A Cultura da Hype e o Impacto na Indústria de Jogos Digitais

por Rodrigo Teixeira

Quando algo está para ser lançado, seja um filme, uma série ou um jogo, os sentimentos que predominam nos seus fãs são aquela ansiedade crescente e a certeza de que aquilo vai ser uma das melhores coisas existentes. A hype é justamente esta mistura de sensações que acontece quando algo grandioso está por vir. As grandes empresas já aprenderam como canalizar esta energia de antecipação para lucrar, antes mesmo de o produto estar disponível, e especialmente na indústria de jogos digitais, isto causou uma grande mudança em diversos paradigmas, e isto vem criando cada vez mais problemas para os jogadores, desenvolvedores e para o mercado como um todo.

Nas décadas passadas, o setor de jogos estava em um período de auto consolidação. Havia vários gêneros e tecnologias inexploradas e, ao mesmo tempo, um público pronto para ser experimentado com novas tentativas de apresentar um produto sobre o qual, até então, não existia uma fórmula mágica para ser vendido. Desde então, as preferências do público, os gêneros e jogos consagrados definiram os pilares do mercado. Hoje, vídeo game não é mais uma novidade. O que era uma curiosidade de poucos agora já é um dos maiores meios de entretenimento no mundo, arrecadando 23,5 bilhões de dólares em 2015. É aceitável dizer que, a esta altura, os publicitários já entendem muito bem o que está sendo vendido, as necessidades dos usuários e, ao unir estas informações, criar o ambiente mais favorável para o jogo ser um grande sucesso.

O problema em tudo isso está nas estratégias que vem sendo executadas para fisgar os jogadores. Não é a qualidade do produto final que importa. O que foi percebido é que, muitas vezes, o mais importante é que o jogo pareça bom. Em 2016, 41% dos jogadores americanos afirmaram comprar jogos novos sem sequer testá-los. Isto não seria um problema por si só, não fosse pelos vícios presentes nas campanhas publicitárias de novos jogos nos últimos anos. A seguir veremos quais são essas jogadas e as catastróficas implicações que o ato de “vender pela hype” vem causando.

Pré-(pré-)Venda

Algo muito comum hoje em dia, a pré-venda surgiu como uma forma de reservar os jogos mais procurados, numa época em que mídias digitais não existiam e a fabricação de mídias físicas era limitada. Com o surgimento de compras digitais, ela se tornou somente uma forma de capitalizar com o produto quando este ainda está em estágio de produção. Mais do que isso, muitas empresas contam com este dinheiro para continuar o desenvolvimento do jogo. Por este motivo, os jogos vem entrando em período de pré-venda cada vez mais cedo. Há atualmente jogos em pré-venda que possuem um período de lançamento de até 7 meses, ou que sequer possuem data de lançamento. Vendem jogos incompletos, sem a menor garantia de qualidade e, cada vez mais, que são lançados com muitos bugs e muito aquém das expectativas.

É possível encontrar várias campanhas e artigos que recomendam não comprar jogos em pré-venda. Apesar disto, é injusto culpar os consumidores. Todas as pessoas já se animaram com alguma coisa a ponto de pensar “Vou comprar isso agora!”, e todos sabem que não é algo completamente racional. São estas compras instintivas que povoam nossos arrependimentos e evitá-las é um exercício constante. O ponto principal é que estas práticas de venda removem a responsabilidade da empresa de lançar um produto de qualidade, já que no momento que o jogo está disponível, ele já lucrou o suficiente para que as avaliações do usuários e especialistas não causem um impacto tão significativo a ponto de torná-lo um fracasso de vendas. Quando descobrem que o jogo não é nem metade do prometido, a maioria dos interessados já possui uma cópia dele em suas mãos.

Acesso Antecipado (ao lançamento atrasado)

Na maioria dos parques temáticos, há aqueles passes mais caros que lhe permitem ter prioridade nas filas para os brinquedos, o que aumenta o tempo de espera para o resto das pessoas. Isto, apesar de injusto, é bastante tentador, certo? Na indústria de jogos, há uma iniciativa parecida: O usuário pode pagar a mais pelo acesso antecipado(early access) do jogo, dias ou até semanas antes do seu lançamento oficial. Isso não parece tão atraente a princípio, mas para quem vem esperando anos por um jogo, alguns dias podem parecer um tempo interminável.

Entretanto, da mesma forma que, se todos pegassem a mesma fila nos parques temáticos, todos teriam um tempo de espera um pouco menor, no contexto dos jogos, todos teriam acesso ao jogo um pouco antes, se todos pudessem ter acesso no mesmo dia. O que acontece é que os jogos são atrasados propositalmente para permitir que uma minoria pague pelo privilégio de jogar antes dos outros.

Em outros casos, o acesso antecipado também é usado para vender jogos em estágio prematuro de desenvolvimento, em fase alpha ou beta. Nestes casos, os usuários podem auxiliar os desenvolvedores em encontrar bugs, sugerir mudanças etc. Por outro lado, os usuários estão gastando seu dinheiro com um jogo incompleto e que, em sua maioria, podem ser cancelados, sem uma versão final. Na plataforma Steam, apenas 25% dos jogos com acesso antecipado se tornaram jogos completos em 2014. Isto legitima a ideia que vender jogos incompletos ou quebrados é o suficiente para lucrar, dada uma quantidade suficiente de hype.

Financiamento coletivo e os “Sucessores Espirituais”

Muitas pessoas se lembram dos jogos de sua infância e pensam “Por que nunca mais lançaram um jogo como esse?”. Em resposta a estas pessoas, nestes últimos anos, presenciamos a volta de jogos que nos lembram dos clássicos de antigamente, mas com outro título ou com diferentes personagens. Estes são os “Sucessores Espirituais”. Normalmente os estúdios que propõem estes jogos são compostos por criadores do jogo original, que decidiram abrir um estúdio independente, e não contam com muito dinheiro. Para bancar suas criações, eles utilizam ferramentas de financiamento coletivo, enquanto seus investidores, nós, ficamos com apenas a promessa de que o jogo sairá algum dia, e que provavelmente será tão bom quanto o original, mas com uma abordagem moderna, conectividade com a internet ou melhores gráficos.

Porém, o que aconteceu foi o contrário. Jogos baseados em financiamento coletivo são conhecidos hoje em dia por atrasarem indefinidamente, serem cancelados sem maiores explicações ou simplesmente não atingirem as promessas dos criadores. Já alguns dos Sucessores Espirituais mais esperados se tornaram verdadeiros fiascos.

A ideia por trás disso é a mesma: Vender um produto inacabado, sobre o qual não se sabe nada a respeito além de alguns trailers e imagens conceituais, e lucrar antes que as críticas sejam muito ruins para que os danos sejam reparados com alguns patches.


É difícil se conter na empolgação e mais difícil ainda é obter somente produtos de qualidade. Todos possuem jogos, livros ou filmes que ficam empoeirados e que nunca mais iremos usar. Uma forma de se manter longe dessas tentações e controlar a sua hype é se manter 1 ou 2 anos atrasado em relação ao mercado, só comprando jogos dessa época. Desta forma, já é possível ver quais são os jogos que são destaque desse período, e ainda comprá-los em promoção a preços muito menores. Não é o fim do mundo obter jogos na pré-venda ou comprar acesso antecipado, claro, mas é importante estar ciente que aquele jogo ainda estará lá daqui a alguns anos, e que com certeza você tem vários jogos excelentes, que ainda não experimentou e que, talvez, seja o jogo da sua vida.