Glitter, liberdade e Drag: o nascimento de Karma

Foi num mundo de glitter, maquiagem, figurino e peruca que Maria Eduarda do Rêgo Barros, a Madu, conseguiu se encontrar verdadeiramente e descobriu que Karma Mahatma fazia do seu corpo morada. A arte performática das Drag Queens começou, pra ela, como uma brincadeira sem compromisso influenciada por um amigo de infância, mas que, hoje, exerce papel de destaque em sua vida. A estudante de relações internacionais nos contou como sua vida mudou e como sua família foi afetada de um ano para cá, quando começou a se montar.

No seu primeiro dia no mundo Drag Queen e ainda sem a identidade de Karma definida, Madu recebeu um feedback incrível na festa que participou e em meio a tantos comentários positivos ela foi incentivada a continuar e o amor pela técnica floresceu. Ela faz faculdade, mas diz que sua real militância e contribuição para o mundo reside na arte Drag e em toda a desconstrução que está atrelada a ela. Desde a escolha do estilo para a noite, até a finalização da maquiagem, cada parte do processo de ser Karma é um fragmento seu se soltando no mundo.

Madu é mulher cisgênero e branca, mas, por não se encaixar no padrão estético vigente no mundo, sofreu e sofre preconceitos. O universo Drag Queen é claramente composto mais por homens do que mulheres, e foi aqui que Karma também ouviu retaliações, ela contou para gente que, apesar de ser um ambiente de desconstrução, ainda há muito o que ser repensado quanto ao feminismo e ao espaço das mulheres numa arte que marca uma transformação pautada em adereços ligados às mulheres. As duas personalidades da mesma pessoa lutam juntas contra misoginia e a favor da auto-aceitação quanto ao corpo, à segurança em si mesma e à sexualidade. A frase que Madu frisou para nós foi de que “Não há nada de errado comigo, nem com as pessoas ao meu redor”, querendo dizer como a montagem e performance Drag Queen a ajudou a vencer as barreiras que ela construiu sobre ela mesma e sobre os outros também, é sempre um exercício de compreensão.

No início de tudo, a mãe da estudante ainda não sabia da existência de Karma, e esse descobrimento não aconteceu de forma natural, ela passou por momentos dolorosos em que sua própria família não procurou entender o seu trabalho, muitos ligaram o seu perfil de Karma Mahatma a uma vida de drogas e prostituição, e seu mundo caiu quando ela ouviu tanta reprovação de todos os seus familiares. Madu precisou de conversa, paciência, tempo e muito carinho para conseguir superar o preconceito presente nas pessoas que ela mais amava, e persistiu, e lutou, e conseguiu o apoio de sua mãe. Ela explicou que, ainda assim, nem todo mundo entendeu, e ela cortou muitos laços em sua família, mas que decidiu o seguinte “só quem vale a pena é quem me faz bem e quer meu bem”, foi puxado perceber que pessoas que ela achava que estavam ao seu lado provaram, elas mesmas, o contrário. Mas foi após esse sofrimento que Madu percebeu que ela tinha liberdade e segurança para ser quem ela é, foi sua saída do armário.

Karma Mahatma é sensacionalmente produzida por Madu; a primeira é extrovertida, enquanto a segunda é quietinha, e foi assim que Maria Eduarda conseguiu se sentir livre, sendo Karma em seus momentos mais descontraídos e Madu nos trâmites da vida, ou seja, quem ela quer ser na hora que ela quer ser. Karma recebe mensagens de meninas do Brasil todo demonstrando admiração; ela é hostess, é convidada para festas para marcar presença, tem um perfil no Facebook com vídeos ao vivo, e é elenco de um documentário para ser lançado, o seu trabalho e sua arte são reconhecidos. Madu afirma que Karma não tem gênero, nem sexualidade definida, ela é o vento liberto que emerge orgulhosamente de Maria Eduarda.

Texto de: Clarice Fernandes

Ilustração de: Anderson Acioli

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