[>fica bem] O Curioso Caso do TCC Que Não Acabou

por Bárbara Machado e Lana Kantor

Durante a faculdade, fazemos das dúvidas nossas companheiras.

Era isso que eu queria? Eu algum dia vou usar isso no trabalho? Quantas faltas eu posso ter nessa matéria? Uns desesperados com as mudanças que irão acontecer a partir de agora; outros que não vem a hora de deixar as aulas e ingressar de vez no mercado.

Até que aprendemos que as interrogações não cessam, mas encontram, mesmo que por agora, um ponto final — o TCC.

Que fosse memorável, uma porta de entrada para um bom emprego ou simplesmente, só mais um trabalho.

Três alunas, cada uma com sua história, viram suas cadeiras e tentam pensar em algo que durasse mais que os 20 minutos cronometrados na banca de professores e profissionais, que fosse além daquele compromisso marcado na sala de aula.

O ponto em comum? Todas nós tínhamos passado ou convivido com alguém que coexistiu com depressão e outros transtornos mentais, tentando equilibrar suas vidas entre tantas dúvidas e um peso quase incomunicável. Um desafio para a graduação de Comunicação Social.

O meio precisava ser acessível e não poderia dispensar o contato com as pessoas. Que fossem lembretes gentis, histórias, depoimentos crus, mas que tratassem de emoções complexas, inseridas no cotidiano, simples como pegar o celular e mesmo sem propósito, abrir um aplicativo e ver o que está acontecendo.

Entre tantos sorrisos e likes, há pouca aceitação do mal estar, de emoções menos efusivas e de dores que ameaçam a existência, embora passemos tanto tempo das nossas ali, naquele fundo azul, sem perceber.

Não é para deixar desconfortável, pelo contrário. A depressão não pode ser tratada como um bloco cinza, nem comunicada com fotos escuras, tristes ou clichês — uma mulher branca chorando na janela enquanto chove causa efeito, mas não aproximação, muito menos busca por ajuda.

Queríamos quebrar o tabu, trazer esse assunto para o dia a dia de forma leve e compartilhável.

Trouxemos dicas, frases de apoio, histórias reais, inclusive as nossas, que mostram que a melhora é um processo, não uma imposição. E já que a conscientização precisa sensibilizar até os mais céticos — mascotes.

Os “plops” mostram que falar sobre depressão é essencial, menos assustador do que parece e por mais extrema que a situação pareça, através de linhas simples e cores, era possível encontrar uma melhora, uma saída, um alento para procurar ajuda, nem que seja expressada por um emoji de coração.

Surge o fica bem.

Aqui, empatia não era só a “palavra da moda”, e nem precisava ser. Ao estudar o conceito, nossa instrução deu espaço à nossa disposição de ceder tempo para criar conexões reais, mesmo com estranhos, e ouví-los sem julgamento.

Se parece simples, na próxima vez que alguém desabafar com você, tente não trazer uma experiência sua, dar soluções, aconselhar “olhar pelo lado bom” ou algo do tipo. Só ouça e tente imaginar como você se sentiria, e não necessariamente, o que você faria. Agradeça por ter sido confiável o suficiente para ouvir. Dê um abraço. Acompanhe.

É justamente isso que falta para as pessoas entenderem a depressão e outros transtornos mentais.

Tentamos então criar uma página que torna-se um lugar seguro na internet, com pessoas que estavam dispostas a ouvir, entender quando tiver um problema, e claro, falar livre de julgamentos.

Tudo era pensado com extremo cuidado para não agir fora do nosso alcance. A Comunicação é ampla, mas não dispensa especialistas.

Nosso papel é dar apoio, mas principalmente indicar pessoas mais competentes para dar diagnósticos e soluções para momento de crise.

Alguns psicólogos nos ajudaram e o CVV- Centro de Valorização da Vida — nos guiou na criação do discurso, o que falaríamos para alguém em crise e até mesmo da nossa saúde psicológica ao lidar com tantas pessoas que precisam de ajuda.

Tantas? Quantas? Em um mês, mil likes. Em um ano, mais de dez mil. No começo, pensávamos que se 100 pessoas curtissem a página já estava ótimo.

Banca marcada. Projeto defendido. Formamos. As dúvidas acabaram, certo?

Alerta de spoiler: não param. Mas de lá até aqui, mantivemos a certeza de que o fica bem valia a pena.

Ok, também porque a resposta das pessoas é provavelmente o conjunto de palavras mais amável que lemos em toda a semana e é irreal receber mensagens de pessoas que não nos conhecem, mas querem tomar café todos os dias com a marca da página.

Mas principalmente, porque mesmo através das telas, trouxemos impactos tão reais quanto sentar do lado de alguém e oferecer algum conforto. Essas coisas que não cabem no canudo do diploma.

Se era algum esboço de senso de propósito que procurávamos quando nos inscrevemos para o vestibular, o fica bem nos presenteou com isso. É, cá entre nós, de nosso ele tem o começo, mas a partir do botão “Publicar”, o projeto ganhou vida própria.

Não é um TCC, é mais um sinal de que a tecnologia evoluiu o suficiente para tornar-se humana de novo :)

Você pode acompanhar o fica bem pelo Facebook.


A Bárbara e a Lana são ex-estudantes de Comunicação Social da UFMG.

Comunidade é aprender que ouvir faz muito bem.

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