Assustando as pessoas pela manhã

Ou: o que acontece quando você passa a dar bom-dia pra todo mundo durante 3 dias.

por Gabriela Falcón

Só coisas estranhas podem vir de falar com estranhos na rua por três dias seguidos. Certo? Bom, na UFMG não. Quero dizer, talvez um pouco, mas bem menos que o esperado. Deixe-me explicar: sou aluna de graduação da UFMG e, como parte do plano de comunicação do TEDx, que acontecerá em novembro na universidade, com a temática “quero ser comunidade”, fui desafiada a dar bom-dia a todos que passassem por meu caminho no Campus Pampulha. Como o ser humano normal que sou, pensei “QUERO! QUANDO COMEÇA?”,e agora venho relatar os ocorridos aos queridos internetespectadores.

O primeiro dia foi esquisitíssimo, muito mais para as vítimas que para mim, considerando a falta de molejo social para iniciar essa hercúlea tarefa. Sempre entro pelo portão da Catalão normalmente pensando “pra quê tomei banho, pra tomar esse sol do capeta e suar de qualquer jeito? ” e descruzando olhares com anônimos da rua. Mas não semana passada. As primeiras vítimas foram servidores que distraidamente varriam folhas na entrada. Dei o bom-dia baixinho, nitidamente mais envergonhada do que pensei que estaria. Ninguém ouve. Então, repeti. Ninguém ouve. Daí, desisti e assumi que a tarefa é considerada cumprida mesmo que a pessoa não responda, o que será bem útil pela frente. Depois de enfrentar os primeiros bom-dias, o resto ficou fácil. Dei bom-dia a quem pedia carona comigo, dei para quem deu carona — que conheciam alguém do meu curso e conversamos até ser despachada para o meu destino, seus lindos que esqueci os nomes — dei bom-dia ao porteiro, a uma moça que estava em pé na entrada, a mais servidores. Assim seguiu a primeira manhã, maravilhosa e entusiasta de um mundo mais gentil.

Como só tenho energia pela manhã, continuei a tarefa no dia seguinte. Dessa vez, não andei por um só prédio, nem peguei carona. Começou pelo ÔNIBUS interno da UFMG. Imaginar todo mundo pelado não ajuda, mas tocar o *palavrão censurado* ajudou bastante. Estava bem feliz com o protesto do dia anterior, por ver tanta gente sã revoltada com a situação política do país, então dei um belo dum bom-dia geral, que foi respondido com um sorriso de uma senhorinha. Nem tinha tanta gente mesmo. Ao chegar no ponto, a coisa pegou. Era gente para todo lado. Todo. Lado. Dei o máximo de bom-dias que meu maxilar aguentou. Todos, sem exceção, ficaram surpresos, de um jeito bom ou não. Deu-se que pude conhecer várias caras engraçadas. No geral, o desafio mostrou-se muito divertido, pois chegou aquele momento que não era novidade, e todas as reações faziam parte da sua pegadinha do Silvio Santos. Então, foi só curtição. Tiveram aqueles que olharam para baixo e apressaram o passo e tiveram os que queriam conversar. Mas senti que a maioria ficou feliz. Feliz de ser notada em meio a tanta gente, feliz de sair dos seus próprios pensamentos e voltar para a realidade com um sorridente bom-dia, feliz de ter que esboçar um sorriso, mesmo que forçado.

No terceiro dia, as reações se repetiram. Foram muitos sorrisos. E sabe como é, sorriso é que nem bocejo, pega fácil. A pessoa ria, então eu ria mais, daí chegava na próxima com um sorrisão maior e por aí foi. Se era para falar de comunidade, aqui está: a UFMG é a comunidade dos sorrisos guardados. Sorriso de quem sabe que vai reprovar na matéria junto ao amiguinho, não importando o curso, sorriso de quem só veio no banco da praça de serviços sacar dinheiro, sorriso de quem sabe onde fica o pão de queijo mais gostoso do campus, sorriso de quem já conhecemos, sorriso de quem deu vontade conhecer, sorriso de quem trabalha 6 horas no dia atendendo aluno, sorriso de quem não quer ir dar aula, sorriso de quem ama dar aula. Percebi, então, que todos tinham um sorriso guardado, estando felizes ou não, e que só esperava o seu para sair da casinha.

Obs.: Para completar, desafio vocês a fazerem o mesmo. Não precisa ser todo mundo que passar — senão, problemas maxilares garantidos -, mas ao menos o suficiente para você se sentir mais feliz. Garanto que a comunidade UFMG também ficará.


Gabriela Falcón — estudante da UFMG

Comunidade é dar bom-dia e não assustar ninguém.