasil. Durante o festival notou-se uma ligação entre o funk carioca e a música eletrônica. A polêmica começou e tomou grandes proporções justamente quando grandes nomes internacionais, como Skrillex e Hardwell, tocaram os sucessos atuais do funk, como Baile de Favela e Tá Tranquilo, Tá Favorável, respectivamente dos MCs João e Bin Laden.

Tomorrowland Brasil. Imagem: reprodução

Seguindo a linha inspiratória dos DJs internacionais, nomes brasileiros como Repow e Tropkillaz, que já apoiavam o movimento de incluir o funk dentro de suas apresentações e setlists, lançaram um remix da música Tá Tranquilo, Tá Favorável e aumentaram ainda mais os comentários sobre a junção dos dois gêneros musicais que de certa forma, seriam opostos.

Música boa é música compartilhada

Parte do público brasileiro que acompanha a música eletrônica se manisfestou de forma preconceituosa, declarando que se o funk nasceu na favela ele deveria continuar lá. Essa manifestação não foi recebida de braços abertos pelos DJs. “Tem fãs de EDM, electric dance music, no Brasil, uma boa fatia, que detonam tudo que sai da ‘zoninha’ de conforto deles, tudo é ‘lixo’, se falar em funk então é como palavrão”, desabafou Tropkillaz em uma publicação na página do Facebook.

“Tem que respeitar o gosto de cada um, e tem que respeitar a cultura do nosso país. A história do funk carioca é sensacional, vocês deveriam se interessar por isso” disse Repow.

O ponto é que o ritmo funk, apesar de não ter necessariamente “nascido” no Brasil, se adaptou e se reinventou aqui no país, deixando sua marca e hoje sendo tratado como um gênero brasileiro, além do samba e outros ritmos que estão presentes na cultura brasileira.

A reportagem conversou com Adriano Pagani, um dos DJs mais experientes do Brasil e que já participou de diversos festivais, incluindo as duas edições da Tomorrowland Brasil. Apesar de não gostar da tendência, Pagani acredita que grandes internacionais tem o papel de agradar o público brasileiro e por isso os sucessos nacionais entram para o setlist do show. “Numa tentativa de agradar o público eles acabam fazendo isso, assim como fazem em outros países também”, disse o DJ.

Na mídia

Muitos sites brasileiros estão ganhando espaço no mercado de música eletrônica, como por exemplo o Play EDM e Wonderland in Rave. Para obter uma visão oposta à defendida por Pagani, a reportagem entrou em contato com o dono do site Play EDM, Rodolfo Reis.

Rodolfo afirmou que o funk em si já é uma polêmica, que isso é algo que não pode ser alterado mas que deve ser respeitado. Entende a relação entre os dois gêneros da seguinte forma: “a batida do funk e da música eletrônica não são tão diferentes, mas a melodia em si, o ritmo em si são muito diferentes”.

“O funk em si já é uma música eletrônica.”

Já para o dono do site Wonderland in Rave, Yohan Augusto, a mudança no funk inflencia o preconceito. “Eu acho que esse preconceito se deve muito mais a esses novos estilos de funk do que a própria tentativa em si de remixar um funk”.

Música e tecnologia? Deu samba!

A questão é que mesmo com o preconceito que o funk sofre, a maioria das pessoas conhecem ou pelo menos ouviram falar nas músicas. A principal intenção dos DJs ao criar os famosos remixes dos hits, é provar que uma música pode ter outras faces, pertencer a outros ritmos e fugir da mesmice que seria tocar sempre a mesma coisa.