coisas que eu aprendi em são paulo
são paulo me ensinou que meia hora é uma distância curta, quase que insignificante pra ir de um lado pro outro. aqui no interior, eu demoro meia hora pra ir pra cidade cidade vizinha, onde mora um amigo meu, de ônibus. londrina é grande, mas dificilmente é feita de grandes distâncias. o trânsito não é tão caótico, os ônibus demoram, mas nem tanto e é possível chegar em vários lugares andando a pé. inclusive em lugares com áreas verdes, coisa que em são paulo nos parece quase um luxo.
em são paulo aprendi coisas que não queria como: a otimização do tempo. passar duas horas dentro de um transporte público requer que você aproveite o tempo que passa ali dentro, porque afinal são duas horas, e foi assim que eu aprendi a ler no ônibus sem sentir tontura ou náusea, ler em pé no metrô ou responder mensagens sem me desequilibrar em cima das pessoas. aprendi a deixar sempre o 3g ligado porque as pessoas consideram uma espécie de ofensa você ligar pra elas ou mandar sms. a bateria do meu celular nunca durou tão pouco como em são paulo, e eu nunca antes tinha ficado tão brava por passar uns vinte minutos sem sinal de 3g quando entrava dentro do terminal pinheiros. em são paulo as angústias duram mais porque sempre demora muito tempo pra você chegar em casa, caso você tenha um desgosto. acho que é por isso que já vi tanta gente (eu inclusa) chorando no transporte público. não dá pra esperar duas horas pra conseguir chorar na cama que é lugar quente, então você acaba chorando dentro do ônibus ou na escada rolante do metrô. em são paulo isso não é um problema, ninguém vai prestar atenção, ninguém vai te perguntar o que foi.
aprendi a compartilhar solidão de maneira solidária, porém distante. em são paulo adquiri o hábito de ir ao cinema sozinha por simples preguiça de convidar alguém, ter que pegar o metrô, encontrar com a pessoa, falar meia dúzia de palavras. a cidade é grande e era bom quando eu conseguia fazer meus próprios itinerários, sem ter que passar por baldeações pelas quais eu não fazia questão. certa vez sentei em uma fileira com mais outras sete pessoas sozinhas. era uma pequena multidão solitária. sorrimos uns pros outros de um jeito complacente, mas não fizemos mais que isso. cada um com sua própria bagagem e suas próprias impressões permaneceu sentado até o filme acabar e depois foi embora do mesmo jeito que chegou: sozinho. todos nós, entretanto, ligamos o celular e checamos as mensagens. estar solitário nem sempre significa que você não queria avisar alguém que acabou de ver um filme muito bom sozinho com mais sete pessoas também sozinhas.
em são paulo aprendi que é possível que as livrarias não tenham silêncio algum, e que, na verdade, é possível que uma cidade nunca fique quieta. as próprias pessoas em são paulo tem uma dificuldade meio absurda em ficarem quietas. quando não estão falando estão digitando nos celulares, ou ouvindo música. não culpo, fazia a mesma coisa. mas minha parte preferida da minha curta estadia em são paulo (em todas as vezes) era quando todo mundo ia embora de casa e eu podia ficar quieta. quieta mesmo, sem ouvir nem minha própria voz. a paz lá nunca dura muito, os vizinhos acabam falando alto, sempre tem uma obra acontecendo com barulho de britadeira, os apartamentos são muito perto um dos outros e você sempre pode ouvir uma mãe mandando um filho acordar mas, ainda sim, a simples sensação de estar completamente sozinha dentro de um espaço qualquer que fosse me dava paz. uma vez comemorei quando o cara que morava comigo saiu pra trabalhar. respirei fundo e pensei “até que enfim”. sempre gostei de estar sozinha nos lugares, mas são paulo ressignificou a solidão porque eu sabia que nem o mercadinho do italiano da esquina era um lugar vazio. nada é vazio naquela cidade, nem mesmo à noite. deve ser um pouco bom, já que são paulo nos deixa tão angustiados às vezes que ouvir nossos próprios pensamentos é algo realmente amedrontador, mas pra mim, a solidão completa ainda era algo a comemorar.
aprendi que as relações são ainda mais complicadas porque é uma cidade de muita gente e, portanto, teoricamente, muitas possibilidades e então as pessoas parecem estar sempre de olho na outra coisa que pode-vir-a-chegar de modo que você nunca pode ficar muito tranquilo com a pessoa que está. nunca tive uma relação saudável em são paulo. deve existir, não é exatamente culpa da cidade, mas me parece um pouco mais complicado de encontrar. em são paulo a desigualdade existe a olhos vistos, mas você pode viver numa bolha pra sempre se morar em algum bairro meio nobre e nunca ir ao centro. fiquei algum tempo sem nunca ver um morador de rua, ou sem ter medo de olhar meu celular na rua enquanto morei por lá. as coisas eram todas perto de modo que minha vida só foi um pouco prejudicada quando teve a greve de ônibus, mas só porque eu tinha que ir pra usp e os ônibus lá não funcionavam. durante a greve de ônibus ainda seria perfeitamente possível ir ver um filme na augusta usando o metrô. é triste, mas se você mora em bairros nobres em são paulo, consegue a ilusão de que certas coisas nem são com você. o que me fez entender porque a tal “elite paulistana” vive num universo a parte.
caso você tenha um carro, então, essa ilusão é capaz de passar para proporções astronômicas.
uma vez fui quase assaltada em frente ao shopping bourbon da pompéia. o moleque veio, puxou meu iphone, eu puxei o iphone de volta num reflexo. ele não soube o que fazer, eu sabia menos ainda, ele tentou me dar um soco na nuca: eu gritei. a rua era movimentada, todos fingiram que não nos viram e o moleque saiu correndo. senti mais dó dele do que de mim, na verdade. ele não devia ter nem treze anos e já tinha que tentar roubar celular de gente rica e trouxa que acha que, porque mora em um bairro nobre está livre de tudo. ele era muito mais invisível do que eu, e a vida pra ele era muito mais difícil. superei bem o trauma, entrando no mercado e comprando ingredientes pra fazer bolo de cenoura. eu estava comprando num mercado que tem seção de importados, eu nem tinha do que reclamar da vida. coitado do moleque. eu pensei bastante no moleque. ele ainda vai tomar surra, levar tiro, ir preso, ser cuspido por madame que depois vai falar que é terrível que a gente viva num país sem segurança, melhor ir pra europa. o moleque nunca vai pra europa; eu acabar indo, eventualmente. e ainda bancada pela capes, se bobear.
em são paulo as pessoas correm nas escadas rolantes, o tempo todo e ficam bravas se você não corre também. fiquei pensando e acho que no final do dia elas devem ganhar dez minutos que usam pra reclamar do fato de que é um saco ter que ir-e-voltar dos lugares assim, nessas condições. a culpa não é delas, são paulo tem muita gente, vive cuspindo a gente pra fora e a gente insiste com ela. se fôssemos racionais nunca viveríamos lá. nunca. a linha amarela tem o pior projeto de todos, aqueles trocentos andares de escada rolante ainda vão matar alguém e eu evito ao máximo a baldeação linha amarela-linha verde que se mostrou o projeto mais ineficiente em anos. entretanto sempre prefiro o metrô aos ônibus, por alguma razão que nunca sei explicar, e sempre me irritou um pouco morar meio longe do metrô. mas a vida é feita de escolhas não muito conscientes e são paulo era também uma delas.
se eu fosse esperta, nunca escolheria são paulo. aquele não é meu sonho de cidade, e não deve ser o de ninguém. são paulo é cafona por querer parecer moderna e rica, e a gente sempre acaba no meio de um monte de gente que cria uma imagem pra poder sobreviver no meio daquilo fingindo ser feliz. são paulo às vezes parece ter vindo com filtro do instagram. as festas na augusta parecem ser feitas de um monte de gente fabricada em série, e eu mesma consegui desenvolver roupas modernas pra me camuflar na multidão. as pessoas querem ser tão diferentes que acabam todas iguais. tristemente iguais. em são paulo se gourmetiza até o popular. o minhocão é cult, a república é cult. os músicas do emicida que falam de uma pobreza e de uma realidade que quem mora em vila madalena nunca chegará nem perto de entender também é cult. cult pra quem não vive a realidade de lá. tudo é cult e são paulo é cafona.
passei seis meses ali e por umas duas vezes me senti em casa. por outras várias queria ir embora ou me esconder embaixo da terra, me jogar no vão do metrô. acho que só vi um pouco de são paulo como ela é no último dia, quando andei no centro. os caras que dormem em colchões no centro me dizem muito mais sobre o que vem a ser a cidade do que as festas do baixo augusta. os lugares onde eu sei que não posso tirar meu celular caro do bolso, também. a vida ali é cruel, é correria, é triste. as pessoas também ficam cruéis, correria, tristes. eu não tenho vontade de parecer paulistana na maioria das vezes. parecer paulistana às vezes significa ser cruel, egoísta, míope aos problemas alheios. em são paulo chega uma época em que algumas pessoas realmente acreditam que sofrem mais que as outras. as pessoas mais doces que conheci, em contraponto, são aquelas que vivem a realidade desse troço diariamente e aprenderam a entender que todo mundo sofre também. no último dia eu me senti acolhida, enquanto andava feito criança por uma são paulo que passei seis meses sem conhecer. alguns lugares em são paulo me pareciam apenas estações distantes do metrô que eu olhava e pensava “deve ser mesmo longe ali” quando na verdade é um lugar onde moram pessoas, famílias e gente que sofre e demora quatro horas pra chegar no trabalho. pra essas pessoas, certamente, são paulo não é um sonho de cidade. é só uma realidade crua. demorar três horas pra chegar em casa é uma violência, não um sonho.
talvez eu volte pra ficar, talvez não. depende de várias variáveis. certamente não me sacrificaria pra ficar em são paulo. viver ali já é um sacrifício em si, não é preciso muito mais. os pequenos luxos das baladas por sessenta reais de consumação ou pagar trinta e cinco reais num hambúrguer não me impressionam nem me deixam contente. por vezes eu sou feliz num restaurante novo que conheci ou no cinema com a fileira de pessoas sozinhas, mas aprendi que ali se tem que ter muito cuidado pra não endurecer e eu ainda sou muito nova pra endurecer. são paulo é mais uma realidade do que um sonho. eu vou pra lá se precisar, mas entendi que pra ser feliz lá a gente tem que ser três tantos alheio, e se é necessário ser alheio pra sobreviver em algum lugar é um sinal claro de que não dá pra ser completamente feliz (não que eu acredite em felicidades plenas). de tudo aprendi isso: são paulo é mais uma cidade (um pouco mais cruel que as outras), que tem partes boas e partes ruins e só. o resto é pura gourmetização.