Revolução Pokémon Go

Por Mateus Bento

Foto: Niantic/Nitendo.

Ao longo de nossa vida acadêmica, aprendemos que as revoluções sempre trazem consigo transformações radicais em muitos aspectos do convívio em sociedade, sejam nas relações de produção, sejam na forma de interação dos sujeitos com as organizações e entre si. A revolução industrial, por exemplo, trouxe drásticas mudanças na economia (com o advento do capitalismo e do livre comercio de mercadorias) e nas interações sociais (servos e escravos do período feudal tornam-se operários das indústrias, entre outras mudanças que abalaram negativamente os laços fraternos).

A intenção deste texto não é apontar pontos positivos e/ou negativos. Isso você pode descobrir com uma simples busca na Internet. Além do mais, a discussão acerca do conceito de revolução divide os teóricos entre aqueles que a entendem como um movimento de restauração da ordem social preestabelecida e os que a compreendem como a instauração de uma nova ordem. De todo modo, as revoluções causam impactos em vários setores da sociedade e podem causar transformações em escala global.

Assim, tratar Pokémon Go (considerado um fenômeno, uma febre ou um vírus, dependendo de seu ponto de vista) como uma revolução é reconhecer que o novo jogo tem transformado a ordem social e econômica, maravilhando alguns e assustando outros.

Em menos de 24 horas após o lançamento de Pokémon Go nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia, no dia 6 de julho, o site apkmirror.com (loja virtual onde é possível fazer o download em outros países) registrou mais de 4 milhões de acessos. No Brasil, o jogo só foi lançado no dia 3 de agosto, obtendo mais de 50 milhões de downloads, em menos de 24 horas. O site Infobase Interativa estima que cerca de 69% dos brasileiros pretendem baixar Pokémon Go.

Pokémon Go está disponível em mais de 30 países ao redor do mundo. Entretanto, o presidente da Niantic, produtora do game, espera lançar o jogo em cerca de 200 países e regiões em breve. E, ainda, ampliar a capacidade de servidores para um lançamento mais amplo.

Em relação ao tempo gasto pelos usuários na Internet, o jogo disparou na frente das demais comunidades virtuais, atingindo um tempo médio de 43 minutos por acesso, superando até aplicativos de mensagens como o Whatsapp (30 minutos).

Fonte: Infobase Interativa.

De acordo com o site italiano Pokémon Millennium, nos últimos meses, houve um aumento significativo na quantidade de conversas e buscas sobre Pokémon Go: 2897% no mês de junho e mais 606% no mês de julho, devido principalmente ao lançamento do jogo. Antes do lançamento do jogo, a maioria dos internautas que buscavam sobre Pokémon Go era do sexo masculino (80%) e adolescentes de 13 a 17 anos (40%). Após o mês de julho, o perfil mudou. Agora, há um equilíbrio entre os sexos (49% masculino e 51% feminino) e, ao invés de adolescentes, os adultos de 25 a 34 anos (24%) lideram as buscas.

O jogo também tem servido como fonte para milhares de foros de discussão e memes compartilhados nas redes sociais, estimulando ainda mais a interação no ambiente virtual. Estima-se, por exemplo, que há mais de 65 milhões de usuários de Pokémon Go no Twitter. E, de acordo com o SurveyMonkey, o game já é o mais popular na história dos Estados Unidos, ultrapassando Candy Crush. Além disso, aponta que o número de jogadores de Pokémon Go que possuem smartphones com Android é maior do que de usuários do Twitter — considerando apenas os Estados Unidos, pois ainda não foram divulgadas informações de usuários dos demais países.

Do virtual ao presencial

A revolução Pokémon Go também tem transformado as relações presenciais. Diz-se que é mais fácil capturar um Pokémon raro como Mewtwo do que encontrar alguém que não esteja caçando Pokémon. Neste processo, tem sido ressaltada a sociabilidade promovida pelo jogo. Nas escolas e universidades, por exemplo, tem sido comum encontrar estudantes reunidos caçando Pokémon nos momentos vagos. Também estão acontecendo os encontros Pokémon para reunir jogadores. Em Manaus, estão previstas quatro reuniões deste tipo até o fim de agosto.

Os ginásios para treinamento e batalha de Pokémon e as Pokéstops (pontos onde há bônus como pokébolas que facilitam a vida dos treinadores) têm se mostrado verdadeiros espaços para a interação presencial. Aliás, muitas Pokéstops estão em praças e pontos históricos nas cidades, o que tem causado aumento de visitas a esses espaços.

Uma pesquisa realizada por analistas de diversas partes do mundo, divulgada no Brasil pelo site Poke-Blast-News, comprovou que 44% dos treinadores Pokémon estão visitando um ponto de interesse cultural pela primeira vez e 24% deles estão visitando um local religioso. Além disso, dados sobre a saúde dos jogadores revelam que, em média, estão perdendo 3,2 kg desde o lançamento do jogo, já que o treinador precisa caminhar para encontrar novos Pokémon ou Pokéstops e, principalmente, para eclodir os ovos que possuem os monstrinhos.

Pokémon Go não é apenas um jogo de realidade aumentada; ele possibilita o contato com a realidade, com as pessoas, com os espaços físicos. A revista Super Interessante relatou alguns casos em que o jogo ajudou pessoas a saírem de situações difíceis e até superar doenças. Querido Einstein, Pokémon Go não ultrapassa a interação humana; ele revoluciona o modo como interagimos. Agora a escolha de não interagir com o outro no mundo “real” sempre será do ser humano e um game não mudará isto. Um livro, uma revista ou uma “virada” de rosto já fazem isso há tempos.

Pokémon e os negócios

Os impactos da revolução são percebidos com mais clareza na economia mundial. Em apenas dois dias após o lançamento do jogo, o valor das ações da Nintendo tiveram aumento de US$ 7,5 bilhões. Segundo o App Institute, embora o download seja gratuito, o jogo fatura US$ 10 mil por minuto com vendas de itens como pokébolas, porções e ovos dentro do Pokémon Go.

A Nintendo não é a única investidora do game. Ela detém um terço da Pokémon Company e possui participações não reveladas na Niantic, uma startup criada dentro do Google que já tinha lançado outro game, o Ingress, que teria sido utilizado como para a produção de Pokémon Go. Ele exigia que o jogador saísse de casa para explorar o ambiente. O objetivo era encontrar fontes de energia pela cidade e evitar que outros jogadores roubassem sua energia.

Contudo, Pokémon Go não é lucrativo somente para os criadores. Existem centenas de casos de microempresas e autônomos que estão usando o game para alavancar seus negócios. Muitos taxistas e motoboys estão divulgando o serviço de “caça ao Pokémon” nas cidades brasileiras. Shoppings centers, lojas, restaurantes e lanchonetes têm se tornado Pokéstops, o que atrai mais consumidores em potencial. No Japão, a McDonald’s fechou uma parceria com a Niantic para que todas as lojas da rede virassem Pokéstops oficiais do game. A estratégia deu certo e os lucros da empresa aumentaram 27%, mais rentável do que as próprias promoções do McLanche feliz.

O portal UOL selecionou 11 casos de organizações que estão usando o game em anúncios e promoções. Tem anúncio de imóvel que fica perto de ginásios Pokémon, desconto na viagem de táxi para quem “capturar” o Pokémon (motorista) mais raro, anúncio de animais à espera da captura (adoção) e até estadia em motel na companhia dos Pokémon.

Os níveis da Revolução

Pokémon Go possui 40 níveis. A cada nível, o treinador enfrenta novas dificuldades e capturar os Pokémon demanda mais dedicação. Conforme evolui e aprende novas técnicas no jogo, o treinador se depara com um mundo de possibilidades que não se restringe ao ambiente virtual. Afinal, os Pokémon estão presentes no ambiente real (nas praças, nas universidades, nas paradas de ônibus, nos shoppings, na sua casa e talvez até na sua frente). Parece inacreditável, mas isso é possível com a realidade aumentada.

Talvez Pokémon Go seja um fantasma revolucionário que em breve desaparecerá da mídia e das conversas entre amigos e familiares. Talvez seja um monstro que sairá do bolso dos jogadores para controlar a sua mente. Quem sabe o monstro consegue evoluir e conquistar a simpatia das pessoas em todo o globo? [Lembre-se do monstro do Lago Ness, do qual muitos sentem medo, mas pagariam para visitar o lago e saber se realmente existe] Quem sabe o fantasma não se torne um camarada, um Gasparzinho que pode nos assustar, mas que gostaríamos de ter como amigo?

Para finalizar, é preciso entender que ainda estamos nos primeiros níveis da Revolução Pokémon Go. Quais as consequências do game para as nossas vidas? Com os primeiros passos já são visíveis os impactos nas interações sociais, na educação e na economia. Não temos certeza sobre o que virá em seguida ou até que nível o jogo transformará a sociedade. O Pokémon World é maior do que imaginamos e a jornada está apenas começando.

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